127 Horas

23/02/2011 | Categoria: Críticas

Danny Boyle dilui uma história de estoicismo e perseverança numa espécie de catálogo de técnicas de como um diretor pode interferir na trama para acelerá-la artificialmente, e assim torná-la mais palatável para um público mais amplo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Em depoimento que pode ser conferido no clássico “O Demônio das Onze Horas”, de Jean-Luc Godard, o iconoclasta Samuel Fuller tentou resumir o cinema em uma palavra: emoção. Este ingrediente é algo que não falta no episódio real que inspirou o filme “127 Horas” (127 Hours, EUA/Inglaterra, 2010). Medo, angústia, horror, dúvida, remorso, esperança, júbilo, tudo isso aparece em doses concentradas no filme do inglês Danny Boyle, que parece ter buscado no longa-metragem a complexa solução para um desafio: como evitar que o público fique entediado com a história de um homem que permanece isolado e sem poder se mover durante pouco mais de quatro dias?

A resposta a essa pergunta pode muito bem ter sido o fator que levou Danny Boyle a enfrentar a tarefa de adaptar para a tela grande o episódio, narrado com riqueza de detalhes num horripilante livro escrito pelo protagonista do episódio, Aron Ralston (James Franco). Aventureiro cheio de energia, Aron teve o braço direito preso sob uma rocha de meia tonelada, quando explorava um cânion localizado no deserto do Utah (EUA), e precisou amputar o próprio membro com uma faca para não morrer. Uma história incrível, não há dúvida. Mas como fazer um filme em que toda a emoção, como diria Samuel Fuller, permanece represada o tempo inteiro dentro da mente de protagonista, que não interage com mais ninguém durante todo o curso da narrativa e, por isso, não tem como verbalizar o turbilhão de emoções e sensações trazido pela condição?

Apesar de jovem, Danny Boyle é um cineasta realizado e de carreira relativamente longa. Ele já foi um dos queridinhos da geração de diretores especializados em cultura pop que emergiu na primeira metade dos anos 1990, explodindo após dirigir o paparicadíssimo “Trainspotting” (1996), tragicomédia juvenil sobre consumo de drogas e vagabundagem na Escócia. Flertou com superproduções de aventura (“A Praia”), horror (“Extermínio”), ficção científica (“Sunshine”), sátira política (“Caiu do Céu”) e ganhou o Oscar (filme e direção) com uma paródia de Bollywood (“Quem Quer Ser um Milionário?”). Talvez Boyle tenha visto em “127 Horas” a oportunidade de se reinventar. E decidiu encarar o desafio.

É importante observar que ele já tinha pelo menos uma experiência anterior com filmes claustrofóbicos, em que os personagens permanecem confinados em um único cômodo, naquele é talvez seu melhor e mais coeso trabalho, “Cova Rasa” (1994), justamente o título de estréia. A diferença é que, embora fosse possível encontrar ali a semente do Danny Boyle inquieto e histriônico que viria a aflorar totalmente após “Transpotting”, sua abordagem era muito mais lacônica, simples e clássica – e isso ajudava a afunilar enormemente a tensão, à medida que o conto sobre cobiça mergulhava em humor negro e violência.

As estratégias narrativas que Boyle emprega para fazer aflorar as emoções que vive Aron Ralston em “127 Horas” diluem a força da narrativa original, porque rompem o postulado básico da claustrofobia, através de uma variedade de técnicas que, artificialmente, retiram o protagonista de sua prisão natural e, dessa maneira, eliminam a monotonia do cenário, o isolamento do personagem e a experiência do tempo que parece congelado. Esses três elementos, embora exijam uma disciplina que o espectador de filmes comerciais costuma não ter, são cruciais para que se possa compreender e experimentar a variedade do cardápio de emoções que envolve a história original.

Assim, Danny Boyle injeta o máximo de energia cinética (montagem rápida, música pop, encenação baseada no movimento dos corpos) ao primeiro ato da trama, em que Aron aparece cheio de energia. Quando a rocha finalmente o prende à força num cânion apertado em que a luz do sol só entra durante 15 minutos por dia, um terço do filme já se foi. Aí, Boyle recorre a todos os truques possíveis para manter a agilidade da trama: delírios, sonhos, montagem paralela, mini-clipes musicais, flashbacks reais e imaginados, diários que o aventureiro grava com sua câmera amadora (único aspecto da dramatização que tem paralelo na realidade). Na prática, o espectador passa muito pouco tempo preso junto com Aron – e não experimenta e realidade brutal de sua experiência, que aparece diluída num caleidoscópio de cores mais parecido com uma viagem de ácido do que com a angústia da proximidade da morte.

Em que pese a ótima interpretação de James Franco (o ator, aliás, vem se destacando pela seleção interessante de projetos que passam longe da rotina de blockbusters dos grandes astros de Hollywood) no papel principal, bem como a fotografia competente de Anthony Dod Mantle (a beleza e o horror que convivem juntos na paisagem desértica do deserto do Utah aparecem muito claramente, tanto nos planos gerais quanto nas tomadas apertadas feitas em locação), “127 Horas” dilui uma história de estoicismo e perseverança numa espécie de catálogo de técnicas de como um diretor pode interferir na trama para acelerá-la artificialmente, e assim torná-la mais palatável para um público mais amplo. E, sim, a esperadíssima cena em que Aron amputa o próprio braço é filmada na mais pura tradição grand guignol.

– 127 Horas (127 Hours, EUA/Inglaterra, 2010)
Direção: Danny Boyle
Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn
Duração: 94 minutos

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