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Avatar X Guerra ao Terror

05/03/2010 | Por | Categoria: Blog

A briga de foice travada entre os filmes “Avatar” e “Guerra ao Terror” pelos principais prêmios (direção e filme) do Oscar 2010 não se trata apenas de uma batalha conjugal (já que os respectivos diretores, James Cameron e Kathryn Bigelow, foram casados). Esse detalhe da vida íntima dos cineastas pode até pôr pimenta no caldo, especialmente para a imprensa sensacionalista que cobre Hollywood, mas não passa de jogo de espelhos.

O que realmente me interessa nessa briga, muito mais do que o resultado final, é que ela sintetiza com muita propriedade as duas principais tendências, em termos narrativos e estilísticos, para onde o cinema comercial está caminhando neste século XXI.

Numa leitura superficial, essas tendências podem parecer completamente opostas (algo como Realidade X Fantasia), mas de fato elas convergem para um objetivo comum: oferecer ao espectador uma experiência de imersão cada vez maior e mais intensa dentro do tecido narrativo dos filmes.

É essa a direção em que a indústria de entretenimento aposta que vai virar o jogo para superar a crise que se abateu sobre a atividade após o advento da pirataria digital.

“Avatar” simboliza a aposta na tecnologia, reeditando os esforços que os grandes estúdios fizeram nos anos 1950 para conter os estragos causados pelo advento da televisão. Projeções digitais, IMAX, efeitos em 3D com óculos eletrônicos são alguns dos artefatos que promovem a experiência coletiva do cinema como algo único, que não pode ser igualado dentro de casa.

Ademais, não é coincidência o fato de “Avatar” ter se tornado o primeiro longa-metragem a superar a casa dos U$ 2 bilhões em faturamento nas salas de exibição. James Cameron repetiu o fenômeno “Titanic” porque soube, mais uma vez, aliar a superação de fronteiras tecnológicas com uma narrativa relativamente estável, que recorre a mitos e arquétipos milenares (o salvador messiânico, a comunhão com a natureza) e – curioso que ninguém tenha observado isso antes – traz uma personagem feminina de personalidade forte, a na’vi Neyrity.

Cameron sabe perfeitamente que os maiores fenômenos de bilheteria são aqueles que conseguem atrair tanto os homens quanto as mulheres na platéia. O próprio “Titanic” e “E o Vento Levou” (1939) são provas perfeitas dessa teoria.

Do outro lado do espectro, temos “Guerra ao Terror”, um filme que aposta nas técnicas de documentário-guerrilha (filmagens em locações reais, câmera na mão) para narrar uma história de ficção.

As táticas, então, são quase opostas. Saem a tecnologia avançada e os heróis mitológicos, entram a câmera colada nos personagens, os close-ups extremos, a montagem frenética, os escombros reais que passam ao espectador a sensação de estar no meio de uma batalha de verdade.

O filme de Kathryn Bigelow usa as técnicas de documentário para oferecer ao público uma experiência pseudo-antropológica de imersão numa realidade extrema.

Nesse sentido, mesmo utilizando um conjunto de ferramentas estilísticas completamente diferentes, o objetivo de James Cameron é o mesmo: criar uma narrativa ficcional que se aproxima bastante da experiência proporcionada por um jogo de videogame.

Esta mídia eletrônica (cuja arrecadação vem superando em muito, ano a ano e já há uma década, os montantes amealhados por Hollywood) aposta na sensação de imersão do espectador dentro de uma realidade extrema, tendência cinematográfica que vem se tornando cada vez mais aguçada, em diferentes direções.

Uma dessas direções é justamente o uso de técnicas de documentário para dar ao filme uma textura mais próxima da realidade. Vejamos: a câmera diegética de “A Bruxa de Blair” e “REC”, os atores oriundos das favelas vistas em “Cidade de Deus” e “Quem Quer Ser um Milionário”, a câmera tremida e os cortes super-rápidos de “O Ultimato Bourne”. Todas são ferramentas que oferecem ao espectador a ilusão de estar presenciando um naco de realidade. Uma realidade que ele não pode experimentar do lado de cá da tela, correndo o risco de morrer.

Mora aí a sedução desses recursos estilísticos. Noel Carroll dizia, em seu livro “A Filosofia do Horror, ou Paradoxos do Coração”, que as pessoas só se permitiam sentir medo diante de filmes de suspense ou horror porque podiam experimentar um pouco da adrenalina daquelas situações extremas vistas na ficção sabendo que qualquer momento podiam fechar os olhos ou sair da sala, e escapulir para a segurança e o conforto do mundo real. O princípio é o mesmo.

“Avatar” usa outras técnicas para alcançar a experiência da imersão de outra maneira. A aposta é na tecnologia. Óculos eletrônicos, telas gigantes, mixagem de som em até nove canais. O ambiente de projeção é tratado de maneira a passar a impressão de que o espectador está dentro da tela, caminhando ao lado dos personagens.

O princípio da imersão pode ser conferido tanto em um filme quanto no outro. É nele que Hollywood esta apostando para driblar a crise. Trata-se de mais um forte indício do quanto o videogame tem influenciado, estética e narrativamente, o cinema.

Para resumir, a cerimônia do Oscar, em si, não me diz muita coisa. Eu poderia usar esse espaço aqui para fazer previsões, mas isso vocês já podem ler em dezenas de portais, sites e blogs por aí, provavelmente com mais conhecimento de causa do que eu. Isso não me interessa mais.

E, no entanto, a batalha entre “Avatar” e “Guerra ao Terror” pode estar apontando para as duas tendências mais importantes do cinema de entretenimento do século XXI. E isso sim, me interessa bastante. Nesse sentido, não haverá vencedores ou perdedores nesta guerra.



Blu-Ray no Brasil

16/09/2009 | Por | Categoria: Blog

Aí vai a dica de um site brasileiro interessante para colecionadores que já aderiram ao Blu-Ray.

http://bdslegendados.orgfree.com tem o objetivo de listar títulos
em Blu-Ray legendados em português lançados ao redor do mundo. A lista já possui mais de 1000 títulos e em breve contará com mais de 1300.

No momento, é a maior ferramenta que há na web a esse respeito e pode ser de grande auxílio a colecionadores brasileiros de BDs que precisam recorrer à importação para conseguir títulos ainda não disponíveis por aqui.



Blu-Ray x DVD

20/11/2008 | Por | Categoria: Blog

Os leitores mais atentos já devem ter aferido que eu não tenho ainda um Blu-Ray player. Esse é o principal motivo de o Cine Repórter ainda manter a denominação “DVDs” para a seção dedicada às críticas de filmes lançados para o mercado caseiro. Em breve, possivelmente em 2009, terei que mudar o título da seção para algo como “Home Video”. Mas essa já é outra história.

Tenho vários motivos para não aderir ao Blu-Ray de imediato. O maior deles é pessoal. Graças ao dia-a-dia atarefado e aos horários malucos, tenho visto mais filmes no notebook do que no meu home theater. Ao contemplar a possibilidade de comprar um Playstation 3 e uma TV de alta definição, agora em dezembro, decidi que seria muito dinheiro gasto para pouco benefício, já que vejo mais filmes fora de casa – em salas de cinema ou na biblioteca da faculdade onde dou aula – do que lá.

Se meu notebook tivesse um leitor de Blu-Ray, provavelmente eu compraria também um player de mesa. Mas imagine a situação posterior: gastar R$ 90 (ou mais!) para comprar um filme no formato e não ter tempo para vê-lo, por não parar em casa? Fora de cogitação.

Além do mais, ainda tenho sérias dúvidas sobre o futuro do formato. A distribuição de cópias digitais de filmes em alta definição, de forma legalizada, avança a passos largos. Daqui a dois ou três anos, a gente vai poder baixar o conteúdo completo de um disco BD, sem sair de casa, e a um preço bem mais baixo do que custa o disco físico.

Mesmo assim, estou seriamente inclinado a iniciar minha coleção pessoal de filmes em Blu-Ray agora em dezembro. Sim, antes mesmo de comprar um player. Foi assim também com o DVD, já que comecei a comprar filmes no formato, em 1999, alguns meses antes de adquirir o aparelho (um Pioneer maravilhoso que continua na minha sala, nove anos depois).

A título de curiosidade, meu primeiro DVD foi “Matrix” (ganho em um amigo secreto). No dia em que comprei o aparelho, também passei numa loja aqui no Recife, chamada Aky Vídeo, e levei para casa “O Exorcista”. Esses dois filmes deram partida a uma coleção que já ultrapassou os dois mil títulos.

Mas voltemos ao assunto principal. Meu sonho de consumo imediato atende pelo nome de “Wall-E”. Todo mundo que lê o site deve ter percebido que o filme de Andrew Stanton encabeça a relação dos melhores lançamentos de 2008, na minha humilde opinião.

Pois bem: a Buena Vista vai cometer o crime de não lançar no Brasil a versão em DVD triplo disponível nos EUA. Aqui, o disquinho será simples. Ou seja, sem os documentários que esmiúçam o processo de criação do incrível desenho de som, por Ben Burtt. Documentários sobre a fotografia maravilhosa? Nenhum.

No auge do desespero, decidi comprar o DVD importado (como fiz com “Zodíaco”, de cujos documentários sensacionais a Warner também nos privou). Enquanto pesquisava os preços na Internet, dei de cara com um artigo escrito pelo ótimo crítico norte-americano James Berardinelli (www.reelviews.com).

Ele, que é um sujeito muito sensato e acumula conhecimento enciclopédico na área, já havia escrito alguns textos ressaltando como o Blu-Ray não lhe parecia um avanço tão significativo em relação ao DVD (apaixonado por “Patton”, Berardinelli comprou um PS3 apenas para ver o clássico com George C. Scott, e não viu nenhuma diferença para o filme projetado em DVD). Pois bem: o cara garante que “Wall-E” é o primeiro filme internacional cujo conjunto imagem/som parece realmente muito mais avançado no novo formato, deixando o antigo no chinelo.

O Blu-Ray brasileiro sai com todos os extras (ao inacreditável preço de RS$ 130). Um roubo. Mas sabe do que mais? Acho que vou comprar. Talvez compre junto a versão restaurada de “O Poderoso Chefão”. Seria um duplo incentivo para migrar, finalmente, para o mundo da alta definição. Como a TV digital chega ao Recife em 2009, apenas estaria me adiantando em alguns meses a uma mudança mais ou menos obrigatória.

Ainda não perdôo a Buena Vista pela lambança (repetida, pois fizeram o mesmo com o também genial “Ratatouille”). E não custa lembrar que a mesma empresa se recusa, até hoje, a lançar a belíssima edição especial de “Pulp Fiction” em DVD duplo no Brasil. Tomara que torrem no inferno dos VHS podres, aqueles executivos gananciosos. Pelo histórico, do ponto de vista do consumidor, a Buena Vista é a pior das grandes empresas distribuidoras de filmes no mercado nacional de vídeo doméstico.

Sei que deveria fazer algum tipo de boicote e não comprar o filme. Seria uma atitude sensata. Mas eu não sou sensato. E não quero me punir ao ficar sem os extras do longa-metragem que amo. Que seja bem vindo o Blu-Ray, pois.



Cine Repórter 2.0

23/09/2008 | Por | Categoria: Blog

Exatos cinco anos depois de entrar no ar, eis que o Cine Repórter chega à versão 2.0. Neste intervalo, o site passou por ajustes e alterações em seu projeto editorial. Na essência, porém, não mudou muita coisa. Só que o mundo mudou. Muito. A Internet, então, nem se fala.

Quando coloquei o Cine Repórter no ar, em setembro de 2003, não podia nem imaginar um fenômeno como o YouTube. A tecnologia RSS ainda não estava disponível. A explosão multimídia, calcada na expansão global da banda larga, ainda estava engatinhando.

Enquanto o tempo passava, ia ficando evidente que o site precisava passar por um grande upgrade tecnológico, a fim de incorporar as principais novidades que rodavam o mundo. Mas o modelo anterior era engessado. Para mudar uma coisinha qualquer, precisava mudar tudo. E isso era inviável.

A nova versão do Cine Repórter contém avanços espetaculares em relação ao site anterior. Possui tecnologia RSS, abre espaço para comentários livres dos leitores, tem um blog 100% integrado, um sistema de buscas interativo e a opção de compartilhar todos os conteúdos em bookmarks sociais.

Graças aos avanços tecnológicos, também pude criar novas seções multimídia. Esta é uma direção que me interessa, e que pretendo explorar bastante nos próximos meses. Podem esperar muito conteúdo nas categorias de Vídeos e Podcasts.

No primeiro caso, pelo menos uma vez por semana, pretendo gravar e editar uma pequena vídeo-resenha, de até três minutos. Os podcasts (arquivos de áudio em MP3, que vocês podem inclusive baixar para ouvir no player portátil, se assim desejarem) também serão disponibilizados pelo menos uma vez por semana.

Para o leitor, são avanços consideráveis. Você agora pode comentar qualquer texto, vídeo ou áudio, mandar para os amigos por e-mail, cadastrar em sites como Technorati e Del.ic.i.ous, ver vídeos exclusivos, gravar podcasts no iPod e até mesmo, se quiser, assinar o feed RSS de um único texto, para acompanhar qualquer debate que porventura seja aberto entre vocês, leitores, através dos comentários.

Para mim, os avanços são ainda maiores. O site foi inteiramente montado com a tecnologia WordPress, e isso significa que poderemos acompanhar instantaneamente qualquer inovação tecnológica que for surgindo na Internet. Se a Web possibilitar o envio automáticos de vídeos para sua TV digital, o Cine Repórter vai estar nessa. Nada de esperar mais cinco anos. O WordPress permite, através da instalação de plugins, a criação de novas funções dentro do site, de maneira quase automática.

Do ponto de vista gráfico, procurei tornar o Cine Repórter um site mais limpo, mais arejado, mais simples de navegar e fácil de ler. Depois de três meses de trabalho duro, é um orgulho e uma satisfação poder colocá-lo no ar.

Escrevam, opinem, critiquem, comentem e divulguem. Prometo que vou ler tudo o que vocês escreverem nos comentários (sim, eles caem automaticamente na minha caixa de e-mails) e, na medida do possível, responder.

Nesta etapa inicial de implantação, é bem possível que vocês se deparem com pequenos erros de navegabilidade, links quebrados, coisas funcionando mal, textos em inglês ou incompreensíveis. Podem me avisar sobre isso postando nos comentários. Estarão me fazendo um favor.

Por fim, queria deixar público um elogio ao pessoal da Wenetus Interactive (principalmente ao Rodrigo Muniz), a empresa pernambucana que concretizou minha lista infindável de necessidades em um site.

E um agradecimento todo especial ao programador Saulo Benigno, cuja ajuda e incentivo foram inestimáveis para o resultado alcançado. Perdi a conta de quantas noites perdemos na frente do computador, navegando e corrigindo coisinhas interminavelmente, e trocando e-mails cheios de empolgação.

Aliás, Saulo não é só um programador de talento, mas também um leitor antigo e fiel. Há dois anos ele tentava me convencer a fazer esse upgrade, e por muito tempo eu resisti. Se não fosse a tenacidade dele, talvez a versão 2.0 fosse demorar bem mais para sair. E olha que neste momento – bem agora! – ele deve estar trabalhando, invisível, para corrigir mais erros e melhorar coisas que pareciam estar perfeitas. O cara não cansa nunca (aliás, se algum leitor precisar de serviços de profissionais de Web que lidem com sites, recomendo todos – os contatos de ambos podem ser encontrados na seção Quem faz o site).

É isso. Espero que gostem.



Cine Repórter no Twitter

27/11/2008 | Por | Categoria: Blog

Há mais ou menos uns oito meses, ainda no início do ano letivo na universidade onde dou aulas, trabalhei com um texto que formulava algumas regras básicas de conduta profissional para jornalistas que trabalham com mídia on-line. Uma das regras fundamentais para o profissional multimídia, segundo o texto, sugeria que os repórteres usassem mais o Twitter (aquela ferramenta de micro-blog, onde você posta mensagens com menos de 140 caracteres).

Até aquele momento, eu nunca havia sentido a mínima necessidade de abrir uma conta no Twitter. Blogar com menos de 140 toques? Parecia uma coisa totalmente sem sentido. Mesmo assim, por dever profissional, eu (e todos os alunos daquela turma) abri(mos) conta(s) no Twitter.

Quase um ano se passou. Mudei de opinião. E o Cine Repórter foi parte fundamental na reversão deste conceito.

Vou explicar o que aconteceu. Na versão 2.0 do site, com o blog integrado, o estatuto de cada post mudou consideravelmente na minha cabeça. Passei a valorizar mais o que iria escrever. Não queria deixar registrado dentro do Cine Repórter alguns pensamentos soltos e posts de duas ou três linhas, como fazia no KineBlog. No futuro, eles só vão servir para tornar a navegação mais lenta, enquanto o lixo (virtual) vai empilhar mais e mais, como na cena de abertura de “Wall-e”.

Gosto de pensar que o Cine Repórter servirá, daqui a 50 ou 60 anos, como um registro fiel da minha passagem por aqui. Tem gente que planta uma árvore ou escreve um livro. Eu fiz o site. E não gosto de pensar que haverá dentro do CR uma maçaroca de posts inúteis para dificultar a navegação dos meus bisnetos.

Por outro lado, também acho uma delícia soltar aquelas informações curtinhas, às vezes bobas mesmo, pessoais ou confessionais, e não gostaria de me privar desse lado frívolo simplesmente porque encaro o site como um trabalho sério (apesar de não-remunerado).

O Twitter tem tudo para se tornar a solução do meu dilema. O que fiz? Criei uma página do Cine Repórter no Twitter e estou, há alguns dias, postando informações curtas. Atualizações do site, cabines que conferi ou que perdi, detalhes do meu dia, essas coisinhas pequenas que não têm espaço aqui no Cine Repórter.

Dêem uma passadinha lá clicando aqui.

Para quem quiser acompanhar, há um link permanente para essa página no rodapé do Cine Repórter. Todo dia tem informações novas por lá. Quem costuma acompanhar o que escrevo aqui pode achar interessante. E se tiver algum comentário ou sugestão, pode mandar bala nos comentários deste post.



Continuidade intensificada em Sergio Leone

12/06/2010 | Por | Categoria: Blog

O artigo que disponibilizo aqui foi apresentado no encontro da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compos), realizado na PUC-RJ, em junho de 2010.

Nele, examino a idéia de que o exercício de um cinema autoral não está obrigatoriamente ligado à noção romântica de autoria, que supostamente exige do cineasta o não-pertencimento a um gênero fílmico. O cinema de Sergio Leone é utilizado como estudo de caso, partindo do pressuposto de que os filmes do italiano exerceram uma importante contribuição no processo de revisão e criação de certas ferramentas narrativas e estilísticas que passaram a fazer parte do repertório do cinema contemporâneo, embora esta contribuição – uma operação autoral, no meu entender – seja minimizada ou ignorada pela maior parte dos pesquisadores cinematográficos, sobretudo por causa da militância do diretor no cinema de gênero.

A íntegra do artigo pode ser lida aqui (arquivo em formato DOC).



David Bordwell e "Coraline"

26/02/2009 | Por | Categoria: Blog

Não é raro, quando um crítico está conversando sobre seu trabalho com cinéfilos, que ouça palavras elogiosas sobre sua percepção acurada para fenômenos imagéticos e/ou sonoros que geralmente passam despercebidos a um leigo.

Por exemplo, na crítica que escrevi sobre “Milk”, o Jurandy postou um comentário dizendo que não havia notado um detalhe para a qual chamei atenção no texto, que era a maneira incomum de Gus Van Sant cortar de uma tomada para outra, muitas vezes sinalizando o corte na imagem ao antecipar o corte sonoro, provocando uma ligeira dessincronia.

Minha resposta, na ocasião, foi simplesmente que um critico deve treinar seu olhar para esclarecer detalhes como esse, que podem passar despercebidos para alguém sem treinamento formal na “leitura” de filmes.

Eu deveria ter acrescentado que, na verdade, espectadores atentos percebem essas coisas. Eles sentem. Talvez não consigam verbalizá-las. Podem não ser capazes de dizer qual a ferramenta utilizada pelo cineasta para provocar determinada sensação, mas são capazes de senti-la.

A percepção humana é de uma sofisticação que constantemente me deixa boquiaberto, à medida que eu aprendo mais e mais sobre esse trabalho fascinante.

Dito isso, devo dizer que ainda estou engatinhando na arte de desenvolver minha própria percepção aos detalhes da arte cinematográfica.

Quer um exemplo? O grande teórico norte-americano David Bordwell, um dos gigantes na teoria do cinema contemporânea (e provavelmente meu escritor favorito de textos relacionados a cinema, num nível acadêmico) publicou, no blog dele, um post absolutamente fantástico a respeito do uso da profundidade de campo em “Coraline”.

Eu assisti ao filme de Henry Selick. Em 3D. A profundidade de campo me chamou a atenção. Cheguei a tocar no assunto, superficialmente, na crítica que escrevi. Mas não fui capaz de esclarecer por completo (muito menos com a elegância, o desprendimento e o didatismo impecáveis de Bordwell) a técnica usada para, sutilmente, demarcar as diferenças entre os dois universos onde a história se passa.

É verdade que Bordwell contou com a preciosa colaboração do diretor de fotografia do filme, que deu uma longa entrevista falando sobre o assunto. Mesmo assim, ele foi muito além do que eu teria sido capaz. 

O texto original, em inglês, está aqui. Deliciem-se.



Dissertação sobre crítica

28/06/2010 | Por | Categoria: Blog
Embora só em 2009 tenha se tornado minha ocupação principal, comecei a estudar cinema seriamente no final de 2001, quando entrei no mestrado em Comunicação da UFPE.

Nos dois anos seguintes, 2002 e 2003, pesquisei sobre crítica de cinema. Meu objetivo era simples: queria saber porque os textos críticos publicados em jornais e revistas, sobretudo após o aparecimento da Internet, se pareciam tanto uns com os outros. O resultado foi a dissertação “O gosto dos outros: consumo, cultura pop e internet na crítica de cinema de Pernambuco”, defendida em maio de 2003.

O texto completo da dissertação, que realiza também uma historiografia da crítica de cinema pernambucana, está disponível em formato PDF e pode ser lido aqui.



Dois livros

02/11/2008 | Por | Categoria: Blog, Outros textos

No último final de semana, o primeiro de uma seqüência de cinco em que tive direito a folga no trabalho, passei uma tarde bastante agradável na Livraria Cultura. Este é um dos programas que eu e minha mulher mais gostamos de fazer depois do almoço, nos finais de semana, quando não tenho que trabalhar.

Nesse horário, sempre fazemos algum programa para crianças. É um dos poucos momentos da semana em que posso dedicar 100% de minha atenção às minhas duas meninas. Mas não dá para ir à praia ou a algum parque, por causa do sol forte (fazemos isso, sim, mas só depois das 16h). Na Cultura, além do espaço grande e da enorme quantidade de livros infantis, às vezes também rola alguma peça infanto-juvenil ou algo do gênero. É bem legal para quem tem crianças pequenas.

Além do mais, sempre sobra um tempinho para dar uma olhada rápida nos livros e DVDs. A Cultura do Paço Alfândega tem um dos melhores acervos do Brasil nos dois quesitos (parêntese aqui: prefiro caçar livros na Imperatriz, que tem estoque quase tão grande e preços melhores, mas quase sempre acabo comprando em lojas virtuais, que entregam em casa e geralmente vendem mais barato).

Pois bem: durante a tarde, descobri dois livros interessantes na seção sobre Cinema. Comprei ambos. Li os dois durante a semana e decidi deixar a dica para vocês. Valem muito a pena para quem quer entender mais sobre construção da narrativa cinematográfica.

O primeiro esmiúça a história, as teorias e as técnicas de montagem usadas atualmente. Chama-se “Técnicas de Edição para Cinema e Vídeo”. É excelente. Escrito em linguagem simples, muito detalhado, repleto de fotos e recheado de exemplos retirados de filmes famosos. Para quem se interessa por edição, um prato cheio. Único ponto negativo: o preço (mais de R$ 100).

O outro é um raro livro sobre fotografia em cinema: “50 Anos: Luz, Câmera, Ação”, do brasileiro Edgar Moura. A edição não é tão caprichada, mas o livro explica detalhadamente, com a maior paciência do mundo e linguagem gostosa e didática, o que faz e como trabalha exatamente o fotógrafo de um filme. Detalhe: também é caro (mais de R$ 60).

Mais à frente, pretendo escrever mais detidamente sobre os dois títulos. Por enquanto, fica a dica.



Experiência emocional

15/01/2009 | Por | Categoria: Blog

Gostaria de compartilhar com vocês uma experiência emocional inesperada e violenta, vivida hoje, durante a cabine para a imprensa de “O Curioso Caso de Benjamin Button”. No entanto, recomendo a todos os que ainda não viram o filme, e gostariam de assisti-lo sabendo o mínimo possível, que parassem por aqui e só retornassem a este post após vê-lo.

Digo isso porque vou contar alguns detalhes do enredo. Embora não sejam muito importantes para a narrativa, seu conhecimento prévio pode incomodar alguns leitores. Portanto, estejam avisados. A partir do próximo parágrafo, vem spoiler por aí.

Ainda aqui? OK, vamos em frente. Tudo corria normalmente durante o filme quando, lá pelo meio do terceiro ato, uma determinada personagem recebe um monte de cartões postais antigos, escritos para ela pelo verdadeiro pai biológico, a quem nunca pôde conhecer.

Ela começa a ler alguns. O cartão enviado na data do aniversário de dois anos: “Gostaria de poder beijá-la e dizer boa noite”. Aos cinco anos: “Adoraria poder tê-la levado ao primeiro dia de aula”. Aos 13 anos: “Queria poder abraçá-la quando estivesse de coração partido por causa de algum rapaz”.

A essa altura, sem que nada me houvesse preparado para tanto, meus olhos se encheram de lágrimas e a garganta fechou. Perdi a respiração por um instante. Fiquei sem fôlego.

Durou uma fração de segundo. Não fiz nenhum ruído, não mexi um músculo, e no instante seguinte já tentava racionalizar: o que havia se passado? Qual o motivo de tamanha reação emocional, algo que não experimentava de modo tão súbito dentro de um cinema há tanto tempo?

(A propósito: “Jogo de Cena” não conta, pois nesse caso eu sentia as lágrimas chegando muito antes de elas efetivamente aparecerem).

A ficha caiu rapidamente. Eu havia experimentado um momento de completa e esmagadora sintonia com os sentimentos do personagem-narrador (o autor dos cartões postais, que sequer estava em cena!).

Como vocês devem saber, tenho duas filhas. Acompanhar o crescimento delas é uma delícia, mas uma pequena parte de mim (que tento, ou tentava, manter bem abafada) morre um pouquinho a cada dia por saber que, alguns anos à frente (espero que muitos), não estarei mais aqui para vê-las.

Enfim, foi uma epifania. Passou logo. Pude me recompor e ver o resto do filme (que não é uma obra-prima, mas é ótimo).

Depois, continuei pensando naquele breve momento de pura emoção que me atingiu como o raio que cai sete vezes na cabeça do mesmo personagem.

E foi aí que me dei conta de uma das particularidades que fazem do cinema uma arte tão singular.

Via de regra, um crítico não se permite sentir esse tipo de emoção. Somos treinados para desconstruir a narrativa ao mesmo tempo em que ela se desenrola. Nosso olhar é técnico; às vezes percebemos onde está a emoção de determinada cena, mas não a sentimos – apenas a reconhecemos.

Qualquer um que compareça a uma cabine de imprensa, algum dia, vai perceber claramente o que estou falando. É raro ouvir risadas quando estamos sentados entre críticos. Choro? Acho que nunca vi, em 10 anos de profissão. Alguns de nós até escrevem em bloquinhos com canetas luminosas.

Vejam bem: não é que todo crítico escolhe conscientemente não sentir emoções. É que muita coisa está passando pela cabeça, durante uma projeção, para que essas emoções possam vir à tona. Eu mesmo nunca havia pensado sobre isso, até hoje.

Aí é que vem o poder do cinema. Hoje, eu não escolhi verter lágrimas. Elas me escolheram. Simplesmente não pude evitá-las. E tenho certeza de que fui o único, dentre as 20 e poucas pessoas que estavam dentro da sala 8 do Multiplex Recife, que teve esta experiência naquele exato instante.

Porque um filme, afinal de contas, nunca é o mesmo filme para duas pessoas diferentes. Cada membro da platéia faz a sua própria leitura do que vê na tela grande. As leituras podem ser parecidas, mas nunca idênticas. São como impressões digitais.

Ademais, somente uma arte inscrita no tempo (caso do cinema, e também da música) é capaz de oferecer uma experiência emocional tão poderosa, que atinja um espectador sem passar por qualquer tipo de filtro intelectual.

Prestem atenção: não estou dizendo que a literatura (e demais artes não inscritas no tempo) é inferior ao cinema, no que toca à capacidade de provocar emoções adormecidas. Um bom texto também consegue fazer qualquer um chorar. Mas as lágrimas literárias, porém, são sempre intermediadas por um filtro intelectual. Você lê, processa a informação em algum canto do cérebro, e chora.

Minha experiência de hoje não foi assim. Só consegui processar o que havia acontecido depois do evento em si. Nunca passei por nada parecido lendo um livro.

Tirei duas lições do episódio. A primeira: são detalhes assim me fazem amar o cinema como expressão artística única e insubstituível.

A segunda: minhas filhas são meu tesouro mais precioso, e por mais que os filmes possam ser grandes companheiros, só conseguirão – como no caso de hoje – roçar levemente no tamanho da resposta emocional que qualquer evento relacionado a elas provoca em mim.



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