2046 – Os Segredos do Amor

03/03/2006 | Categoria: Críticas

Filme trabalha temas como tempo e memória com visual espetacular, mas possui narrativa irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Quem conhece a obra do diretor Wong Kar-Wai sabe da importância que o número 2046 tem para ele. Embora o significado desse número jamais tenha sido explicado dentro dos filmes que ele dirigiu, é fácil perceber sua simbologia. O número representa o ano em que se encerra o prazo dado pela China para que o governo independente de Hong Kong se adapte e realize a integração oficial ao país. Como Hong Kong é uma ilha capitalista (e próspera) dentro do país comunista, dá para perceber o devastador efeito que essa integração terá em gente como Kar-Wai, um filho da cidade. Vale lembrar que Hong Kong era, até 1997, uma colônia inglesa, de cultura amplamente diferente dos costumes chineses tradicionais. Daí a simbologia: 2046 é o ano previsto para que ocorra o choque cultural mais intenso da vida de quem nasceu em Hong Kong.

Só que, dentro da obra do cineasta, nenhuma simbologia é tão simples assim. Na primeira vez em que Kar-Wai usou o algarismo, 2046 era o número de um quarto de hotel onde os dois protagonistas de “Amor à Flor da Pele” se encontravam às escondidas. Depois da primeira montagem do filme, contudo, o diretor mudou radicalmente de idéia em relação à obra. Cortou, então, quase 90 minutos do filme, retirando toda a subtrama que envolvia os encontros proibidos. Dessa forma, as referências a 2046 só são conhecidas por aqueles fãs que tiveram acesso ao material cortado, que pode ser conferido em grande parte no DVD do filme.

Chegamos, então, a “2046 – Os Segredos do Amor” (China/Hong Kong/França/Alemanha, 2004), o filme. Em termos de marketing, a obra foi vendida como uma continuação do cultuado “Amor à Flor da Pele”, premiado em Cannes e de grande sucesso nos círculos de cinéfilos ocidentais, inclusive no Brasil. Encarar o longa-metragem como uma simples continuação, contudo, seria simplificar e reduzir demais os ricos significados que são sugeridos, muito mais do que ditos, por Wong Kar-Wai nos 128 minutos da película. Sim, o escritor e jornalista Chow Mo-Wan (Tony Leung), personagem principal de “Amor à Flor da Pele”, é o protagonista. Mas trata-se de um homem completamente diferente, o que coloca toda a trama em uma perspectiva bastante diversa.

Em “2046”, o número tem três significados. Trata-se do número do quarto de hotel que fica em frente ao aposento onde mora Chow Mo-Wan. É, também, o ano para onde o personagem principal do livro que o jornalista está escrevendo tenta viajar, a bordo de um trem que faz viagem no tempo. Por fim, o mesmo romance também descreve 2046 como o lugar aonde as pessoas vão para recuperar memórias perdidas. Esse último significado engloba também os dois anteriores, e representa também os temas principais do filme: a passagem do tempo, os amores perdidos e a memória.

Aqui e acolá, Kar-Wai utiliza um recurso que lembra bastante o Wim Wenders de “Asas do Desejo”: algum personagem ou a narração em off pronuncia uma frase marcante, como um slogan informal, que dispara torrentes de reflexões sobre as temáticas que o autor deseja abordar. “Por um momento eu a tive, mas a deixei partir, e a perdi para todo o sempre”, afirma Chow, durante uma passagem em que relembra a antiga paixão de “Amor à Flor da Pele”. É o tipo de observação que não só explica as atitudes controversas do jornalista (detalhes mais à frente), mas sobretudo provoca em cada espectador uma associação subconsciente das imagens do filme à memória afetiva de cada um.

A narrativa começa de maneira um pouco confusa, introduzindo um grande número de personagens e se expandido lateralmente (ou seja, a cada novo personagem que aparece, a narrativa faz um desvio e passa a acompanhá-lo). Isso dura apenas até o aparecimento do jornalista e escritor, de volta a Hong Kong após uma temporada em Cingapura. Ele procura a mulher dos seus sonhos no quarto 2046 do hotel onde tiveram encontros. Ela não está lá, mas ele aluga o quarto ao lado. Ao longo de três anos, vai estabelecer relações afetivas com outras três mulheres que se hospedam no quarto do título. O filme acompanha essas relações.

Todas as marcas registradas de Kar-Wai estão presentes. A fotografia belíssima de Christopher Doyle, repleta de cores ricas e movimentos de câmera suaves, reprisa o efeito embriagante de “Amor à Flor da Pele”; os figurinos chiques de William Chang estão de volta (vestidos longos, luvas, fraques); o uso de câmera lenta é abundante; as músicas latinas e/ou de jazz clássico, inclusive com canções de Nat King Cole, praticamente não param de rodar na vitrola de Chow Mo-Wan (a ação se passa na década de 1960); e, por fim mas não menos importante, há as mulheres belíssimas, misteriosas, que amam e se deixam amar, mas estão sempre escapando por entre os dedos dos homens.

Se Maggie Cheung atiçou a libido de muito marmanjo do filme anterior, a bola da vez é a chinesa Zhang Ziyi. Na longa seqüência que ela protagoniza, como uma linda prostituta que se apaixona pelo jornalista, Kar-Wai chega a sair do seu tradicional estilo contido, filmando muitas cenas de sexo, cheias de pudor para os olhares ocidentais, mas ousadas em excesso para o público chinês (onde acabaram retiradas da montagem final). Uma das melhores seqüências é aquela em que Chow seduz Bai Ling pela primeira vez; todo o clima de misteriosa sedução sugerido pela cenografia ganha uma tensão sexual excitante. Kar-Wai sabe que sensualidade não tem nada a ver com exibição gratuita de corpos, e nesse sentido “2046” é uma obra muito sensual.

Mas o elemento de maior destaque na trama é mesmo a brusca mudança de personalidade de Chow Mo-Wan. O homem reservado, tímido e quieto de “Amor à Flor da Pele” sofreu uma desilusão amorosa colossal, de que jamais conseguiu se recuperar. Por causa disso, se tornou um autêntico cafajeste, saindo com várias mulheres ao mesmo tempo e não se permitindo uma ligação mais forte com nenhuma. O astro oriental Tony Leung chegou até a cultivar um bigodinho fino no estilo Clark Gable (mais uma referência de Kar-Wai às obras clássicas de Hollywood), para acentuar esse caráter canalha.

Em resumo, “2046” é um filme típico de Wong Kar-Wai. É lindamente fotografado e trabalha temas ricos e interessantes, da maneira oblíqua e fugidia do diretor oriental. Dessa vez, entretanto, o estilo caótico de filmar (Kar-Wai reescreve o roteiro várias vezes durante as filmagens, mudando as características dos personagens de maneira bastante radical) abriu caminho na narrativa, tornando-a irregular e um tanto confusa, especialmente na primeira parte. Se souber superar esses problemas, o que o cinéfilo vai encontrar é uma obra romântica à moda antiga.

– 2046 – Os Segredos do Amor (China/Hong Kong/França/Alemanha, 2004)
Direção: Wong Kar-Wai
Elenco: Tony Leung, Zhang Ziyi, Gong Li, Wong Faye
Duração: 128 minutos

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