O dia em que Marlon Brando virou sorvete

05/12/2010 | Categoria: Blog

Como a interpretação de uma criança para um desenho numa camiseta pode ensinar uma lição importante

Por: Rodrigo Carreiro

Minha mãe dizia – e continua dizendo – que a gente deve sempre prestar atenção no que as crianças dizem. Pode-se aprender lições inesquecíveis com elas.

Para mim, um dos episódios mais interessantes que ilustram essa máxima aconteceu em fevereiro de 2009, quando me preparava para sair de casa no dia em que iria ministrar a primeira aula do semestre de uma disciplina chamada Cinema e Narratividade, na UFPE.

Tenho duas filhas. No momento em que me preparava para ir à universidade, a mais velha (Nina, então com 5 anos) assistia a um desenho animado, sentada no sofá. Ela me viu colocar uma camisa com a estampa estilizada em alto contraste de Marlon Brando numa cena de “O Poderoso Chefão” (imagem reproduzida abaixo). Então, olhou pra mim e soltou uma observação despretensiosa:

– Pai, o homem na camisa parece um sorvete.

Como não entendi a observação, olhei de novo para a camisa. E tomei um susto: a danada tinha razão! A camisa branca que Brando usava por dentro do terno parecia uma casquinha; seu rosto formava uma bola caprichada; havia até uma cereja (o botão de rosa), caindo pelo lado direito, devidamente vermelha!

– Tem razão, Nina! Parece mesmo!

Desandei a rir e fui abraçá-la. Depois saí de casa, pensando no episódio.

Fui dirigindo à universidade pensando no que tinha acabado de acontecer. E percebi que Nina me havia oferecido, sem querer, uma demonstração prática do princípio demonstrado por Gombrich na introdução do livro “Arte e Ilusão”: mesmo a mais simples das imagens está sujeita a interpretações diferentes. Ver é, por definição, um ato subjetivo. Jamais, em qualquer contexto, é possível decretar a objetividade de uma imagem, por mais que ela pareça óbvia. Porque as experiências pessoais de quem olha interpelam, a todo instante, a interpretação que se faz do ato de enxergar.

Acabei relatando o episódio com Nina alguns minutos depois, na abertura da aula. Assim: perguntei aos alunos o que eles viam na camisa. “O Poderoso Chefão”, alguns disseram. “Dom Vito Corleone”, foi outra resposta comum. “Marlon Brando”, certos alunos lembraram. Alguém falou em Francis Ford Coppola. Outros mencionaram a Máfia.

Só depois narrei o que Nina havia visto na camisa.

Obviamente, ela não assistiu ao filme. Não conhece (ainda) o padrinho Corleone, nem Brando, nem Coppola. Não sabe o que é Máfia. Todas essas informações estão fora do repertório de experiências que ela detém e utiliza para interpretar as imagens que vê. No entanto, um sorvete faz parte da realidade dela. Naturalmente, ela deu àquela imagem uma interpretação que seu repertório lhe permitiu.

Note: trata-se da mesma imagem. Mas o que Nina enxergou nela é completamente diferente daquilo que os 35 alunos viram.

E.H. Gombrich fazia a mesma experiência usando a famosa ilustração do coelho e do pato (reproduzida abaixo). Ele mostrava a imagem aos alunos e perguntava o que eles viam. Alguns enxergavam um animal; outros viam o outro. O motivo pelo qual certas pessoas viam um coelho e não um pato (ou vice-versa) não importava. Interessava, isso sim, que a imagem era idêntica, mas a interpretação dada a ela – um processo cognitivo simultâneo ao ato de enxergar – variava de indivíduo para indivíduo.

Volta e meia, eu resgato a camisa e conto essa história a uma nova turma de alunos. Sempre funciona: não existe tal coisa como uma imagem objetiva. Isso é uma quimera, uma utopia irrealizável.

Aprendi com Nina. 🙂

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