Experiência emocional

15/01/2009 | Categoria: Blog

Um relato pessoal e como um filme – qualquer filme – tem o poder de despertar emoções adormecidas

Por: Rodrigo Carreiro

Gostaria de compartilhar com vocês uma experiência emocional inesperada e violenta, vivida hoje, durante a cabine para a imprensa de “O Curioso Caso de Benjamin Button”. No entanto, recomendo a todos os que ainda não viram o filme, e gostariam de assisti-lo sabendo o mínimo possível, que parassem por aqui e só retornassem a este post após vê-lo.

Digo isso porque vou contar alguns detalhes do enredo. Embora não sejam muito importantes para a narrativa, seu conhecimento prévio pode incomodar alguns leitores. Portanto, estejam avisados. A partir do próximo parágrafo, vem spoiler por aí.

Ainda aqui? OK, vamos em frente. Tudo corria normalmente durante o filme quando, lá pelo meio do terceiro ato, uma determinada personagem recebe um monte de cartões postais antigos, escritos para ela pelo verdadeiro pai biológico, a quem nunca pôde conhecer.

Ela começa a ler alguns. O cartão enviado na data do aniversário de dois anos: “Gostaria de poder beijá-la e dizer boa noite”. Aos cinco anos: “Adoraria poder tê-la levado ao primeiro dia de aula”. Aos 13 anos: “Queria poder abraçá-la quando estivesse de coração partido por causa de algum rapaz”.

A essa altura, sem que nada me houvesse preparado para tanto, meus olhos se encheram de lágrimas e a garganta fechou. Perdi a respiração por um instante. Fiquei sem fôlego.

Durou uma fração de segundo. Não fiz nenhum ruído, não mexi um músculo, e no instante seguinte já tentava racionalizar: o que havia se passado? Qual o motivo de tamanha reação emocional, algo que não experimentava de modo tão súbito dentro de um cinema há tanto tempo?

(A propósito: “Jogo de Cena” não conta, pois nesse caso eu sentia as lágrimas chegando muito antes de elas efetivamente aparecerem).

A ficha caiu rapidamente. Eu havia experimentado um momento de completa e esmagadora sintonia com os sentimentos do personagem-narrador (o autor dos cartões postais, que sequer estava em cena!).

Como vocês devem saber, tenho duas filhas. Acompanhar o crescimento delas é uma delícia, mas uma pequena parte de mim (que tento, ou tentava, manter bem abafada) morre um pouquinho a cada dia por saber que, alguns anos à frente (espero que muitos), não estarei mais aqui para vê-las.

Enfim, foi uma epifania. Passou logo. Pude me recompor e ver o resto do filme (que não é uma obra-prima, mas é ótimo).

Depois, continuei pensando naquele breve momento de pura emoção que me atingiu como o raio que cai sete vezes na cabeça do mesmo personagem.

E foi aí que me dei conta de uma das particularidades que fazem do cinema uma arte tão singular.

Via de regra, um crítico não se permite sentir esse tipo de emoção. Somos treinados para desconstruir a narrativa ao mesmo tempo em que ela se desenrola. Nosso olhar é técnico; às vezes percebemos onde está a emoção de determinada cena, mas não a sentimos – apenas a reconhecemos.

Qualquer um que compareça a uma cabine de imprensa, algum dia, vai perceber claramente o que estou falando. É raro ouvir risadas quando estamos sentados entre críticos. Choro? Acho que nunca vi, em 10 anos de profissão. Alguns de nós até escrevem em bloquinhos com canetas luminosas.

Vejam bem: não é que todo crítico escolhe conscientemente não sentir emoções. É que muita coisa está passando pela cabeça, durante uma projeção, para que essas emoções possam vir à tona. Eu mesmo nunca havia pensado sobre isso, até hoje.

Aí é que vem o poder do cinema. Hoje, eu não escolhi verter lágrimas. Elas me escolheram. Simplesmente não pude evitá-las. E tenho certeza de que fui o único, dentre as 20 e poucas pessoas que estavam dentro da sala 8 do Multiplex Recife, que teve esta experiência naquele exato instante.

Porque um filme, afinal de contas, nunca é o mesmo filme para duas pessoas diferentes. Cada membro da platéia faz a sua própria leitura do que vê na tela grande. As leituras podem ser parecidas, mas nunca idênticas. São como impressões digitais.

Ademais, somente uma arte inscrita no tempo (caso do cinema, e também da música) é capaz de oferecer uma experiência emocional tão poderosa, que atinja um espectador sem passar por qualquer tipo de filtro intelectual.

Prestem atenção: não estou dizendo que a literatura (e demais artes não inscritas no tempo) é inferior ao cinema, no que toca à capacidade de provocar emoções adormecidas. Um bom texto também consegue fazer qualquer um chorar. Mas as lágrimas literárias, porém, são sempre intermediadas por um filtro intelectual. Você lê, processa a informação em algum canto do cérebro, e chora.

Minha experiência de hoje não foi assim. Só consegui processar o que havia acontecido depois do evento em si. Nunca passei por nada parecido lendo um livro.

Tirei duas lições do episódio. A primeira: são detalhes assim me fazem amar o cinema como expressão artística única e insubstituível.

A segunda: minhas filhas são meu tesouro mais precioso, e por mais que os filmes possam ser grandes companheiros, só conseguirão – como no caso de hoje – roçar levemente no tamanho da resposta emocional que qualquer evento relacionado a elas provoca em mim.

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