24 Horas – 3ª Temporada

20/03/2007 | Categoria: Críticas

Maior virtude do seriado é a edição, que consegue dar conta de todas as tramas paralelas com eficiência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Em um mundo perfeito, uma temporada completa da série “24 Horas” deveria ser exibida dentro do mesmo conceito sob o qual é produzida: em tempo real. Os 24 episódios de uma tacada só, num único dia, em uma descarga ininterrupta e alucinante de adrenalina. Personagens e espectadores, dos dois lados da tela, vivendo num único arco temporal. Infelizmente, este é um sonho cheio de inconvenientes. Pouca gente tem tanto tempo livre para dedicar um dia inteiro a um seriado, e o cansaço provocado por tamanha maratona televisiva certamente prejudicaria a experiência. Se alguém quiser tentá-la, contudo, uma boa indicação para isto é a terceira temporada de “24 Horas” (EUA, 2004).

O Dia 3 de ação ininterrupta vivido pelo o truculento agente especial Jack Bauer (Kiefer Sutherland), especializado em contra-terrorismo, é uma verdadeira aula de como se deve editar uma série de televisão. Quase duas dúzias de tramas e subtramas correm em paralelo, durante os 24 episódios, sem que o espectador se perca – ou esqueça do drama pessoal de algum dos quase 30 personagens – em nenhum momento. Para manter a eficiência e o nível de adrenalina sempre alto, o truque é condensar ao máximo as cenas, tornando-as curtas e cheias de diálogos (muitos deles ao celular). A estética urgente, com câmera na mão e movimentos laterais velozes, dá o toque final.

A experiência de assistir à série em DVD, contudo, tem um inconveniente. Se por um lado a possibilidade de ver toda a temporada em poucos dias ajuda a platéia a compartilhar um pouco da sensação alucinante que os personagens sentem, por outro lado os furos de lógica e narrativa ficam muito mais evidentes – e eles não são poucos nesta terceira temporada. Quer exemplos? Bauer começa o seriado sofrendo os efeitos da abstinência de heroína (ele se tornou viciado após ter se infiltrado numa quadrilha de traficantes), mas em poucas horas o problema é literalmente esquecido pelos produtores, e nenhuma referência à droga é feita da metade da temporada em diante. E o que dizer do disparate de ver os membros da CTU, a unidade anti-terrorista composta por agentes de elite, tendo que lidar com o bebê de um deles dentro do escritório, justamente no dia mais aloprado do ano?

O nível de melodrama atinge picos quase insuportáveis em alguns momentos da temporada, mas os produtores escapam da cilada ao jogar vários personagens importantes em situações-limite, e isto inclui a morte e a mutilação de muitos deles. A história começa seguindo três linhas narrativas: Jack Bauer, o truculento agente que faz James Bond parecer animador de festas infantis, precisa impedir que terroristas liberem um vírus mortal em grandes cidades dos Estados Unidos. O presidente David Palmer (Dennis Haysbert) acompanha tudo com o rabo do olho, enquanto enfrenta um debate crucial para a campanha de reeleição e uma crise envolvendo a namorada. Na CTU, os agentes precisam lidar com um traidor, e ainda auxiliar Jack e o parceiro Chase (James Badge Dale) no trabalho de campo. Essas três histórias vão se desdobrando e multiplicando a cada novo episódio.

Graças à decisão drástica de não renovar o contrato de nenhum personagem (exceto, claro, o de Kiefer Sutherland, que além de protagonista é também produtor executivo), os produtores ficaram livres para detonar quem quisessem. Isto faz da temporada um programa imprevisível – e qualquer cinéfilo sabe que é ótimo assistir a um filme ou seriado sabendo que tudo, tudo mesmo, pode acontecer a seguir. Palmer, por exemplo, precisa encarar algumas decisões drásticas e reavaliar completamente a postura de retidão impecável pela qual sempre prezou. Como ele, muitos personagens enfrentam dilemas morais de natureza complexa e humana. Não é muito comum ver, em filmes, agentes secretos de elite lidando com coisas banais, como namoros e filhos, ao mesmo tempo em que precisam salvar o mundo. São os detalhes que fazem de “24 Horas” um programa acima da média.

A caixa de sete DVDs é impecável. Seis deles contêm os 24 episódios, com qualidade superior de imagem (widescreen 1.78:1 anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1). Há comentários em áudio de atores e produtores em vários deles. O sétimo disco tem featurettes enfocando aspectos das gravações, tudo legendado em português.

– 24 Horas – 3ª Temporada (24 Season 3, EUA, 2004)
Direção: Joel Surnow (produtor)
Elenco: Kiefer Sutherland, Elisha Cuthbert, Carlos Bernard, Reiko Aylesworth
Duração: 43 minutos por episódio

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