À Beira da Piscina

16/05/2004 | Categoria: Críticas

Amparado em boas interpretações, filme estaciona entre uma trama de suspense e o estudo da psicologia feminina

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Uma escritora inglesa de meia idade viaja para a casa de campo do seu editor, no interior da França, para descansar e tentar encontrar inspiração. “À Beira da Piscina” (Swimming Pool, França/Inglaterra, 2003), do prestigiado cineasta francês François Ozon, está assentado nessa premissa simples. É de admirar, portanto, que o diretor consiga construir um filme envolvente, que estaciona a meio caminho entre o thriller de mistério e o estudo da psicologia feminina.

A personagem central do filme é Sarah Morton (Rampling, numa atuação extraordinária), uma escritora especialista em tramas de suspense no melhor estilo Agatha Christie. Morton, principal estrela de uma editora de médio porte em Londres, encontra-se num estado de exaustão. Percebendo que o cansaço retira a inspiração de Sarah, o editor dela, John Bosload (Charles Dance), sugere que a escritora tire férias e se dirija à casa que ele utiliza no verão.

Sarah faz exatamente isso. A tranqüilidade do pacato vilarejo francês, bem como o contato com a natureza, fazem bem à escritora e, quase de imediato, restauram nela o desejo e a inspiração para os livros. Essa tranqüilidade, contudo, é quebrada com a chegada da filha de John, Julie (Ludivine Sagnier).A garota também está na casa para descansar, mas a concepção das duas do que significa descanso é bem diferente.

O filme é construído, de forma sofisticada e propositalmente lenta, a partir da tensão entre as duas personagens. “À Beira da Piscina” transforma-se, portanto, num raro filme que gravita em torno de duas fascinantes personagens femininas. Os homens, na película de Ozon, apenas cumprem funções ocasionais na narrativa, funcionando como meros apêndices para satisfazer desejos ou necessidades das duas protagonistas.

Aos poucos, o clima inicial de antipatia mútua, que se estabelece entre Julie e Sarah, vai dando lugar a um misto de fascínio e repulsa, de parte a parte. Curiosas e, ao mesmo tempo, hesitantes, as duas mulheres começam a se aproximar de forma relutante. Essa tensão é retratada de forma eficiente pelo cineasta, que utiliza com discrição e bom gosto as belas locações (a requintada mansão campestre, um bar no vilarejo) para construir o cenário na qual se desenrola o drama humano.

As duas atrizes, por sua vez, estão soberbas. Ludivine Sagnier explora a beleza física para construir a atrevida Julie, enquanto Charlotte Rampling oferece um show particular como Sarah. Sem jamais utilizar o recurso fácil da narração em off, o diretor François Ozon consegue pôr o espectador dentro da mente de Sarah, e o faz contando com a interpretação contida da veterana atriz inglesa, que faz uma corajosa e digna cena de nudez (e, acredite, consegue deixar muito marmanjo surpreso com a boa forma).

Enfim, “À Beira da Piscina” é um ótimo exercício de construção de personagens, possui um roteiro inteligente, atrizes em grande forma e direção segura. Como bônus, apresenta ainda uma interessante reviravolta no final, algo que aproxima a trama de um filme metalingüístico como, digamos, “Adaptação” (2003, de Spike Jonze), só que com mais sobriedade.

O problema é que todo esse conteúdo virtuoso vem embalado num produto propositalmente frio, calculado, sem emoção, bem ao estilo de Ozon (e dos diretores franceses clássicos). O espectador contemporâneo se ressente dessa frieza e pode, por isso, rejeitar a obra. Com um pouco de paciência, contudo, a platéia pode ter uma boa experiência com “À Beira da Piscina”.

– À Beira da Piscina (Swimming Pool, França/Inglaterra, 2003)
Direção: François Ozon
Elenco: Charlotte Rampling, Ludivine Sagnier, Charles Dance, Marc Fayolle
Duração: 103 minutos

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