Abaixo o Amor

15/01/2004 | Categoria: Críticas

Comédia homenageia antigos romances de Hollywood, mas overdose de trejeitos transforma obra em exercício pedante de estilo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Uma palavra define e resume perfeitamente “Abaixo o Amor” (Down With Love, EUA, 2003): estilo. Conteúdo e forma, tudo converge em estilo. Nesse sentido, talvez a película seja uma das mais perfeitas desde que Steven Soderbergh resolver fazer um exercício particular nesse campo, em “Onze Homens e Um Segredo”. A diferença é que Soderbergh tem noção exata de onde deve terminar a obsessão estilística, sob pena de incorrer numa falta gravíssima, que é divertir apenas e tão somente os autores da brincadeira, enquanto a platéia começa a bocejar. E a verdade é que, apesar dos méritos de “Abaixo o Amor” (que não são poucos), essa é precisamente a impressão do filme que fica na cabeça.

Nos 101 minutos da projeção, tudo é milimetricamente calculado. Os figurinos devem ter feito a equipe de figurinistas ter orgasmos múltiplos consecutivos – são vestidos, casacos, echarpes, ternos e coletes que dão a impressão de estar num daqueles desfiles chiquérrimos da moda de alta costura européia. Cenários e direção de arte seguem rigorosamente a mesma opção estética, repletos de badulaques sofisticados. Os personagens do filme parecem estar enfiados dentro da capa de um disco da Brian Setzer Orchestra, a jazz band mais cool dos últimos anos. Nem mesmo o indefectível dry martini com uma azeitona pendurada no palito faz falta – e a azeitona até tem uma função narrativa!

A trama em si é muito simples, e presta uma homenagem sincera às antigas comédias românticas dos anos 1960, embaladas sempre por seções de metais e jazz de qualidade. A escritora novata Bárbara Novak (Renée Zellweger) chega a Nova York para lançar um livro em que defende a tese de que as mulheres devem transar sem estar apaixonadas – isso em 1962, em plena época da repressão sexual. O livro acaba virando um sucesso extraordinário, o que provoca um certo jornalista playboy, Catcher Block (Ewan McGregor). Ele decide se disfarçar para fazê-la se apaixonar por ele e, assim, criar uma pegadinha desmoralizante. Claro que a confusão está apenas começando, e a trama organiza confusões uma após a outra, incluindo um par de reviravoltas meio previsíveis no final.

É digno de nota o desempenho homogêneo do elenco, especialmente dos quatro personagens que estão em cena o tempo inteiro. Os protagonistas se esforçam com competência para criar aquele tipo de dinâmica que se via nos romances antigos em Hollywood (frases curtas, respostas na ponta da língua, expressões teatrais e exageradas), e Ewan McGregor novamente ganha destaque, com a composição impagável de Catcher Block. Depois de “Moulin Rouge”, McGregor está cantando e dançando quase como um profissional, e o sorriso no rosto mostra que ele se divertiu a valer nas filmagens. Renée Zellweger também aproveita a experiência de “Chicago”, embora não faça tão bonito. David Hyde Pierce e Sarah Paulson, como os editores de ambos que se apaixonam igualmente, dão um toque cômico convencional.

Bom, mas o fato é que a narrativa (tão comum que um filme quase idêntico, “Como Perder um Homem em Dez Dias”, passou pelos cinemas brasileiro há poucos meses) não tem um décimo da importância que o diretor dá aos detalhes narrativos. Tudo é excessivamente coreografado, estilizado, teatralizado até dizer chega. Isso diverte nos primeiros 30 minutos, mas vai progressivamente fazendo o espectador perder a paciência. Payton Reed, que sem dúvida tem talento, constrói o filme com uma simetria refletida em absolutamente tudo o que está na tela: os cortes (quase sempre, as últimas palavras do diálogo de uma cena são uma deixa que tem resposta nas primeiras falas do personagem na cena seguinte), os diálogos, as músicas (preste atenção à seqüência em que se ouve o clássico “Fly Me To The Moon”), a trama (são dois homens, interessados em duas mulheres, desprezados ou correspondidos nos mesmos momentos).

O ponto culminante de tanta direção é a seqüência criativa em que, através do recurso de dividir a tela em duas ações simultâneas, Payton Reed filma um telefonema entre dois persnagens cujos movimentos e diálogos simulam uma relação sexual. De longe, é a cena mais inteligente da película, e por si só já vale uma boa conferida. Ocorre que tanta preocupação com a simetria acaba gerando um produto redondo demais, certinho demais, produzido demais, falso demais, frio demais. “Abaixo o Amor” acaba soando como um exercício obsessivo de técnica que deve fascinar candidatos a cineastas, mas periga afastar o publico.

– Abaixo o Amor (Down With Love, EUA, 2003)
Direção: Payton Reed
Elenco: Ewan McGregor, Renée Zellwegger, David Hyde Pierce, Sarah Paulson
Duração: 101 minutos
Censura livre

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