À Beira do Abismo

17/09/2006 | Categoria: Críticas

Mesmo montado e remontado, noir de Howard Hawks é célebre, espirituoso e intrincado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Um dos mais conhecidos e importantes títulos do gênero noir, “À Beira do Abismo” (The Big Sleep, EUA, 1946) é um exemplo de como, nos anos dourados de Hollywood, até mesmo produções baratas e repletas de confusões nos bastidores tinham qualidade incontestável. O filme ficou mais de um ano na sala de montagem e foi retalhado tanto pelo diretor quanto por executivos da Warner, mas sobreviveu, aos trancos e barrancos, para se tornar uma das histórias de detetives mais espirituosas, célebres e intrincadas a aparecer nas telas de cinema.

O diretor, Howard Hawks, foi um dos mestres do período inicial de Hollywood, e também um dos mais completos. Ele conseguia se sair bem em praticamente qualquer gênero, produzindo clássicos em segmentos díspares como as comédias (“Jejum de Amor”) e o faroeste (“Rio Vermelho”). Foi de Hawks a idéia de comprar os direitos do romance de Raymond Chandler, um clássico popular que vendia milhares de exemplares em bancas nos anos 1930.

A história, complicada e cheia de reviravoltas, é mera desculpa para que o cineasta se esmere em construir a atmosfera sórdida e nebulosa, em que nada é o que parece, dos romances noir. O enredo segue o detetive particular Philip Marlowe (Bogart) em uma longa e difícil investigação que inclui assassinatos misteriosos, chantagem e contrabando. No papel da dama fatal, a mulher misteriosa que tem algo a esconder, está a então mulher do astro: Lauren Bacall, atriz que esteve no pivô de muitas das polêmicas envolvendo a produção.

Reza a lenda que as filmagens transcorreram em relativa calma, mesmo depois que Hawks e Bogart, intrigados com um assassinato da trama cuja solução parecia impossível, telefonaram para Raymond Chandler, perguntando quem havia sido o assassino – o escritor renomado respondeu que não sabia, e explicou que as soluções dos enigmas na verdade não importavam, pois o que cativava a imaginação do público era a relação maliciosa entre o herói detetive e a mulher misteriosa.

Desta forma, os dois decidiram que deviam concentrar esforços no sentido de construir bons diálogos para os protagonistas. Alguns meses após as filmagens, contudo, os executivos da Warner suaram frio quando viram o primeiro corte. A atriz Martha Vickers, que interpretava a irmã mais nova do personagem de Bacall, havia ficado tão magnética em cena que eclipsava os dotes da atriz em ascensão, em quem o estúdio apostava muito. Hawks foi obrigado a filmar novas cenas e reduzir as seqüências com Carmen (Vickers). Entre os novos diálogos estava aquele que se tornaria o momento mais famosa da produção, a maliciosa conversa de duplo sentido, sobre cavalos, entre Marlowe e Vivian (Bacall).

A verdade é que, embora possua todos os ingredientes dos melhores filmes noir – o detetive sarcástico, a mulher misteriosa, gângsteres e malfeitores de sobretudos negros, um milionário entediado, inúmeras cenas situadas à noite e localizadas em bares – o longa-metragem de Howard Hawks não chega a ser uma obra-prima do estilo. A ironia fina dos diálogos, egressos do livro de Raymond Chandler, e a interpretação deliciosamente cafajeste de Humphrey Bogart respondem pelos maiores méritos da produção, mas o filme não vai além disso.

Embora jamais tenha sido lançado no Brasil em DVD, o longa-metragem está disponível nos EUA em diversas edições. O filme tem o enquadramento em tela cheia (fullscreen 1.33:1) e som razoável (Dolby Digital 2.0) na maior parte dos discos.

– À Beira do Abismo (The Big Sleep, EUA, 1946)
Direção: Howard Hawks
Elenco: Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Martha Vickers, Bob Steele
Duração: 116 minutos

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