À Deriva

27/02/2010 | Categoria: Críticas

Terceiro trabalho de Heitor Dhália confirma grande evolução do diretor rumo a um cinema mais maduro e humano, ao mesmo tempo brasileiro e universal

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Nos dois primeiros longas-metragens que dirigiu – “Nina” (2004) e “O Cheiro do Ralo” (2007) –, o pernambucano Heitor Dhalia deixou clara e evidente uma paixão pelo estilo visual, expresso através do cuidado meticuloso destinado à direção de arte. Figurinos, cenários e objetos cênicos (como o “olho” que se torna obsessão de Selton Mello no segundo) pareciam estar à frente das preocupações do diretor, o que tornava seus filmes belas exibições técnicas que se sobrepunham ao cuidado com os personagens, meros rascunhos de seres humanos que, depois de certo tempo de observação, tornavam-se desinteressantes.

O terceiro trabalho de Dhalia, “À Deriva (Brasil, 2009), mostra grande evolução do diretor rumo a um cinema mais maduro e mais humano. Ele entrelaça dois temas universais e bastante explorados pelo cinema – a dissolução de uma família a partir da traumática separação de um casal, e a chegada da maturidade para uma adolescente – em uma história claramente recheada de memórias afetivas e elementos pessoais. O resultado é um filme de praia bem brasileiro e ao mesmo tempo universal, algo enfatizado pela presença de nomes internacionais no elenco, liderado pelo francês Vincent Cassel (“Irreversível”).

“À Deriva” foi filmado em Búzios (RJ) e se passa em 1979, embora o filme não nos dê essas informações (que constam apenas do material de divulgação), talvez porque elas sejam mesmo de interesse nulo para a história, e sua ausência torne o enredo ainda mais universal e atemporal, dado positivo para o filme. De modo bem mais discreto e eficiente do que nos dois primeiros trabalhos do diretor, a direção de arte realiza essa ambientação com muita eficiência – a protagonista circula pelo balneário numa Mobilete, e as meninas vestem aquele tipo de calção amarelo largo bem característico dos anos 1980.

Sem chamar atenção para si, dessa vez a direção de arte abre espaço para os personagens se mostrarem e evoluírem durante a narrativa. A temporada na praia da família é vista pelos olhos de Filipa (Laura Neiva), adolescente de 14 anos que observa de perto o clima azedar de vez entre seus pais, o escritor francês Matias (Cassel) e a professora Clarice (Débora Bloch). Filipa percebe o interesse do pai por outras mulheres, bem como os nervos à flor da pele e o apego da mãe ao uísque, e realiza conexões mentais entre esses e outros fatores, construindo dentro da cabeça um quadro ingênuo (embora lógico) do que poderia estar acontecendo com o casal.

Ao longo da projeção, enquanto vive seus primeiros dilemas relacionados à sexualidade, Filipa vai aprender que o mundo dos adultos não funciona de maneira muito linear, e que as coisas quase sempre são bem mais complexas do que parecem. O roteiro de Heitor Dhalia nos oferece um quadro rico de observação do fator humano da história, favorecido pela ausência de diálogos explicativos – fiel ao jeito introvertido da personagem, Filipa observa tudo com um misto de curiosidade e amargura, lidando com sentimentos conflitantes (tristeza, impotência, tesão) do único jeito que um adolescente consegue: com ações, quase sempre desajeitadas.

Sem apelar para dispositivos narrativos que poderiam estragar a história através de clichês batidos (Filipa não tem, por exemplo, uma amiga com quem troca confidências, ainda bem!), o roteiro insere na narrativa momentos aparentemente sem importância, e que no entanto dão ao todo um molho de verdade, vulnerabilidade e intimidade que faz muito bem ao filme, emprestando-o aquele toque pessoal que todo diretor persegue, muitas vezes sem sucesso. É o caso, por exemplo, da seqüência em que Matias ajuda os feridos de um acidente na madrugada, em que um automóvel atropelou um cavalo na estrada da vila.

De forma geral, o elenco está muito bem. A estreante Laura Neiva, que está em quase todas as cenas (natural, já que a história é filtrada pelos olhos dela), nos oferece uma atuação cheia de silêncios e olhares, perfeitamente compatível com a situação emocional de quem vê muito e entende pouco. Débora Bloch está ótima como a mãe alcoólatra e emocionalmente instável, e protagoniza um dos melhores diálogos do filme, junto com Neiva. Vincent Cassel quase rouba o filme para si: falando português fluente e perfeitamente entrosado com o universo praieiro de um balneário para gente rica – lugares como Porto de Galinhas (PE) e Maragogi (AL), muito habitado por gringos desencanados –, o francês é o perfeito retrato do paizão.

Curiosamente, não há nada especificamente francês no personagem de Matias, o que levanta a suspeita de que a presença do ator seja apenas uma tentativa de tornar o filme mais atraente para o mercado externo. O mesmo ocorre com a atriz norte-americana Camila Belle, que faz pouco mais que uma ponta. Os nomes dos dois despontam como uma estratégia de mercado que justifica o fato de “À Deriva” ser uma co-produção internacional. Tudo bem; por si só esse fato não significa intrinsecamente um problema.

Se há um problema no filme, aliás, está na fotografia e na música, rincões onde a preocupação com estilo característica de Dhalia parece ter encontrado abrigo. No primeiro caso, a câmera de Ricardo Della Rosa foge dos planos gerais e de conjunto para buscar composições visuais e enquadramentos que parecem inspirados em catálogos “modernos-autorais” de moda, daquele tipo que deseja vender roupa e ser arte ao mesmo tempo; os planos são fechados e freqüentemente enquadram apenas um pé, um olho ou um queixo, com movimentos constantes de câmera que impedem o espectador de concentrar seus esforços na decodificação dos olhares e silêncios.

Nesse último ponto reside outra fraqueza; embora a trilha sonora de Antônio Pinto seja adequada, o diretor pernambucano parece não ter tido coragem de usar o silêncio para pontuar dramaticamente a ação, preferindo encher todos os momentos sem diálogos com a música evocativa, à base de piano, que acaba por se tornar excessiva. De qualquer modo, esse é um pecado menor para um filme intimista, com claro potencial para criar uma identificação pessoal poderosa com qualquer pessoa que já enfrentado uma situação semelhante dentro da família. Aliás, “À Deriva” faria sessão dupla perfeita com “Houve uma Vez Dois Verões” (2002), outra história praieira sobre maturidade claramente brasileira e universal.

O DVD brasileiro sai com o selo Universal. O formato está em widescreen anamórfico (original) e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1).

– À Deriva (Brasil, 2009)
Direção: Heitor Dhalia
Elenco: Vincent Cassel, Laura Neiva, Débora Bloch, Camila Belle
Duração: 97 minutos

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