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Avatar X Guerra ao Terror

05/03/2010 | Por Rodrigo Carreiro | Categoria: Blog

A briga de foice travada entre os filmes “Avatar” e “Guerra ao Terror” pelos principais prêmios (direção e filme) do Oscar 2010 não se trata apenas de uma batalha conjugal (já que os respectivos diretores, James Cameron e Kathryn Bigelow, foram casados). Esse detalhe da vida íntima dos cineastas pode até pôr pimenta no caldo, especialmente para a imprensa sensacionalista que cobre Hollywood, mas não passa de jogo de espelhos.

O que realmente me interessa nessa briga, muito mais do que o resultado final, é que ela sintetiza com muita propriedade as duas principais tendências, em termos narrativos e estilísticos, para onde o cinema comercial está caminhando neste século XXI.

Numa leitura superficial, essas tendências podem parecer completamente opostas (algo como Realidade X Fantasia), mas de fato elas convergem para um objetivo comum: oferecer ao espectador uma experiência de imersão cada vez maior e mais intensa dentro do tecido narrativo dos filmes.

É essa a direção em que a indústria de entretenimento aposta que vai virar o jogo para superar a crise que se abateu sobre a atividade após o advento da pirataria digital.

“Avatar” simboliza a aposta na tecnologia, reeditando os esforços que os grandes estúdios fizeram nos anos 1950 para conter os estragos causados pelo advento da televisão. Projeções digitais, IMAX, efeitos em 3D com óculos eletrônicos são alguns dos artefatos que promovem a experiência coletiva do cinema como algo único, que não pode ser igualado dentro de casa.

Ademais, não é coincidência o fato de “Avatar” ter se tornado o primeiro longa-metragem a superar a casa dos U$ 2 bilhões em faturamento nas salas de exibição. James Cameron repetiu o fenômeno “Titanic” porque soube, mais uma vez, aliar a superação de fronteiras tecnológicas com uma narrativa relativamente estável, que recorre a mitos e arquétipos milenares (o salvador messiânico, a comunhão com a natureza) e – curioso que ninguém tenha observado isso antes – traz uma personagem feminina de personalidade forte, a na’vi Neyrity.

Cameron sabe perfeitamente que os maiores fenômenos de bilheteria são aqueles que conseguem atrair tanto os homens quanto as mulheres na platéia. O próprio “Titanic” e “E o Vento Levou” (1939) são provas perfeitas dessa teoria.

Do outro lado do espectro, temos “Guerra ao Terror”, um filme que aposta nas técnicas de documentário-guerrilha (filmagens em locações reais, câmera na mão) para narrar uma história de ficção.

As táticas, então, são quase opostas. Saem a tecnologia avançada e os heróis mitológicos, entram a câmera colada nos personagens, os close-ups extremos, a montagem frenética, os escombros reais que passam ao espectador a sensação de estar no meio de uma batalha de verdade.

O filme de Kathryn Bigelow usa as técnicas de documentário para oferecer ao público uma experiência pseudo-antropológica de imersão numa realidade extrema.

Nesse sentido, mesmo utilizando um conjunto de ferramentas estilísticas completamente diferentes, o objetivo de James Cameron é o mesmo: criar uma narrativa ficcional que se aproxima bastante da experiência proporcionada por um jogo de videogame.

Esta mídia eletrônica (cuja arrecadação vem superando em muito, ano a ano e já há uma década, os montantes amealhados por Hollywood) aposta na sensação de imersão do espectador dentro de uma realidade extrema, tendência cinematográfica que vem se tornando cada vez mais aguçada, em diferentes direções.

Uma dessas direções é justamente o uso de técnicas de documentário para dar ao filme uma textura mais próxima da realidade. Vejamos: a câmera diegética de “A Bruxa de Blair” e “REC”, os atores oriundos das favelas vistas em “Cidade de Deus” e “Quem Quer Ser um Milionário”, a câmera tremida e os cortes super-rápidos de “O Ultimato Bourne”. Todas são ferramentas que oferecem ao espectador a ilusão de estar presenciando um naco de realidade. Uma realidade que ele não pode experimentar do lado de cá da tela, correndo o risco de morrer.

Mora aí a sedução desses recursos estilísticos. Noel Carroll dizia, em seu livro “A Filosofia do Horror, ou Paradoxos do Coração”, que as pessoas só se permitiam sentir medo diante de filmes de suspense ou horror porque podiam experimentar um pouco da adrenalina daquelas situações extremas vistas na ficção sabendo que qualquer momento podiam fechar os olhos ou sair da sala, e escapulir para a segurança e o conforto do mundo real. O princípio é o mesmo.

“Avatar” usa outras técnicas para alcançar a experiência da imersão de outra maneira. A aposta é na tecnologia. Óculos eletrônicos, telas gigantes, mixagem de som em até nove canais. O ambiente de projeção é tratado de maneira a passar a impressão de que o espectador está dentro da tela, caminhando ao lado dos personagens.

O princípio da imersão pode ser conferido tanto em um filme quanto no outro. É nele que Hollywood esta apostando para driblar a crise. Trata-se de mais um forte indício do quanto o videogame tem influenciado, estética e narrativamente, o cinema.

Para resumir, a cerimônia do Oscar, em si, não me diz muita coisa. Eu poderia usar esse espaço aqui para fazer previsões, mas isso vocês já podem ler em dezenas de portais, sites e blogs por aí, provavelmente com mais conhecimento de causa do que eu. Isso não me interessa mais.

E, no entanto, a batalha entre “Avatar” e “Guerra ao Terror” pode estar apontando para as duas tendências mais importantes do cinema de entretenimento do século XXI. E isso sim, me interessa bastante. Nesse sentido, não haverá vencedores ou perdedores nesta guerra.



Helena e o novo amigo

11/02/2010 | Por Rodrigo Carreiro | Categoria: Blog

Conviver diariamente com crianças na faixa de idade de Nina (cinco anos) e Helena (três), minhas filhas, significa ser confrontado, todos os dias, com frases surpreendentes e raciocínios inesperados, quase sempre cheios de lógica e inteligência em estado bruto.

Na semana passada, levei as duas para uma tarde no Parque da Jaqueira. Estávamos apenas os três. Nina carregou junto a bicicleta. Helena ainda é muito nova para conseguir pedalar com desenvoltura, de modo que preferi levar um velocípede para ela.

Pensando no conforto dela (e sobretudo no meu), incluí no passeio um cabo de vassoura. O objetivo do dito-cujo era me permitir empurrá-la no velocípede em pé, sem precisar ficar agachado, o que certamente arrebentaria minhas costas. Eu antevia que ela não ia ter força pra pedalar sozinha por muito tempo.

Dito e feito. Após algumas pedaladas, Helena se declarou cansada. Para poder continuar acompanhando Nina, que pedalava a toda velocidade, me armei com o cabo de vassoura e me pus a correr junto com Helena. Ficando atrás do velocípede e empurrando-o com o pedaço de madeira, eu conseguia minimizar o esforço dela para pedalar.

Tudo correu bem durante aproximadamente 40 minutos. Duas voltas completas no parque, ou dois quilômetros depois, Nina se sentou, ofegante. Disse que estava cansada demais para pedalar até o local onde tínhamos estacionado o carro, do outro lado do parque.

Como não podia empurrar as duas crianças ao mesmo tempo, passei a empurrar a bicicleta com a mão direita (sendo “auxiliado” por Nina) e a carregar o velocípede na esquerda. Helena se encarregou de levar o cabo de vassoura.

Logo a pequena ficou um pouco para trás. Caminhava como uma miniatura de Moisés, carregando o cabo como um cajado. Observando de soslaio, comecei a perceber que ela entabulava uma espécie de diálogo com o pedaço de madeira, em voz baixa. Falava e “ouvia”. Parecia muito concentrada.

De repente, ela percebeu meus olhares curiosos para a rotina que havia estabelecido. Prontamente, olhou para a frente e me apresentou o novo “amigo” com uma frase lapidar:

- Ele é meu amigo. O nome dele é Pau.

Claro. Faz todo sentido do mundo. Esse tipo de raciocínio direto e lógico você não encontra em outro lugar que não o mundo das crianças. É por isso que eu adoro passar o maior tempo possível com as duas.

Naquele momento, porém, não consegui segurar a gargalhada. Até hoje ela não entendeu porque, após tão solene apresentação, o pai riu a ponto de tropeçar e derrubar velocípede, bicicleta e até o novo amigo da família.



Outro artigo acadêmico

09/02/2010 | Por Rodrigo Carreiro | Categoria: Blog

Todo mundo que me acompanha no site, no blog, no Twitter ou no Facebook sabe que venho, desde o começo do ano passado, pesquisando e escrevendo uma tese de doutorado sobre a obra de Sergio Leone. A pesquisa parte do pressuposto de que o italiano exerceu uma contribuição significativa às práticas estilísticas e narrativas dos cineastas contemporâneos, mas avalia que essa contribuição tem sido minimizada ou desprezada pelo fato de Leone ter trabalho com uma variação popular e marginal de um gênero fílmico menos nobre (o faroeste).

A tese, cuja primeira versão já foi toda escrita, está dividida em duas partes. A primeira consiste de um exame minucioso dos filmes de Leone, com o intuito de identificar os recursos de estilo e narrativa que ele revisou, adaptou ou criou e que, gradativamente, se tornaram populares entre os diretores de cinema das gerações subseqüentes.

A segunda parte busca avaliar as razões pelas quais os críticos e estudiosos do cinema nunca prestaram a devida atenção na obra de Leone.

Um excerto desta segunda parte acaba de aparecer como artigo científico publicado pela revista Lumina, da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Ele pode ser lido na íntegra aqui (formato PDF).

O artigo, cujo título é “O dia da desforra: a trajetória do spaghetti western na cultura midiática”, parte do conceito de Grande Divisor (Andreas Huyssen), oriundo da teoria crítica, e examina a hipótese de que as reações negativas dos críticos têm a ver com esse princípio, que deriva de uma barreira modernista imposta contra a influência supostamente nociva da cultura de massa na chamada “arte pura”.

O artigo publicado na Lumina complementa um outro artigo (já publicado na revista Icone, da UFPE, e disponível aqui). Juntos, esses dois textos formam o núcleo duro de um dos capítulos da tese (mais precisamente, o quinto capítulo).

O texto tem 17 páginas, incluindo a bibliografia. Fiquem à vontade para fazer comentários e sugestões desta página.



Reflexões sobre o 3D

07/02/2010 | Por Rodrigo Carreiro | Categoria: Blog

Por diversas razões, a seção Blog do Editor foi quase que completamente esvaziada ao longo do ano de 2009. Dois fatores foram determinantes neste processo de esvaziamento. Em primeiro lugar, o tempo relativamente pequeno que dediquei nesse ano ao site (certamente o período em que menos escrevi críticas desde 2003, quando o CR ficou on-line).

Em segundo lugar, os comentários rápidos nas páginas do CR no Twitter e no Facebook interferiram nesta seção. De fato, quando a versão 2.0 do site foi planejada, no primeiro semestre de 2008, eu não tinha planos para abrir contas em nenhum dos dois serviços. Isso não apenas aconteceu como ambos foram integrados ao site, com links no menu principal.

Parte dos comentários que eu tencionava publicar aqui no blog, de natureza pessoal e mais ou menos rápida, encaixou à perfeição nesse novo nicho, de forma que o Blog do Editor foi se tornando menos efetivo.

Não pretendo que seja sempre assim. A partir de 2010, mais desenvolto em minhas funções como professor e menos ocupado com o doutorado (tese já escrita, créditos quase completos), espero retomar gradualmente os posts aqui neste espaço. E começo a fazer isso já.

Desde que assisti a “Avatar” na sala 3D do Box Guararapes, em dezembro último, algumas questões relacionadas às projeções digitais em 3D vêm martelando na minha cabeça. Toquei rapidamente no assunto no Twitter e no Facebook, inclusive avisando que gostaria de postar aqui algumas reflexões sobre o tópico, o que faço agora.

Os dois pontos que gostaria de explorar no momento têm conexões indiretas com minha tese de doutorado. Não com meu objeto de estudo (os filmes de Sergio Leone), mas com a moldura teórica principal que usei para abordá-lo: o cognitivismo de David Bordwell e outros pesquisadores cinematográficos.

Como se sabe, o cognitivismo toma emprestado termos e conceitos de muitas disciplinas, mas concentra-se fundamentalmente nos processos de percepção do indivíduo. No que se refere aos filmes, interessa aos pesquisadores desta corrente saber como cada um de nós processa as informações visuais e auditivas, particularmente diante das escolhas estilísticas efetuadas pelos cineastas.

É claro que o suporte em que vemos o produto audiovisual afeta nossa percepção. Ver o mesmo filme numa sala IMAX, numa sala 3D Digital, numa sala de cinema comum, na TV ou num iPod não constitui a mesma experiência. Na verdade são cinco experiências, similares mas distintas. Nesse ponto, os cognitivistas interessam-se menos pelos filmes em si e mais pela experiência perceptiva dos membros da audiência.

Este é o contexto no qual desejo colocar dois elementos para essa reflexão.

O primeiro elemento diz respeito à leitura de legendas numa tela em 3D. Esse debate foi intenso no Recife, durante a época da estréia de “Avatar”, por causa da polêmica decisão da Box Cinemas, que descartou o uso de cópias com legendas e preferiu exibir o filme de James Cameron, na única sala 3D Digital do Recife, apenas em versão dublada.

Obviamente, a posição da Gerência de Marketing da empresa é condenável. Seria no mínimo democrático dar ao público a chance de ver o filme da maneira que cada membro da platéia desejasse.

Por outro lado, o que se viu entre os críticos do Recife foi uma reclamação generalizada. Virtualmente todos os críticos reclamaram da ausência de cópias legendadas em 3D. Aferraram-se, basicamente, à idéia conservadora – muito popular entre cinéfilos – de que filmes devem ser vistos com áudio original, e que a experiência fílmica do mesmo filme assistido em versão dublada é obrigatoriamente inferior.

Ora, nem sempre. Vamos parar um pouco para pensar nisso. Mesmo antes do 3D Digital, havia uma corrente de pessoas que preferia assistir aos filmes dublados. A razão podia ser de ordem intelectual (pessoas com baixo nível de escolaridade lêem mais devagar e podem se complicar em filmes muito dialogados), mas também podia ser da ordem da percepção. Aqui entra o cognitivismo.

Com as legendas, acrescenta-se um elemento a mais no campo de visão do espectador; um elemento ainda mais artificial do que a voz do dublador (apesar de culturalmente mais aceito). Um elemento que exige certo grau de atenção e que, em muitos casos, impede que o espectador inspecione ou desfrute da imagem com o nível de atenção pretendido pelo cineasta que a compôs, em muitos casos (nem sempre) com cuidado.

Para citar um exemplo de carne e osso, tenho um irmão que nunca gostou de assistir a filmes com legendas. Ele não é ignorante; é cinéfilo e doutor em Letras. Pode ler legendas perfeitamente, mas desde muito jovem suporta a teoria de que o tempo gasto olhando as legendas leva o espectador a fruir de maneira diferente as imagens que desfilam diante de seus olhos. Numa época em que a montagem é cada vez mais rápida e os planos se sustentam na tela por cada vez menos tempo, esse raciocínio tem razão de ser, sim.

No entanto, ele vai de encontro ao senso comum da comunidade cinéfila, para quem a idéia de ver legendas parece ser não-invasiva (apesar de a mesma categoria de consumir ficar indignada quando filmes são exibidos fora da janela – leia-se formato de imagem – pretendida pelo realizador, o que gera uma distorção perceptiva da mesma natureza, apesar do grau diferente).

No caso de 3D, o raciocínio marginal ganha um reforço extra. Quem já assistiu a filmes em 3D sabe que nosso cérebro leva algum tempo para se adaptar às imagens com várias camadas de profundidade. Com a nova tecnologia, as legendas não aparecem “grudadas” à tela, como antes, mas flutuando diante da imagem do filme. Elas competem pela atenção do espectador com a imagem do filme em si. Em títulos como “Avatar” e “Coraline” (2009), que apresentam composições visuais cuidadosas repletas de camadas de profundidades diferentes, o problema é acentuado.

Isto ficou evidente nas cenas de “Avatar” em que os personagens falam na língua alienígena. Nesses trechos havia legendas na cópia exibida no Recife. Para mim, pelo menos, aqueles letreiros amarelos infiltrando-se entre árvores e seres azuis distraíam um bocado. De modo que eu, com toda sinceridade, me senti satisfeito em ver o filme numa versão dublada. Ainda que a sincronia labial fosse perdida, pude desfrutar melhor do trabalho visual de James Cameron (que, para mim, é bem melhor do que seu trabalho com enredo e com som).

O segundo aspecto do 3D para o qual gostaria de chamar a atenção se relaciona à montagem visual. Em seu blog, David Bordwell escreveu algumas vezes sobre o formato e levantou uma teoria, a ser confirmada num futuro próximo. Ele acha que a adoção do 3D como formato principal de projeção deve levar editores e cineastas a alterar certas tendências de montagem que se consolidaram nas últimas décadas.

Em que direções essas mudanças ocorrerão ainda é difícil saber. No entanto, o pesquisador norte-americano acredita ser possível que os filmes passem a ser montados em ritmo menos acelerado, com menos cortes. Ele acha que as imagens em 3D precisam ficar na tela por mais tempo, para serem devidamente percebidas em toda a sua complexidade. Isso requer planos mais longos.

Em tese, o raciocínio parece correto. Como eu mesmo tinha essa opinião, fiquei feliz de ler sobre o assunto nos textos de Bordwell. No entanto, não senti de modo algum essa diminuição na velocidade da montagem em filmes como “Avatar” e “Coraline”.

Revi o filme de James Cameron na semana passada, em 2D, prestando bastante atenção nesse ponto. A montagem visual não chega ao patamar da quase-esquizofrenia de longas como “O Ultimato Bourne” (2007) ou “Guerra ao Terror” (2009), mas tampouco retrocede aos níveis vistos nos anos 1970, quando essa tendência começou a se intensificar.

Não cheguei ao ponto de calcular a média de duração de um plano, o que poderia confirmar ou descartar a hipótese (teria que contar o número total de planos do filme e depois dividir esse número pela duração em segundos). Mas não me surpreenderia se alguém me informasse que “Avatar” apresenta algo em torno de 3 segundos por plano. Seria uma média perfeitamente coerente com os filmes de fantasia e aventura do século XXI.

Ou seja, nesse ponto em particular – os efeitos do 3D na montagem visual, para adaptar o novo suporte cinematográfico à percepção dos espectadores – ainda estamos por presenciar um novo ciclo de mudanças estilísticas.

Ou, talvez, Bordwell esteja errado em sua lógica. Talvez as novas gerações tenham uma percepção visual tão mais aguçada (por causa da natureza fragmentada na Internet e dos dispositivos em miniatura com os quais estão tão familiarizadas) que se adaptarão ao suporte antes que os produtores de conteúdo sejam obrigados a revisar seus procedimentos estilísticos.

Em seus livros, Bordwell refuta essa idéia. Ele acha que o aparelho biológico da espécie humana não seria capaz de se adaptar tão rapidamente a mudanças de percepção. Embora o admire bastante, acho bem possível que ele esteja errado nesse ponto.

Veremos.



Melhores de 2009

28/12/2009 | Por Rodrigo Carreiro | Categoria: Blog

Minha lista dos melhores filmes deste ano precisa ser bastante relativizada desta vez. Levem em consideração de que, por causa das atividades como professor e também por causa da tese de doutorado, fui bem menos ao cinema do que nos anos anteriores. Acho que desde 1998 ou 1999 eu não ia tão pouco ao cinema.

Vi muitos filmes, claro; ainda mais do que em 2008 (até 28 de dezembro foram 431, exatamente um a menos do que o total do ano passado, mas com quatro dias por vir). Só que a maioria deles eu vi em casa mesmo. Sobretudo westerns – assisti a mais de 100 filmes do gênero, entre norte-americanos e italianos, por causa da tese – e filmes infantis (“culpa” das meninas).

Isso posto, vamos aos critérios. Para fazer parte da lista, um filme deveria: 1) Ter sido visto por mim, obviamente; 2) Ter sido exibido no Recife entre janeiro e dezembro de 2009, em algum cinema, pelo menos uma vez; 3) Ser um longa-metragem.

Nada contra curtas-metragens, apenas vejo tão poucos deles que não me sinto qualificado a fazer uma lista.

No geral, devo dizer que a qualidade dos filmes em 2009 me pareceu bem maior do que no ano anterior. Em 2008, foi difícil escolher dez filmes dos quais eu realmente gostei muito. Desta vez havia tantos candidatos que me senti obrigado a fazer um Top 20 (e ainda cortar alguns títulos interessantes).

A lista está em ordem de preferência.

Top 20
1) Bastardos Inglórios
2) Amantes
3) Deixa Ela Entrar
4) O Lutador
5) Up – Altas Aventuras
6) O Caçador
7) Atividade Paranormal
8 ) Valsa com Bashir
9) Entre os Muros da Escola
10) Coraline
11) Mãe
12) Gomorra
13) Gran Torino
14) Sede de Sangue
15) Inimigos Públicos
16) O Casamento de Rachel
17) Simplesmente Feliz
18) Arrasta-me Para o Inferno
19) Distrito 9
20) Tony Manero



Artigo acadêmico

27/10/2009 | Por Rodrigo Carreiro | Categoria: Blog

Eis uma ocasião bacana para reativar o blog do editor dentro do Cine Repórter. Este espaço, que tem abrigado postagens de cunho mais pessoal, andou parado durante vários meses.

Duas são as razões para essa interrupção involuntária. A primeira, e mais imediata, é a diluição do conteúdo das postagens que seriam destinada a este espaço dentro dos micro-blogs que mantenho no Twitter e no Facebook, onde tenho postado regularmente pequenas notas sobre meu cotidiano, todos os dias.

A segunda razão, não menos importante, responde também pela redução do número semanal de críticas publicadas dentro do Cine Repórter neste ano de 2009, em que minha média pessoal de textos publicados caiu de seis para dois por semana.

Esta razão é a minha pesquisa de doutorado, que tem tomado a maior parte do meu tempo com leituras e rascunhos para a versão final da tese.

Pois bem: um pequeno trecho dos apontamentos que servirão de base para a versão final da tese acaba de ser publicado, na forma de artigo acadêmico, dentro da Revista Ícone, mantida pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE.

Minha tese, para quem não acompanha os posts que publico regularmente sobre ela no Twitter e no Facebook, analisa a obra de Sergio Leone e tenta comprovar o papel fundamental que o diretor italiano teve na cunhagem do estilo contemporâneo de fazer cinema – um papel, a meu ver, bastante negligenciado.

O artigo completo tem 15 páginas. Trata-se de uma espécie de versão resumida daquele que hoje é o segundo capítulo da tese. Ele pode ser lido na íntegra, em versão PDF, clicando-se aqui.

Vou repetir: o trecho da tese está aqui.

Àqueles leitores que não estão acostumados com leituras acadêmicas, um aviso: o formato do artigo, entremeado de citações bibliográficas, pode causar certo estranhamento. A linguagem, no entanto, não está empolada e cheia de conceitos incompreensíveis para leigos, como é hábito nesse tipo de texto. Na medida do possível, eu me esforço bastante para que o formato final seja perfeitamente legível por qualquer cinéfilo.

O artigo é intitulado “Por um Punhado de Dólares: Gênero, autoria e questões de valor na estética do spaghetti western”. O texto resgata a fortuna crítica dedicada ao gênero (ou seja, faz um apanhado geral daquilo que os críticos escreveram sobre os filmes do ciclo italiano nas décadas de 1960 e 1970) e analisa as razões da má vontade dos analistas fílmicos para com a obra de Leone.

Caso desejem deixar comentários, sugestões, críticas ou elogios, usem o espaço dos comentários deste post.

Cliquem aqui.

E boa leitura.



Blu-Ray no Brasil

16/09/2009 | Por Rodrigo Carreiro | Categoria: Blog

Aí vai a dica de um site brasileiro interessante para colecionadores que já aderiram ao Blu-Ray.

http://bdslegendados.orgfree.com tem o objetivo de listar títulos
em Blu-Ray legendados em português lançados ao redor do mundo. A lista já possui mais de 1000 títulos e em breve contará com mais de 1300.

No momento, é a maior ferramenta que há na web a esse respeito e pode ser de grande auxílio a colecionadores brasileiros de BDs que precisam recorrer à importação para conseguir títulos ainda não disponíveis por aqui.



Nina e o peixinho

20/07/2009 | Por Rodrigo Carreiro | Categoria: Blog

Há uma semana, a “família” lá em casa ganhou o acréscimo de sete peixinhos e um aquário enorme. Neste domingo, depois de uma semana em que tudo correu conforme o figurino, a primeira baixa. Para acostumar as crianças com a idéia da morte (um conceito super-complicado de explicar a meninos pequenos), não escondemos nada das duas. Fizemos até uma quase-cerimônia de despedida. Elas puderam dar adeus ao peixinho morto, rezaram para ele entrar no “céu dos peixinhos” e jogaram descarga abaixo, com a maior pompa.

Algumas horas depois, minha filha mais velha teve insônia. Nina tem 4 anos. Pegou no sono às 18h, dormiu até as 23h e acordou querendo ver as Videocassetadas. Jantou e não dormiu mais. Fiquei com ela procurando umas cacetadas antigas no YouTube, depois jogamos um pouco de memória, e nada de ela querer voltar para a cama.

Lá pelas 2h, já babando de sono, fiz um acordo com ela. Coloquei o DVD de “Os Incríveis”, deixei a porta do quarto aberta e pedi para ela me chamar se quisesse alguma coisa. E completei:

- Papai está morto de sono!

Nina olhou para mim, espantada.

- E você vai morrer agora?!?!

Um daqueles momentos em que a gente não sabe como responder. Ainda mais quando está quase caindo pelas tabelas.

- Não, filha. A gente diz que está “morto de sono” quanto está quase dormindo, sem agüentar mais ficar acordado. É um jeito de falar. Eu não vou morrer. Só vou dormir.

- Ah, sim. Porque hoje já morreu o meu peixinho.



Na lista negra do YouTube

15/07/2009 | Por Rodrigo Carreiro | Categoria: Blog

Um fato estranho que eu gostaria de compartilhar com vocês.

Como os leitores mais fiéis devem saber, publiquei o videocast sobre som offcreen no último sábado pela manhã. O vídeo foi gravado e editado na sexta-feira à noite. Mais ou menos à 1h da manhã, quando finalizei tudo, coloquei o vídeo para fazer upload para o YouTube e fui dormir, deixando o computador ligado.

Ao acordar, pouco depois das 7h, fui checar se a operação tinha corrido bem. Sim, sem nenhum problema; o que me deixou intrigado foi uma mensagem do YouTube que já estava em minha caixa postal.

Esta mensagem avisava que meu videocast recém-postado continha cenas de propriedade da MGM, e portanto o vídeo estava sujeito a ser retirado do ar, sem aviso, pelos administradores do serviço, caso a MGM o solicitasse.

Confesso que fiquei perplexo com a agilidade do YouTube. Num espaço de mais ou menos cinco horas, algum funcionário da empresa tinha assistido ao meu vídeo, identificado nele um trecho de filme da MGM, e me enviado um e-mail com o alerta.

De fato, duas das três cenas de filmes de Sergio Leone que constam do videocast (“Por um Punhado de Dólares a Mais” e “Três Homens em Conflito”) foram lançados em DVD pela MGM. “Era uma Vez no Oeste” pertence à Paramount, o que me leva a crer que esse estúdio também pode tirar meu videocast do ar a qualquer momento.

Fiquei pensando um bocado sobre o fato. Como alguns de vocês devem lembrar, há alguns meses tive o dissabor de ter um videocast retirado do YouTube, a mando a Universal, porque o vídeo continha um trecho de “Tubarão”. Cheguei à conclusão de que minha conta no YouTube deve estar fazendo parte de uma espécie de lista negra, e toda a movimentação feita nela – ou seja, toda inclusão de vídeos – está sendo monitorada pela equipe do site.

Não sei o que é mais chato: a sensação de estar sendo “vigiado” pela equipe do YouTube, ou o fato de ser intimado a não utilizar mais trechos de filmes nos meus comentários sobre os mesmos.

Sim, a mensagem do YouTube deixava claro que eu estava infringindo a lei norte-americana (a sua contraparte brasileira autoriza o uso de trechos audiovisuais curtos, de até 30 segundos, e eu sei disso porque trabalhei na Globo por cinco anos). Não é isso que me irrita, mas a aplicação incondicional e impassível de uma legislação que acaba por se revelar burra, já que duvido que qualquer um dos videocasts leve um espectador a decidir não ver determinado filme – o mais provável é que ocorra o contrário!

Antes que perguntem, eu já uso outro serviço de armazenamento on-line de vídeos (essencialmente, para fazer back up). Mas nenhum dos muitos sites semelhantes espalhados pela Internet tem a velocidade, a estabilidade e a abrangência do YouTube.



Redes sociais

08/07/2009 | Por Rodrigo Carreiro | Categoria: Blog

Os leitores mais fiéis e mais atentos do Cine Repórter já devem ter percebido que há alguns dias fizemos (eu e Saulo Benigno, o programador; na verdade quem fez foi ele, eu apenas sugeri) algumas alterações na arquitetura de informação do site.

Subimos para o menu principal três novos canais: minhas páginas no Twitter e no Facebook, e mais a página da comunidade do Cine Repórter no Orkut.

Para dar o crédito a quem merece, essas sugestões me foram enviadas por uma colega professora da UFPE que é também leitora do site. Ela havia me perguntado sobre a possibilidade de criar um fórum onde os leitores pudessem conversar uns com os outros.

No momento, criar um fórum dentro do ambiente do Cine Repórter é tecnicamente inviável (pelo menos para mim, que não tenho dinheiro para isso). De qualquer forma, os espaços pré-existentes dentro dessas três redes sociais são mais do que suficientes para promover um debate mais amplo e abrangente entre os leitores, e destes comigo.

Só que o sucesso da idéia depende mais de vocês do que de mim. A comunidade no Orkut, por exemplo, completou quatro meses sem um único comentário publicado. Além disso, são raríssimos os leitores que se dirigem a mim no Twitter ou no Facebook.

De minha parte, posso garantir que passarei e participar de forma mais ativa das três redes sociais.

Vamos ver se dá certo.



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