2012

13/11/2009 | Categoria: Críticas

Senso de humor salva o arrasa-quarteirão de Roland Emmerich de se tornar, na dimensão narrativa, aquilo que representa visualmente: um desastre absoluto

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A humanidade é – sempre foi, de fato – fascinada com a idéia do fim do mundo. Certamente deve haver alguma explicação mítica e/ou psicanalítica por trás de tal fascínio, mas essas explicações devem ser procuradas num consultório de psiquiatria ou no gabinete de algum antropólogo. No cinema, particularmente na versão espetacular da atividade em que Hollywood se especializou, só dá para encontrar narrativas que permitam ao espectador experimentar a sensação de viver esse momento, sem ter que enfrentá-lo na verdade. Sim, é uma válvula de escape. Essa é uma boa maneira de abordar “2012” (EUA, 2009), terceira versão cinematográfica do diretor alemão Roland Emmerich para o apocalipse.

Obcecado desde sempre com a idéia de destruição cada vez mais massiva e espetacular, Emmerich rema com a maré. Em 1996, ele destroçou o planeta numa invasão alienígena. Em 2004, a catástrofe chegou com o carimbo do aquecimento global. Desta vez, Emmerich recorre a uma antiga lenda maia, mistura profecias obscuras de milhares de anos com noções enganosas de geologia e astrofísica, e inventa o cenário ideal para esmigalhar o planeta com terremotos, vulcões, tsunamis, incêndios e todo o tipo de catástrofe natural que se possa imaginar – tudo “documentado” com uso massivo de imagens geradas por computador, em seqüências enormes de ação e efeitos especiais que deixam pouco espaço para desenvolvimento de personagens (mesmo num filme com 158 minutos de duração).

O enredo, que segue meia dúzia de pessoas cujos destinos colidem no dia do fim do mundo, mistura explosões na superfície do sol, alinhamento dos planetas com o sistema solar e aquecimento anormal do núcleo da Terra como fatores conjugados que provocam a completa destruição do planeta. Todos esses eventos convergem no dia 21 de dezembro de 2012, data em que uma velha lenda maia prevê a extinção da Terra. Nesse dia, acompanhamos a corrida frenética de um motorista particular (John Cusack) e de sua família em busca de uma improvável salvação. Outros personagens importantes incluem um geólogo norte-americano (Chiwetel Ejiofor), o presidente dos EUA (Danny Glover) e sua filha nervosinha (Tandie Newton), um assessor da Casa Branca (Oliver Platt), um bilionário russo (Zlatko Buric), um radialista maluco-beleza (Woody Harrelson) e mais um punhado de gente tonta que corre de um lado para outro, enquanto o chão se abre e traga cidades inteiras, como Los Angeles e o Rio de Janeiro.

O grande número de personagens importantes, aliado à predileção evidente do diretor alemão por longas seqüências de ação frenética que intercalam cada 10 ou 15 minutos de filme, impedem a platéia de cultivar empatia por algum personagem em particular. O herói da vez supostamente deveria ser Jackson Curtis (Cusack), mas a absoluta ausência de informações positivas sobre ele bloqueia a possível afeição desenvolvida pela platéia. Aliás, Jackson não passa de uma pálida imitação do personagem de Tom Cruise no “Guerra dos Mundos” de Steven Spielberg: um pai ausente, mais preocupado em fuçar no Google do que em brincar com os filhos na única noite mensal que passa com eles, que precisa de um chacoalhão de forças maiores para poder descobrir que a família é algo que importa. Touché.

De certa forma, discriminar um filme desses por desrespeitar as leis da Física não parece uma atitude analítica muito adequada. Seria o equivalente cinematográfico a um padre fazer um sermão para um bando de católicos praticantes, ou seja, pregar para os já convertidos. Afinal, todos sabemos que o público-alvo dos blockbusters é formados por jovens e adolescentes que estão pouco se lixando para a verdade científica que existe (ou deveria existir) por trás dos eventos encenados. Portanto, é melhor deixar de lado o argumento de que o arremedo de Ciência que Emmerich apresenta no filme não passa de um amontoado de bobagens que não fazem o menor sentido. Isso é fato, mas um fato que não melhora nem piora o resultado final.

Por outro lado, o diretor finalmente descobriu um ingrediente poderoso em filmes cuja escala torna complicado desenvolver o lado humano dos personagens: o humor. Com diz Woody Harrelson, em certo momento da trama, bons narradores usam o humor para atrair a platéia. Assim, sai o tom solene e épico dos arrasa-quarteirões anteriores e entra uma atmosfera de sátira irreverente, que transforma até mesmo as seqüências mais absurdas e destruidoras – em particular o vôo cego de avião sobre os arranha-céus de Los Angeles, que se liquefazem logo abaixo – em um espetáculo divertido. O senso de humor, infelizmente eliminado da narrativa no terceiro ato, salva “2012” de se tornar, na dimensão narrativa, aquilo que representa visualmente: um desastre absoluto.

O DVD nacional carrega o selo Sony. O filme aparece com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– 2012 (EUA, 2009)
Direção: Roland Emmerich
Elenco: John Cusack, Chiwetel Ejiofor, Danny Glover, Oliver Platt, Woody Harrelson
Duração: 158 minutos

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