2001 – Uma Odisséia no Espaço

06/03/2008 | Categoria: Críticas

Filme cerebral, arrastado e intrigante é incógnita para alguns e obra-prima para outros

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A cena faz parte da mitologia de Hollywood. Em 1968, durante a pré-estréia do aguardadíssimo novo filme de Stanley Kubrick, então já considerado o maior gênio em atividade na indústria do cinema, a inquietação da platéia era grande. “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (2001 – A Space Odissey, EUA, 1968) abriu um monte de interrogações nas cabeças da platéia, que a recebeu com um silêncio sepulcral. Afora alguns risos de deboche aqui e acolá, ninguém tinha coragem de abrir a boca. Até que, no meio da projeção, o ator Rock Hudson se levantou, gritando: “Alguém pode me explicar o que diabos significa esse filme?”. E deixou o Pantage Theatre, furioso. Metade da multidão de críticos e estrelas do cinema que lotavam o lugar foi atrás. A reação inicial do público à ficção científica de Kubrick seguiu a mesma lógica. Foi extremamente negativa.

O cineasta, normalmente seguro até as raias da arrogância a respeito da genialidade dos filmes que fazia, desta vez não estava tão confiante. Após a sessão, trancou-se na sala de montagem dos estúdios MGM e cortou 17 minutos do longa-metragem. E põe longa nisso: “2001” dura, mesmo com essa tesourada, nada menos do que 148 minutos. E parece ser ainda maior, pois possui longos trechos em silêncio, sem diálogos. A primeira frase falada por um personagem só aparece após 20 minutos de filme. Da mesma forma, os últimos 25 minutos também não registram nem um único diálogo. “2001” é poesia visual que, muitas vezes, não faz nenhum sentido lógico. Pelo menos na superfície.

Um filme desse tipo, é evidente, desrespeita muitas regras do jogo cinematográfico. Por isso, não é estranho que as platéias rejeitem o filme. Em 1968, apenas duas porções distintas da audiência salvaram Kubrick de um fiasco absoluto. Uma era formada por hippies, que passaram a lotar os cinemas para fumar maconha e “viajar” durante a psicodélica seqüência final do trabalho. A outra era uma parte – minoria – dos críticos de cinema nos Estados Unidos. Pauline Kael, o maior nome da atividade, odiou o filme, chamando-o de “o mais caro filme amador já feito”. Mas muita gente boa acreditava que ali estava um dos maiores e mais importantes trabalhos já realizados. Essa turma é diretamente responsável pela transformação de “2001” em um verdadeiro ícone do cinema, nos anos subseqüentes.

Em pleno século XXI, é muito fácil exaltar as virtudes cinematográficas e filosóficas de “2001”. O filme, como se sabe, influenciou de forma definitiva tudo o que foi feito na área da ficção científica. De aventuras juvenis como “Guerra nas Estrelas” a dramas espiritualistas, como “Contato”, todos os cineastas que filmaram o homem no espaço sideral pagam tributo a Stanley Kubrick. Definir um filme que prescinde de palavras utilizando-as não é uma atitude sensata, e o próprio Kubrick atribuía as reações negativas dos críticos a isto, mas não custa tentar: “2001” é simplesmente o projeto mais ambicioso já realizado por qualquer cineasta, em qualquer época. Outro homem que tentasse algo semelhante estaria fadado ao fracasso desde o princípio, mas não Kubrick. Ele foi provavelmente o único diretor a justificar uma óbvia megalomania com o mesmo tanto de talento.

“2001” é uma completa sinfonia clássica de imagens, o equivalente cinematográfico à Nona Sinfonia de Beethoven. O crítico Roger Ebert já afirmou que o filme pretende ser um tratado de filosofia a respeito do lugar do homem no Universo. Faltou afirmar que a obra consegue atingir o objetivo com a mesma eficácia que Platão, Nietzche, Schoppenhauer ou qualquer um dos grandes filósofos da Humanidade. Siga essa lógica e pense: quem, dentro de uma platéia comum, consegue ler e entender esses gênios com verdadeira autoridade? Talvez seja esse o problema com “2001”. Não é um filme para pessoas comuns, que vão ao cinema – ou alugam um DVD – em busca de passatempo, diversão.

O filme resume a história do homem em quatro diferentes segmentos, que correspondem mais ou menos aos movimentos de uma sinfonia. O único ponto em comum entre os quatro episódios é a presença do misterioso monólito negro, cujo simbolismo Kubrick jamais revelou. uma pesquisa acurada poderia listar dezenas de teorias, das mais simples às mais loucas e disparatadas, sobre o significado desses rochedos retangulares. Certa vez, o co-roteirista do filme, Arthur C. Clarke, afirmou que o objetivo dele e de Kubrick, ao fazer “2001”, era obrigar a platéia a refletir sobre um número descomunal de perguntas. “Se alguém conseguir responder a todas, isso significa que fracassamos”, disse. Estava certíssimo.

O primeiro episódio mostra como um bando de macacos descobre, sob inspiração do monolito, que pode usar ossos como armas para afastar grupos rivais. É a chave para que evoluam em direção à espécie humana. O segundo segmento focaliza uma missão espacial norte-americana que descobre um monólito negro semelhante, enterrado em solo lunar. O terceiro mostra a viagem da nave Discovery ao planeta Júpiter, em uma missão secreta coordenada pelo legendário supercomputador HAL 9000. O último episódio mostra o resultado da viagem de um astronauta através de um portal estelar. É pouco coerente, poético e deliberadamente lento. Veja o filme e tire as conclusões por si mesmo.

Não é necessário dizer que “2001” tornou-se, desde o lançamento, um dos filmes mais citados e reverenciados por cineastas de todos os gêneros. Algumas de suas seqüências viraram clássicos absolutos do cinema, como a elipse de quatro milhões de anos, em que um osso, atirado para o alto por um macaco do primeiro episódio, se transforma na nave espacial que empreende a viagem até a Lua, no segundo (cena citada no melodrama “Adeus, Lênin”). A valsa “Danúbio Azul”, de Johann Strauss, e a lenta dança das espaçonaves pelo espaço sideral compõem outra seqüência antológica do trabalho. Isso sem falar de toda a confusão que envolve HAL 9000, o computador mais inteligente (e humano) que o cinema já criou. “2001” é um trabalho seminal para quem acredita, do fundo do coração, que o cinema pode ser uma arte tão profunda e metafísica quanto a literatura.

Além disso, possui uma narrativa cinematográfica absolutamente brilhante. Kubrick nos dá uma verdadeira aula de narração sem usar palavras. Observe, por exemplo, a apresentação do cientista que protagoniza o segundo segmento. Ele viaja em direção à Lua com a expressão de tédio de quem cumpre uma rotina cansativa. Dorme a sono solto enquanto a Terra brilha, solene e enigmática, na janela da nave. Quem, senão um homem acostumado à cena, dormiria num momento desses? Kubrick dispensa qualquer tipo de narração para explicar à platéia quem é e o que faz cada personagem. Não há um único diálogo expositivo. Quem conhecem bem Cinema sabe o quanto isso é raro. E como se não fosse suficiente, o cineasta ainda anteviu com absoluto brilhantismo e correção o comportamento do homem no espaço, bem como a vista que se tem da Terra lá do alto (o filme foi lançado antes que astronautas filmassem o planeta visto do espaço).

O DVD simples da Warner, de capa branca, não contém extras. A imagem mantém o enquadramento correto (widescreen anamórfico). O áudio é de boa qualidade (Dolby Digital 5.1). Já a edição dupla traz um segundo disco, abarrotado com mais de duas horas de extras, incluindo um documentário retrospectivo (43 minutos) e cinco featurettes, nos quais diretores como Steven Spielberg e George Lucas, e especialistas como Camille Paglia, falam sobre como o trabalho de Kubrick os afetou, e discutem as possibilidades de vida extraterrestre inteligente. Um prato cheio para os fãs.

– 2001 – Uma Odisséia no Espaço (2001 – A Space Odissey, EUA, 1968)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Daniel Richter
Duração: 147 minutos

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