Reflexões sobre o 3D

07/02/2010 | Categoria: Blog

A partir da corrente cognitivista de estudos do cinema, alguns pensamentos sobre legendas e montagem após o advento do 3D

Por: Rodrigo Carreiro

Por diversas razões, esta seção foi esvaziada ao longo de 2009. Dois fatores foram determinantes nesse processo. Em primeiro lugar, o tempo relativamente pequeno que dediquei ao site nesse ano (certamente o período em que menos escrevi críticas desde 2003, quando o CR ficou on-line).

Em segundo lugar, os comentários rápidos nas páginas do CR no Twitter e no Facebook. De fato, quando a versão 2.0 do site foi planejada, no primeiro semestre de 2008, eu não tinha planos para abrir contas em nenhum dos dois serviços. Isso não apenas aconteceu como ambos foram integrados ao site.

Parte dos comentários que eu tencionava publicar aqui no blog, de natureza mais pessoal e/ou rápida, encaixou à perfeição nesse novo nicho, de forma que o Blog do Editor foi se tornando menos efetivo.

Não pretendo que seja sempre assim. A partir de 2010, espero retomar gradualmente os posts aqui. E começo a fazer isso já.

Desde que assisti a “Avatar” na sala 3D do Box Guararapes, em dezembro, algumas questões relacionadas às projeções digitais em 3D vêm martelando na minha cabeça. Toquei rapidamente no assunto no Twitter e no Facebook, inclusive avisando que iria postar aqui algumas reflexões sobre o tópico. Pois lá vai.

Os dois pontos que gostaria de explorar no momento têm conexões indiretas com minha tese de doutorado. Não com meu objeto de estudo, mas com o eixo teórico mais freqüente que usei para abordá-lo: o cognitivismo de pesquisadores como David Bordwell.

Como se sabe, o cognitivismo concentra-se fundamentalmente no estudo dos processos de percepção dos indivíduos. No que se refere aos filmes, interessa aos pesquisadores desta corrente saber detalhadamente como processamos as informações visuais e auditivas que constituem os filmes.

É claro que o suporte em que vemos o produto audiovisual afeta nossa percepção. Ver o mesmo filme numa sala IMAX, numa sala 3D Digital, numa sala de cinema comum, na TV ou num iPod não constitui a mesma experiência. Na verdade são cinco experiências, similares mas distintas. Nesse ponto, os cognitivistas interessam-se menos pelos filmes em si e mais pela experiência perceptiva dos membros da audiência.

Este é o contexto no qual desejo colocar dois elementos para essa reflexão.

O primeiro elemento diz respeito à leitura de legendas numa tela em 3D. Esse debate foi intenso no Recife, durante a época da estréia de “Avatar”, por causa da polêmica decisão da Box Cinemas, que descartou o uso de cópias com legendas e preferiu exibir o filme de James Cameron, na única sala 3D Digital do Recife, apenas em versão dublada.

Obviamente, a posição da Gerência de Marketing da empresa é condenável. Seria no mínimo democrático dar ao público a chance de ver o filme da maneira que cada membro da platéia desejasse.

Por outro lado, o que se viu foi uma reclamação concentrada apenas na comunidade mais cinéfila. Virtualmente todos os críticos reclamaram da ausência de cópias legendadas em 3D. Aferraram-se, basicamente, à idéia conservadora – muito popular entre cinéfilos – de que filmes devem ser vistos com áudio original, e que a experiência fílmica do mesmo filme assistido em versão dublada é obrigatoriamente inferior.

Ora, nem sempre. Vamos parar um pouco para pensar nisso. Mesmo antes do 3D Digital, sempre houve uma corrente de pessoas que preferia assistir aos filmes dublados. E a razão nem sempre era de ordem intelectual (pessoas com baixo nível de escolaridade lêem mais devagar e podem se complicar em filmes muito dialogados), mas sim relacionada a questões de percepção. Aqui entra o cognitivismo.

Com as legendas, acrescenta-se um elemento a mais no campo de visão do espectador; um elemento tão artificial quanto a voz do dublador (só que culturalmente mais aceito). Esse elemento exige certo grau de atenção visual que, em muitos casos, impede que o espectador inspecione ou desfrute da imagem da maneira pretendida pelo cineasta que a compôs, em muitos casos (nem sempre) com cuidado.

Para citar um exemplo de carne e osso, meu irmão nunca gostou de assistir a filmes com legendas. Ele não tem baixa escolaridade (é doutor em Letras), pode ler legendas perfeitamente, mas desde menino defende a teoria de que o tempo gasto olhando as legendas leva o espectador a fruir de maneira diferente as imagens que desfilam diante de seus olhos. Numa época em que a montagem é cada vez mais rápida e os planos se sustentam na tela por cada vez menos tempo, esse raciocínio tem alguma razão de ser.

No entanto, ele vai de encontro ao senso comum da comunidade cinéfila, para quem a idéia de ver legendas parece ser não-invasiva (apesar de a mesma categoria de consumo ficar indignada quando filmes são exibidos fora da janela – leia-se formato de imagem – pretendida pelo realizador, o que gera uma distorção perceptiva da mesma natureza, apesar do grau diferente).

No caso de 3D, o raciocínio do meu irmão ganha um reforço extra. Quem já assistiu a filmes em 3D sabe que nosso cérebro leva algum tempo a mais para reconhecer as relações espaciais entre as figuras que compõem a imagem completa, agora aparecendo em várias camadas de profundidade. E com a nova tecnologia, as legendas não aparecem “grudadas” à tela, como antes, mas flutuando diante da imagem do filme. Elas competem pela atenção do espectador com as imagens do filme em si. Em títulos como “Avatar” e “Coraline” (2009), que apresentam composições visuais cuidadosas e usam bastante o efeito de profundidade, o problema é acentuado.

Isso me pareceu evidente nas cenas de “Avatar” em que os personagens falam na língua alienígena. Nesses trechos havia legendas na cópia exibida no Recife. Pelo menos para mim, aqueles letreiros amarelos infiltrando-se entre árvores e seres azuis distraíam um bocado. De modo que, com toda sinceridade, me senti satisfeito em ver o filme numa versão dublada. Ainda que a sincronia labial fosse perdida, pude desfrutar melhor do trabalho visual de James Cameron (que, para mim, é bem melhor do que seu trabalho com enredo e com som).

O segundo aspecto do 3D para o qual gostaria de chamar a atenção se relaciona à montagem visual. Em seu blog, David Bordwell escreveu algumas vezes sobre o formato e levantou uma teoria, a ser confirmada num futuro próximo. Ele acha que a adoção do 3D como formato principal de projeção deve levar montadores e cineastas a alterar certas tendências de edição que se consolidaram nas últimas décadas.

Em que direções essas mudanças ocorrerão ainda é difícil saber. Pessoalmente, acho possível que os filmes passem a ser montados em ritmo menos acelerado, com menos cortes. Acredito que as imagens em 3D precisam ficar na tela por mais tempo, para que as ações registradas pela câmera nas diferentes profundidades da imagem sejam devidamente percebidas pela platéia. Isso requer planos mais longos.

No entanto, não senti claramente essa diminuição na velocidade da montagem em filmes como “Avatar” e “Coraline”.

Revi o filme de James Cameron na semana passada, em 2D, prestando bastante atenção nos cortes. Evidentemente, a montagem não chega ao patamar da quase-esquizofrenia de longas como “O Ultimato Bourne” (2007) ou “Guerra ao Terror” (2009), até porque Cameron não usa a câmera na mão (a estabilidade da imagem é necessária para reforçar a composição em 3D), mas tampouco retrocede aos níveis vistos nos anos 1970, quando a tendência dos planos mais curtos começou a se intensificar.

Não cheguei ao ponto de calcular a média de duração de um plano (teria que contar o número total de planos do filme e depois dividir esse número pela duração em segundos). Mas não me surpreenderia se alguém me dissesse que “Avatar” apresenta algo em torno de 4 segundos por plano. Seria uma média perfeitamente coerente com os filmes contemporâneos de aventura, com ou sem 3D.

Ou seja, nesse ponto em particular – os efeitos do 3D na montagem visual, para adaptar o novo suporte cinematográfico à percepção dos espectadores – ainda estamos por presenciar um novo ciclo de mudanças estilísticas.

Ou, talvez, Bordwell esteja errado em sua lógica. Talvez as novas gerações tenham uma percepção visual tão mais aguçada (por causa da natureza fragmentada na Internet e dos dispositivos em miniatura com os quais estão tão familiarizadas) que se adaptarão ao suporte antes que os produtores de conteúdo sejam obrigados a revisar seus procedimentos estilísticos.

Em seus livros, Bordwell refuta essa idéia. Ele acha que o aparelho biológico da espécie humana não seria capaz de se adaptar tão rapidamente a mudanças de percepção. Embora o admire bastante, acho bem possível que ele esteja errado nesse ponto.

Veremos.

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