David Bordwell e “Coraline”

26/02/2009 | Categoria: Blog

Em seu blog, o grande teórico norte-americano dá uma aula prática sobre profundidade de campo e percepção

Por: Rodrigo Carreiro

Não é raro, quando um crítico está conversando sobre seu trabalho com cinéfilos, que ouça palavras elogiosas sobre sua percepção acurada para fenômenos imagéticos e/ou sonoros que geralmente passam despercebidos a um leigo.

Por exemplo, na crítica que escrevi sobre “Milk”, o Jurandy postou um comentário dizendo que não havia notado um detalhe para a qual chamei atenção no texto, que era a maneira incomum de Gus Van Sant cortar de uma tomada para outra, muitas vezes sinalizando o corte na imagem ao antecipar o corte sonoro, provocando uma ligeira dessincronia.

Minha resposta, na ocasião, foi simplesmente que um critico deve treinar seu olhar para esclarecer detalhes como esse, que podem passar despercebidos para alguém sem treinamento formal na “leitura” de filmes.

Eu deveria ter acrescentado que, na verdade, espectadores atentos percebem essas coisas. Eles sentem. Talvez não consigam verbalizá-las. Podem não ser capazes de dizer qual a ferramenta utilizada pelo cineasta para provocar determinada sensação, mas são capazes de senti-la.

A percepção humana é de uma sofisticação que constantemente me deixa boquiaberto, à medida que eu aprendo mais e mais sobre esse trabalho fascinante.

Dito isso, devo dizer que ainda estou engatinhando na arte de desenvolver minha própria percepção aos detalhes da arte cinematográfica.

Quer um exemplo? O grande teórico norte-americano David Bordwell, um dos gigantes na teoria do cinema contemporânea (e provavelmente meu escritor favorito de textos relacionados a cinema, num nível acadêmico) publicou, no blog dele, um post absolutamente fantástico a respeito do uso da profundidade de campo em “Coraline”.

Eu assisti ao filme de Henry Selick. Em 3D. A profundidade de campo me chamou a atenção. Cheguei a tocar no assunto, superficialmente, na crítica que escrevi. Mas não fui capaz de esclarecer por completo (muito menos com a elegância, o desprendimento e o didatismo impecáveis de Bordwell) a técnica usada para, sutilmente, demarcar as diferenças entre os dois universos onde a história se passa.

É verdade que Bordwell contou com a preciosa colaboração do diretor de fotografia do filme, que deu uma longa entrevista falando sobre o assunto. Mesmo assim, ele foi muito além do que eu teria sido capaz. 

O texto original, em inglês, está aqui. Deliciem-se.

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5 comentários
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  1. Muito interessante o texto do cara, realmente – apesar do meu inglês bastante mediano.
    Você tocou num ponto que tenho discutido bastante com amigos recentemente A chamada percepção do espectador. Sempre prefiro ler várias críticas antes de ver o filme; pouco me interessa o final, as surpresas, enfim… Às vezes começo a ver um filme já sabendo como a trama vai se desenrolar e isso não afeta minha experiência. Creio que é mais importante entender como e por que a história vai ser contada do que ela em si.
    Onde quero chegar é que, por mais atento e informado que o espectador seja, ele não vai ver as obras do Welles, por exemplo, com os mesmo olhos de quem leu, sei lá, o livro do Bazin sobre ele, várias críticas, entendeu na teoria mesmo. Aí vem minha crítica à chamada cinefilia; como diz Luis Carlos Jr, da Contracampo, hoje em dia o cinéfilo não é mais aquele cara que gosta só dos filmes de faroeste, ou é expert só em filme noir e não conhece o cinema de arte europeu da segunda metade do século XX. Quer dizer, hoje, com a internet, o cinéfilo conhece o cinema com uma facilidade absurda e tem acesso aos clássicos de Dreyer, Lang, Murnau, Renoir, de uma forma bastante diferente daquele cinéfilo VHS do anos 90. Daí surge a nova cinefilia que consome filme como fast-food, que não faz uma boa digestão e simplesmente vê por ver. Pra ilustrar meu ponto de vista, coloco aqui uma citação bastante discutida por diferentes motivos:
    “Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a ‘informação’, não a ‘instrução’. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero ‘meio’ para instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma, no entanto é uma maneira de pensar que caracteriza uma cabeça filosófica.”
    Concluindo, acabei tocando mais na percepção do espectador(e/ou do cinfélifo! rs)que na profundidade de campo; no entando, creio que esse é um ponto pouco discutido hoje em dia e não pude deixar passar.

    Abraços.

  2. Ótimo comentário, Paolo. Eu nunca havia pensando sob esse ponto de vista, mas você tem razão. E olha que isso tem impacto sobre minha pesquisa acadêmica. Aliás, de onde você tirou essa citação sobre informação e instrução? Excelente!!

  3. É uma citação do Schopenhauer que me marcou bastante. Uso como uma crítica à cinefilia de hoje que vê tudo e não digeri nada; aquele tipo de pessoa que fica no ‘gostei/não gostei’, ignora o argumento do crítico, não tenta entender o propósito do filme, do diretor, enfim. Nesse ponto que a vida acaba se tornando um despropósito, não… rsrs
    Fico feliz que esse comentário tenha tido algum impacto(por menor que seja! rsrs) na sua pesquisa acadêmica, Rodrigo. Abraços

  4. Muito legal. Dei uma fuçada no Google e encontrei o livro do Schopenhauer. Vai me ser bastante útil. Agradeço de coração pelo comentário.

  5. Será que por ser uma animação esse recurso da profundidade não seja mais fácil de utilizar a uma imagem captada por cameras? uma pergunta meramente tecnica…
    Rodrigo,
    Gosto muito do site, visito com frequencia!
    vc ta de parabens, faz a gente pensar além do “gostei e não gostei” do paolo

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