30 Dias de Noite

16/04/2008 | Categoria: Críticas

David Slade desperdiça premissa interessante de vampiros atacando na noite sem fim do Alasca em horror repleto de clichês

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

O que os vampiros mais temem? Errou quem pensou em alho, crucifixos ou estacas de madeira. É só lembrar da maioria dos filmes povoados pelos seres das trevas para perceber que esses objetos podem causar desconforto nos dentuços, mas o modo mais eficaz de matá-los é a luz do sol. Agora, imagine onde seria o paraíso para os seres das trevas? A resposta óbvia: a cidade de Barrow, no extremo norte do Alaska (EUA), onde a proximidade do Pólo Norte faz o sol sumir por 67 dias ininterruptos. A história de “30 Dias de Noite” (30 Days of Night, EUA, 2007) parte desse raciocínio para narrar uma invasão vampiresca à cidadezinha onde Judas perdeu as meias (as botas ele já tinha perdido um pouco antes).

O conceito, bolado pelo roteirista de quadrinhos Steve Niles, é tão simples e engenhoso que surpreende: como é que ninguém havia tido esta idéia antes? Por propósitos dramáticos, Niles modificou a realidade, reduzindo a população de Barrow, dos quatro mil habitantes que existem de fato para pouco menos de 600. Também comprimiu o número de dias de noite sem fim, de 67 para 30 dias redondos. Então, criou uma variação dos filmes sobre cercos de bandidos a vítimas inocentes (a exemplo de “Onde Começa a Inferno”, de Howard Hawks) e escreveu o gibi, publicado em 2002. Com pequenas alterações, é esta a trama do longa-metragem dirigido por David Slade, do bom thriller de suspense “Meninamá.com” (2005).

Infelizmente, apesar da boa sacada do conceito, o longa-metragem se resume à manipulação burocrática dos clichês narrativos de filmes de horror, sem trazer qualquer elemento novo. Slade não vai além de narrar as dificuldades enfrentadas pelo pequeno grupo de habitantes que consegue sobreviver ao ataque inicial dos vampiros. Trata-se de um filme de personagens em que eles, os personagens, não passam de uma coleção unidimensional de estereótipos. Há o herói sempre disposto a se sacrificar pelos demais (Josh Hartnett), o esquisitão que se revela um altruísta (Mark Boone Jr), a heroína (Melissa George) que tem dúvidas a respeito do amor que sente pelo protagonista, o malvadão insensível (Danny Huston), o maluco amigo dos vilões (Ben Foster), o jovem aprendiz que segue os passos do herói (Mark Rendall), e por aí adiante.

Há muito pouco em “30 Dias de Noite” que não tenhamos visto antes. O melhor momento da produção está no primeiro ato, em que David Slade consegue criar certa tensão ao evitar mostrar diretamente os monstros. Em uma série de cenas curtas, todas passadas no último dia de sol (quando boa parte dos cidadãos cai fora de Barrow para passar “férias” num lugar normal), o diretor opta por exibir a preparação do ataque dos seres das trevas, que destroem todos os telefones celulares e também o único helicóptero da cidade, para evitar que os moradores possam fugir ou pedir ajuda. A partir do ataque propriamente dito, enfatizado por uma longa e criativa tomada aérea que mostra o tamanho do estrago deixado pelos vampiros, o filme cai de vez no lugar-comum. E dele não consegue sair mais.

O roteiro, escrito por Stuart Beattie em colaboração com o autor do gibi original, recicla um punhado de histórias parecidas. As referências ao romance “Drácula” são óbvias (o humano que precede a chegada dos vampiros é um maluco que come insetos e vai parar na cadeia, como Renfield do livro de Bram Stocker), mas a trama bebe de outras fontes. O herói, Eben, é o jovem xerife da cidade. Ele está em processo de divórcio da esposa, e o entrevero com os dentuços dos infernos acaba contribuindo para que eles ganhem uma nova chance. Não lembra de onde viu isso antes? Que tal “O Segredo do Abismo” (1989)? Há dezenas de exemplos do mesmo tipo. Quando o cerco dos vampiros aperta, por exemplo, um dos habitantes de Barrow decide tentar escapar atabalhoadamente e pode pôr tudo a perder. Tudo clichê. Você já viu isso antes, muitas vezes.

A decepção com “30 Dias de Noite” é maior porque David Slade havia se mostrado um cineasta promissor em “Meninamá.com”. No filme de 2005, ele havia conseguido criar grande quantidade de tensão usando o mínimo de elementos – dois atores jovens fechados em um par de locações simples. Aqui, porém, ele entrega uma direção preguiçosa, recorrendo a artifícios narrativos batidos, que poucas vezes deixam antever criatividade. Para dar sustos na platéia, por exemplo, Slade põe vultos para cruzar a câmera. Nas seqüências mais agitadas, quando os vampiros atacam, ele usa montagem fragmentada com pequenos jump cuts (rasgões na continuidade temporal). Nada muito radical – apenas o suficiente para criar uma breve sensação de desorientação.

O defeito mais grave de “30 Dias de Noite” é o desenvolvimento inexistente de personagens. Os coadjuvantes humanos, por exemplo, não têm qualquer dimensão emocional. Apenas preenchem necessidades narrativas. Pode pegar qualquer um deles como exemplo. Há no grupo um homem oriental de meia idade que permanece calado o tempo inteiro, abrindo a boca praticamente uma única vez – e então criando um monólogo interessante, que poderia gerar um momento emocional forte. Não funciona, porque o silêncio anterior não deixou a platéia criar uma empatia com ele. Os dois únicos que têm um background ligeiramente mais aprofundado são o casal de protagonistas – e mesmo assim não ficamos sabemos sequer as razões dos desentendimentos anteriores deles. Slade perde todas as chances de criar drama genuíno, a partir da dura situação os sobreviventes. Nunca os vemos enfrentando dificuldades cotidianas, como ir ao banheiro. Essas coisas contribuiriam para dar mais senso de verossimilhança ao filme, mas são deixadas de lado.

Quanto aos vampiros, são apenas máquinas de matar com movimentação e aparência semelhantes a “Extermínio” (2002). Esta característica, é obvio, depõe contra “30 Dias de Noite”. Em todos os bons filmes de vampiros, os seres das trevas funcionam como metáfora para o tema principal que o diretor deseja abordar. O Drácula de Coppola era um homem apaixonado, e o filme falava de amor eterno. Nos filmes da Universal (anos 1930) e da produtora inglesa Hammer (1960), o conde romeno era um sedutor – os longas versavam sobre sexo. Murnau, em “Nosferatu” (1922), criou a figura asquerosa de um rato gigante, uma força da natureza, que mata por sobrevivência (e com grande senso prático). David Slade não criou nada. Seus vampiros são assassinos que matam por vontade de matar. Eles têm os olhos negros e sem vida. Como o filme.

O DVD da Universal contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). O extra mais destacado é um documentário em oito partes, cobrindo todo o processo de produção. Há também um comentário em áudio com o diretor.

– 30 Dias de Noite (30 Days of Night, EUA, 2007)
Direção: David Slade
Elenco: Josh Hartnett, Melissa George, Danny Huston, Ben Foster
Duração: 113 minutos

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