800 Balas

12/06/2006 | Categoria: Críticas

Comédia de Alex de la Iglesia homenageia os faroeste espaguete com banquete para fãs do estilo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Durante dez anos, entre as décadas de 1960 e 1970, mais de 600 longas-metragens de cidadania espanhola e/ou italiana emularam, com filmagens em pleno território europeu, os faroestes norte-americanos. O chamado spaghetti western gerou algumas obras-primas (“Três Homens em Conflito”), alguns filmes muito bons (“O Vingador Silencioso”) e centenas de porcarias. Gerou, também, uma verdadeira indústria de cinema na província de Almería, na Espanha, onde quase todas essas obras eram filmadas. A comédia “800 Balas” (Espanha, 2002), de Alex de la Iglesia, faz uma homenagem afetuosa a essa indústria, em um filme delicioso, verdadeiro banquete para os fãs de Sergio Leone e cineastas adeptos do estilo.

A abertura dinâmica, estilosa e bem humorada resume o filme com perfeição. Mostra o ataque de bandidos mascarados a uma diligência, com profusão de referências aos faroestes italianos. Os enquadramentos copiam cenas de filmes famosos (o plongée que mostra por trás os bandidos no alto de uma pedra, em primeiro plano, observando a caravana que passa embaixo, poderia estar em um filme de Leone), a música agrega toques latinos a melodias famosas, e por aí vai. A festa só é interrompida quando um dos bandidos fica ferido ao ser atropelado pela diligência. É quando ficamos sabendo que as imagens mostram a produção de um faroeste espaguete. O homem ferido é um dublê. Mocinhos e bandidos são atores.

A verdade é que “800 Balas” faz uma elegia aos bastidores do cinema barato, ao mundo do filme B, em diversos níveis diferentes. A reverência óbvia premia os faroestes espaguete – é sensacional e hilariante a seqüência dos créditos de abertura, ao som de uma versão flamenca do famoso tema de “Três Homens em Conflito” – mas a produção também cumprimenta o mundo obscuro dos dublês, tão essenciais para os filmes de ação, e no entanto tão esquecidos.

Alex de la Iglesia é o cineasta ideal para filmar tal película: ele mesmo um profissional egresso do mundo do filme B, e um amante incondicional dessas produções baratas, Iglesia mergulha no ambiente pé-na-jaca dos bastidores de filmes vagabundos com uma paixão palpável, quase concreta. “800 Balas” celebra essa paixão com doses generosas, não tem a mínima vergonha de apelar para a nudez feminina e os palavrões (sem com isso baixar o nível das piadas) de humor e funciona, ainda, como um lamento pelo fim desse tipo de cinema, feito mais com o coração e menos com o bolso.

Quem dispara o enredo é um pirralho de 11 anos. Carlos (Luis Castro) descobre, certo dia, que ao contrário do que diz a mãe empresária (Carmen Maura), seu avô está vivo. Julian (Sancho Garcia) comanda uma turma de bêbados, atores fracassados e prostitutas que vive de fazer shows temáticos para meia dúzia de turistas, no empoeirado povoado de Texas Hollywood. A cidade cenográfica onde Leone filmava com Clint Eastwood nos anos 1960 é, agora, quase uma cidade-fantasma, freqüentada por um ou outro alemão (“faz seis meses que nenhum japonês vem aqui”). Movido pela curiosidade, Carlos foge de casa e vai conhecer o avô. Sem saber, essa atitude vai pôr em risco a sobrevivência do teatrinho de faroeste que ainda sobrevive por lá.

A história é o que menos importa em “800 Balas”. A trama, aliás, investe em uma fórmula melodramática bem comum, toda fincada na antiga (e ainda eficiente) dualidade tradição X modernidade, em que o segundo item não passa de disfarce para a globalização e suas conseqüências (pouco) éticas. Os antigos dublês de cinema são todos sujos, bêbados, cínicos e debochados, mas no fundo são almas boas, um bando de caras com quem a gente adoraria tomar uma cerveja. É gente que perdeu o bonde da vida por causa do apego a um sistema de valores morais que não existe mais, que se acabou junto com o cinema que eles faziam. E o filme se põe ao lado deles com carinho insuspeito.

Claro que, para quem não conhece nada de faroeste espaguete e não vai muito com a cara do gênero, a diversão não é a mesma. Aqueles que não carregam uma bagagem de produções baratas da Espanha e da Itália nas costas não vão conseguir identificar as dezenas de referências, e nem, entender boa parte das gags e piadas emprestadas de produções da época (o pistoleiro Cheyenne, por exemplo, não é a cara do veterano Eli Wallach?). Essa turma talvez não ache o filme tão engraçado assim. Mesmo assim, “800 Balas” é comédia surreal da melhor qualidade, e uma das melhores produções de um dos cineastas mais talentosos e esquecidos da Espanha na atualidade.

Para os marmanjos, ainda vale a pena ficar de olho na beleza da atriz Yoima Valdés, que interpreta a prostituta Sandra e tem duas cenas de nudez de encher os olhos. Numa delas, contracenando com o garotinho Luis Castro, em ousadia que deixa no chinelo o polêmico banho de Nicole Kidman com um pirralho em “Ressurreição”, de 2004. Cenas corajosas assim só existem mesmo em filmes B, o que por si só já seria motivo para uma homenagem como “800 Balas”.

O DVD é da Europa. Não possui extras, mas a cópia do filme é razoável: imagem com enquadramento original preservado (widescreen 2.35:1 letterboxed) e áudio com quatro canais (Dolby Digital 2.0). Nos EUA, o filme foi lançado em cópia pior, com tela cheia (ou seja, laterais cortadas).

– 800 Balas (Espanha, 2002)
Direção: Alex de la Igresia
Elenco: Sancho Garcia, Angel de Andrés López, Carmen Maura, Luis Castro
Duração: 121 minutos

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