Avatar X Guerra ao Terror

05/03/2010 | Categoria: Blog

Mais do que travar uma disputa acirrada pelo Oscar 2010, os filmes do ex-casal James Cameron e Kathryn Bigelow apontam para as duas tendências dominantes do cinema de entretenimento do século XXI: tecnologia e imersão

Por: Rodrigo Carreiro

A briga de foice travada entre os filmes “Avatar” e “Guerra ao Terror” pelos principais prêmios (direção e filme) do Oscar 2010 não se trata apenas de uma batalha conjugal (já que os respectivos diretores, James Cameron e Kathryn Bigelow, foram casados). Esse detalhe da vida íntima dos cineastas pode até pôr pimenta no caldo, especialmente para a imprensa sensacionalista que cobre Hollywood, mas não passa de jogo de espelhos.

O que realmente me interessa nessa briga, muito mais do que o resultado final, é que ela sintetiza com muita propriedade as duas principais tendências, em termos narrativos e estilísticos, para onde o cinema comercial está caminhando neste século XXI.

Numa leitura superficial, essas tendências podem parecer completamente opostas (algo como Realidade X Fantasia), mas de fato elas convergem para um objetivo comum: oferecer ao espectador uma experiência de imersão cada vez maior e mais intensa dentro do tecido narrativo dos filmes.

É essa a direção em que a indústria de entretenimento aposta que vai virar o jogo para superar a crise que se abateu sobre a atividade após o advento da pirataria digital.

“Avatar” simboliza a aposta na tecnologia, reeditando os esforços que os grandes estúdios fizeram nos anos 1950 para conter os estragos causados pelo advento da televisão. Projeções digitais, IMAX, efeitos em 3D com óculos eletrônicos são alguns dos artefatos que promovem a experiência coletiva do cinema como algo único, que não pode ser igualado dentro de casa.

Ademais, não é coincidência o fato de “Avatar” ter se tornado o primeiro longa-metragem a superar a casa dos U$ 2 bilhões em faturamento nas salas de exibição. James Cameron repetiu o fenômeno “Titanic” porque soube, mais uma vez, aliar a superação de fronteiras tecnológicas com uma narrativa relativamente estável, que recorre a mitos e arquétipos milenares (o salvador messiânico, a comunhão com a natureza) e – curioso que ninguém tenha observado isso antes – traz uma personagem feminina de personalidade forte, a na’vi Neyrity.

Cameron sabe perfeitamente que os maiores fenômenos de bilheteria são aqueles que conseguem atrair tanto os homens quanto as mulheres na platéia. O próprio “Titanic” e “E o Vento Levou” (1939) são provas perfeitas dessa teoria.

Do outro lado do espectro, temos “Guerra ao Terror”, um filme que aposta nas técnicas de documentário-guerrilha (filmagens em locações reais, câmera na mão) para narrar uma história de ficção.

As táticas, então, são quase opostas. Saem a tecnologia avançada e os heróis mitológicos, entram a câmera colada nos personagens, os close-ups extremos, a montagem frenética, os escombros reais que passam ao espectador a sensação de estar no meio de uma batalha de verdade.

O filme de Kathryn Bigelow usa as técnicas de documentário para oferecer ao público uma experiência pseudo-antropológica de imersão numa realidade extrema.

Nesse sentido, mesmo utilizando um conjunto de ferramentas estilísticas completamente diferentes, o objetivo de James Cameron é o mesmo: criar uma narrativa ficcional que se aproxima bastante da experiência proporcionada por um jogo de videogame.

Esta mídia eletrônica (cuja arrecadação vem superando em muito, ano a ano e já há uma década, os montantes amealhados por Hollywood) aposta na sensação de imersão do espectador dentro de uma realidade extrema, tendência cinematográfica que vem se tornando cada vez mais aguçada, em diferentes direções.

Uma dessas direções é justamente o uso de técnicas de documentário para dar ao filme uma textura mais próxima da realidade. Vejamos: a câmera diegética de “A Bruxa de Blair” e “REC”, os atores oriundos das favelas vistas em “Cidade de Deus” e “Quem Quer Ser um Milionário”, a câmera tremida e os cortes super-rápidos de “O Ultimato Bourne”. Todas são ferramentas que oferecem ao espectador a ilusão de estar presenciando um naco de realidade. Uma realidade que ele não pode experimentar do lado de cá da tela, correndo o risco de morrer.

Mora aí a sedução desses recursos estilísticos. Noel Carroll dizia, em seu livro “A Filosofia do Horror, ou Paradoxos do Coração”, que as pessoas só se permitiam sentir medo diante de filmes de suspense ou horror porque podiam experimentar um pouco da adrenalina daquelas situações extremas vistas na ficção sabendo que qualquer momento podiam fechar os olhos ou sair da sala, e escapulir para a segurança e o conforto do mundo real. O princípio é o mesmo.

“Avatar” usa outras técnicas para alcançar a experiência da imersão de outra maneira. A aposta é na tecnologia. Óculos eletrônicos, telas gigantes, mixagem de som em até nove canais. O ambiente de projeção é tratado de maneira a passar a impressão de que o espectador está dentro da tela, caminhando ao lado dos personagens.

O princípio da imersão pode ser conferido tanto em um filme quanto no outro. É nele que Hollywood esta apostando para driblar a crise. Trata-se de mais um forte indício do quanto o videogame tem influenciado, estética e narrativamente, o cinema.

Para resumir, a cerimônia do Oscar, em si, não me diz muita coisa. Eu poderia usar esse espaço aqui para fazer previsões, mas isso vocês já podem ler em dezenas de portais, sites e blogs por aí, provavelmente com mais conhecimento de causa do que eu. Isso não me interessa mais.

E, no entanto, a batalha entre “Avatar” e “Guerra ao Terror” pode estar apontando para as duas tendências mais importantes do cinema de entretenimento do século XXI. E isso sim, me interessa bastante. Nesse sentido, não haverá vencedores ou perdedores nesta guerra.

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