300

03/08/2007 | Categoria: Críticas

Épico sanguinolento de Zack Snyder adota técnicas de videogame e muita misoginia para buscar uma hipertrofia dos sentidos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Zack Snyder era virtualmente um desconhecido quando começou, em 1999, a peregrinar pelos estúdios de Hollywood, na tentativa de vender o projeto do épico sanguinolento “300” (EUA, 2007). Na época, os executivos não achavam boa idéia transformar um gibi misógino e violento em longa-metragem, e Snyder só ouviu negativas. Em poucos anos, tudo mudou. O cineasta se tornou nome quente, após dirigir o elogiado horror “Madrugada dos Mortos” (2004). O sucesso esmagador da série “O Senhor dos Anéis”, ao lado da onda rentável de filmes baseados em quadrinhos, tornou o cenário favorável ao tipo de produção que Snyder queria fazer. Foi assim que “300”, filme-síntese das mudanças radicais que a linguagem cinematográfica vem experimentando no século XXI, viu a luz do dia.

A resultado final reproduz, com fidelidade canina, o estilo brutal e as imagens estilizadas dos quadrinhos, em tons dourados e vermelho-sangue. “300” é um filme único, irregular e contraditório; o tipo de produção que rende opiniões firmes, do tipo “ame ou odeie”. Trata-se de um épico anabolizado, um balé de jorros de sangue e membros decepados, exibido em câmera lenta. Consegue ser ainda mais ultraviolento e misógino do que o gibi, e não se furta a exibir enorme fascinação homoerótica com o corpo masculino. Lembra um “Gladiador” (2000) atualizado para os novos tempos – ou seja, aditivado pelas substâncias proibidas que os freqüentadores de academias de ginástica injetam nos músculos, e influenciado pela estética e pela narrativa dos videogames. Mas o caso, aqui, é mais do que mera hipertrofia muscular. Na verdade, o filme se esmera em celebrar uma hipertrofia dos sentidos.

Tudo, absolutamente tudo em “300” é hipertrofiado, exagerado, grandiloqüente. Os bíceps, tríceps e músculos peitorais dos 300 guerreiros encarregados de defender Esparta das hordas de persas encabeçados pelo deus-imperador Xerxes (Rodrigo Santoro), na invasão à Grécia relatada por Heródoto em 480 a.C., funcionam como metáfora perfeita desta hipertrofia. E a melhor medida dela é fornecida pela análise da figura do ator brasileiro, pois ela incorpora com perfeição esta característica, sem dúvida a mais importante do filme. Xerxes eleva os clássicos personagens “maiores-que-a-vida”, que o cinema norte-americano se especializou em celebrar durante décadas, de John Wayne a Sylvester Stallone, a um patamar de exagero inédito.

Vejamos: Xerxes é mais alto do que um jogador da NBA. Tem voz mais cavernosa do que o urro do King Kong (Santoro teve a voz manipulada digitalmente). Usa mais piercings no rosto do que um tatuador sadomasoquista, e mais correntes de ouro do que um pagodeiro carioca. Os cílios e sobrancelhas são pintados com delineador negro, e as longas unhas aparecem tingidas de dourado. O corpo é todo untado de óleo e sem pêlos: o protótipo perfeito de uma Pomba-Gira cibernética. Não seria estranho ver uma figura assim num terreiro de macumba erguido no mundo virtual do Second Life (a qualquer momento, pensamos, ele vai sair sambando no meio da interminável carnificina em câmera lenta em que o filme se transforma, a partir da metade). Já dentro de um filme normal, Xerxes chamaria a atenção como uma maçã no meio de laranjas. Mas sejamos justos: “300” não tem nada de normal.

Observar as reações nervosas da platéia, dentro de um cinema lotado, no momento da primeira aparição de Santoro, dá boa medida da impressão causada pelo longa. Parte do público fica de queixo caído, dá sorrisos amarelos, ou gargalhadas histéricas. Não se sabe bem como reagir a algo assim, pois ele não tem antepassados; a hipertrofia dos sentidos se manifesta aí de forma especialmente forte. No momento que a figura literalmente monstruosa de Santoro aparece, o filme está bem na metade – a conversa entre Xerxes e Leônidas (Gerard Butler), rei dos espartanos, racha a obra em duas partes bem distintas – e o público, entre constrangido e excitado, se manifesta ruidosamente. A sonoridade gutural do vozeirão do ator nacional, aliás, é perfeita para testar os graves do sistema de som. É coisa para fazer as paredes e poltronas tremerem. Nenhum ser humano fala daquele jeito.

É claro que Zack Snyder, assim como Frank Miller (que escreveu e desenhou o gibi), não estão interessados em humanidade. Nada de realismo aqui. Interessa aos dois causar a impressão mais bombástica possível, e nisso são bem sucedidos. Existe, de fato, uma conexão emocional forte entre o filme e a platéia, algo que a bilheteria norte-americana confirma (“300” levou mais gente aos cinemas no mês de março do que qualquer outro filme anterior). Pode-se discutir a qualidade cinematográfica do produto, mas é inegável que Snyder conhece a cabeça dos adolescentes do século XXI, e fala a mesma língua que eles. A sucessão ininterrupta de imagens homoeróticas de torsos nus sendo martirizados, um amálgama de violência (explícita) e sexo (apenas prometido, através da imagem dos homens seminus) em doses cavalares, funciona como uma marretada nos sentidos. Hipertrofia. Daí o sucesso.

Como outras produções contemporâneas, “300” investe em um bombardeio incessante de imagens e sons agressivos. Deixa de lado o bom senso e técnicas narrativas tradicionais. Esqueça, por exemplo, as sutilezas. Nos melhores trabalhos, cineastas comunicam sensações de modo sutil. Muitas vezes a informação não está nas palavras, mas num olhar de soslaio, numa expressão facial, num corte ou na justaposição de dois planos de sentidos complementares. O bom uso dos códigos narrativos do cinema precisa ser decodificada pelo espectador atento, que participa dinamicamente da projeção, acrescentando algo de sua própria experiência ao que está vendo.

Porém, nada disso existe em “300”, um filme onde os personagens falam berrando uns com os outros, soltando frases de efeito (“tomem um café reforçado, pois à noite jantaremos no inferno”) aqui e acolá. Além disso, em bons longas-metragens de aventura, a narrativa engrena aos poucos, explorando os conflitos dos personagens até explodir num clímax eletrizante. A isto se chama ritmo. Em “300”, o ritmo é irregular. Começa devagar e segue aos trancos e barrancos até a metade da projeção. Então o filme descamba para uma carnificina incessante que dura quase uma hora, sem pausas. E esta carnificina é apresenta através de longas seqüências em câmera lenta, em que o tempo demora a passar, de modo que os olhos possam absorver cada centímetro do visual espetacular, e admirar o trabalhão que deu para construir aquilo tudo.

Sob estes aspectos técnicos, claro, há muitos elogios a serem feitos. “300” foi filmado com uma técnica nova, semelhante à usada em “Sin City” (2005): todas as cenas filmadas dentro do estúdio, com atores atuando sobre fundo azul. Os cenários digitais, produzidos em três dimensões e em computadores comuns, foram acrescentados depois, durante os doze meses de pós-produção. O nível de detalhes é assombroso e o visual, nunca menos do que espetacular. A impressão é que a película inteira recebeu um banho de ouro em pó, pois predominam as tonalidade douradas e vermelho-sangue. A textura é granulada, como se as imagens estivessem sendo desenhadas com lápis de cera infantil. A colorização do gibi original (feita pela esposa de Frank Miller, Lynn Varley) é reproduzida fielmente. Em termos visuais, portanto, a experiência é bem estimulante.

Apesar disso, admiradores da revista lançada em 1998 vão perceber alterações na história. Foi acrescentada toda uma subtrama envolvendo a rainha de Esparta (Lena Headey), e as cenas de batalha – que na revista são sintetizadas em três ou quatro páginas – ganharam uma amplificação como sempre exagerada, que inclui até mesmo uma longa tomada sem cortes, de 71 segundos ao todo, em que a velocidade de movimentação dos personagens é manipulada pelo diretor, se alternando entre o hiper-lento e o super-rápido (“Matrix”, lembram?). O take flagra Leônidas destroçando pernas, braços e cabeças de 17 adversários, primeiro com a lança, depois com a espada. O que chama especialmente a atenção nesta tomada, e esta observação encaixa perfeitamente no filme como um todo, é a evidente influência dos videogames na estética e na composição.

Alguns críticos já detectaram este fenômeno antes. Ele ainda carece de um estudo mais profundo e consistente, mas já é possível afirmar que a chamada “estética MTV” (ação frenética mostrada através de cortes rápidos) está sendo substituída pelo que poderíamos chamar de “estética Playstation”. A composição visual da tomada citada no parágrafo acima – personagens se movendo lateralmente, vistos à meia distância – simula com perfeição a perspectiva de alguns jogos do console, chamados de “side-scrollers”. Várias outras características de games (tomadas em primeira pessoa, violência gráfica incessante, jorros de sangue aos borbotões, a alteração na velocidade de projeção, música pesada) podem ser observadas durante o filme.

Também no aspecto narrativo existe uma influência clara dos games. Como bem disse o colega Kleber Mendonça Filho, do site Cinemascópio, o filme é estruturado em fases de dificuldade crescente, como se estivéssemos avançando em um jogo eletrônico (“primeira fase fácil, segunda fase mais difícil, terceira parte impossível”, escreve Kleber). Esta estrutura, é importante ressaltar, não é exclusiva de “300”. Outros filmes de sucesso junto à platéia masculina adolescente, ou pós-adolescente, têm utilizado estrutura semelhante – a série “Jogos Mortais”, também famosa pela ferocidade com que se dedica às amputações e banhos de sangue, é o melhor exemplo. Junte tudo isso à música agressiva, que mistura o tom solene dos épicos antepassados (“Conan”, “Gladiador”) a guitarras heavy metal, e você tem um perfeito exemplo de um produto destinado a provocar aquilo a que me referi no começo deste texto: a hipertrofia dos sentidos.

O DVD da Warner é duplo, e vem com excelente qualidade de imagem (widescreen 2.40:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem comentário em áudio do diretor (no disco 1)e um segundo CD repleto de documentários. Dois deles comparam os fatos históricos com a ficção, outros dois (um deles dividido em 12 partes e antes disponibilizado via Web) esmiúçam os bastidores, e um quinto traz quadrinista Frank Miller falando sobre a inspiração para o gibi original. Uma galeria de cenas cortadas com comentários do diretor completa o pacote, todo legendado em português.

- 300 (EUA, 2007)
Direção: Zack Snyder
Elenco: Gerard Butler, Rodrigo Santoro, Lena Headey, Dominic West
Duração: 117 minutos

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3 comentários
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  1. Bom dia gente. bem,eu adorei o filme 300,achei uma boa história e sinto por o autor e diretor não insistir na segunda parte do filme,e porque não pensar na terceira? amei tambem a trilogia ´senhor dos anés. e não posso me esquecer de madrugada dos mortos.
    eu tambem sou autor, e estou procurando um espaço pra mim nessa industria tão facinante. sei que minha busca será ardua,mais ainda sou jovem e posso esperar,emquanto espero vou escrevendo,e quem sabe quando a sorte bater na minha vida eu já esteja preparado?
    parabens ao senhores e continuem trazendo pra os noticias do mundo cinematograficos,fiquem com DEUS.
    ( importante. por favor podem publicar meu e-mail,se der esta bem? obrigado)

  2. frank miller é o maior e o melhor no que faz.

  3. Antonio Carlos, nos anos 80 o cara só fazia obras-primas hoje não podem mais afirmar isso, infelizmente.

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