9 – A Salvação

14/01/2010 | Categoria: Críticas

Apesar do soturno visual interessante, aspecto de colcha de retalhos prejudica animação sobre futuro pós-apocalíptico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

O filme, todo feito em animação computadorizada, começa com uma seqüência sinistra e onírica na qual garras metálicas costuram um boneco de pano. “Coraline e o Mundo Secreto”, você pensou? Não, não é esse. Um pouco adiante, o tal boneco – um ser inanimado que adquire consciência – vai descobrir, aos poucos, habitar um planeta Terra devastado e sem vida. Seria “Wall-E”? Desculpe, também não. Mais à frente, o boneco perceberá que a Terra foi destruída após uma guerra entre máquinas e humanos, e desconfia que pode vir a ser ele próprio o salvador da humanidade. Ah, agora sim: “Matrix”!

Errado de novo. Essa colcha de retalhos roubada de filmes anteriores, todos lidando com a idéia de um futuro pós-apocalíptico, compõe o tecido narrativo de “9 – A Salvação” (EUA, 2009), estréia em longa-metragem do cineasta Shane Acker. Ele trabalhou em cima de uma idéia original (seja lá o que “original” signifique, neste caso) anteriormente filmada num curta-metragem finalista do Oscar de 2006. Acker deu duro para ver seu filme ganhar vida, e precisou garantir o apoio de dois diretores influentes nos bastidores de Hollywood – Tim Burton, sempre disposto a dar uma mãozinha a gente cuja visão de mundo é macabra como a dele, e o russo Timur Bekmambetov – para ver o longa, espécie de versão expandida do filminho anterior, virar realidade.

Como seria de esperar num filme do gênero, o que existe de mais interessante e positivo nele é o aspecto visual. A textura suja e ao mesmo tempo cartunesca, a iluminação em chave baixa, as tonalidades amarronzadas e os cenários repletos de detalhes dizem muito à respeito da inclinação de Acker para o aspecto visual do ofício de cineasta (o que acaba se revela particularmente verdadeiro quando se examina o desenho sonoro do longa-metragem, que privilegia a música e não soa inventivo em nenhum momento). Ele também caprichou, como é praxe nesse tipo de trabalho, em preencher todas as seqüências com infindáveis referências visuais, muitos vezes explícitas, a longas-metragens anteriores.

Curiosamente, embora tenha trabalhado com ferramentas tecnológicas avançadas para realizar o filme, Acker se mostra um nostálgico de carteirinha. Em um trecho que flerta com o musical, por exemplo, ele põe dois bonecos para brincar com uma vitrola que executa o tema inesquecível de “O Mágico de Oz” (aquele mesmo do arco-íris, cantado por Judy Garland). Sobram referências para filmes antigos, como a primeira versão de “Guerra dos Mundos” (o design das máquinas que perseguem os bonecos), a idéia central de “O Exterminador do Futuro” e, claro, dezenas de citações visuais à trilogia “Matrix” e também à série animada paralela “Animatrix”, cujas duas primeiras partes parecem ter sido a inspiração direta deste filme. Sem falar de “Fuga de Nova York”, “Eu, Robô” e tantos outros.

O enredo trata de um boneco numerado (o 9 do título) cujas características naturais de coragem e curiosidade o levam a liderar um grupo de bonecos idênticos (na aparência, pois suas personalidades são distintas) para resgatar um deles, que se encontra aprisionado. No processo, eles acabam descobrindo que sua busca pode revelar questões bem mais complexas a respeito do destino da humanidade. Tudo temperado por inúmeras seqüências de ação (bem dirigidas, mas sem nada de especial) e por uma espiritualidade de almanaque que lembra os piores momentos de “Matrix Revolutions”.

O que mais chama a atenção na obra do novato Shane Acker, contudo, é mesmo o caráter de colcha de retalhos que ele dá universo onde a história se desenrola. Aliás, esse procedimento narrativo virou lugar-comum nos últimos anos. Do já citado “Matrix” (cujo status passou rapidamente de liquidificador gigante de estilhaços da cultura pop a obra seminal desse cinema-mosaico) até à obra de Quentin Tarantino, boa parte dos filmes contemporâneos é constituída de colagens reprocessadas de material cujas memórias nostálgicas dos cineastas contemporâneos reconstituem para as novas gerações. Claro que esse procedimento gera material de qualidade (especialmente naqueles diretores cujo talento os ajuda a subverter o que já existe para criar algo novo, caso de Tarantino), mas talvez esteja aí uma das razões para a tão falada crise de criatividade dos filmes do século XXI.

O DVD simples da Playarte contém apenas o filme, com formato correto de imagem (wide anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0), incluindo dublagem em português, mas sem extras.

– 9 – A Salvação (EUA, 2009)
Direção: Shane Acker
Animação
Duração: 79 minutos

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