Across the Universe

07/05/2008 | Categoria: Críticas

Todo baseado em músicas dos Beatles, filme parece uma variação lisérgica do conto de Romeu e Julieta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Gênero morto e quase enterrado, o musical ressuscita de tempos em tempos em exceções que apenas confirmam esta afirmação. Em pleno século XXI, as platéias não têm mais paciência para números musicais. Rejeita-se amplamente a técnica clássica de alternar a história com canções, e não apenas porque as últimas emperram a ação dramática, mas sobretudo porque elas não são realistas. Musicais contemporâneos só funcionam quando o diretor agrega algum elemento pop à mistura. Simpático e colorido, “Across the Universe” (EUA, 2007) busca este molho pop em uma idéia original e irresistível: uma colagem de 33 músicas dos Beatles que conta uma história de amor juvenil bem ingênua, uma espécie de variação lisérgica de “Romeu e Julieta” ambientada na era do amor livre, em plenos anos 1960.

O longa-metragem da diretora Julie Taymor (“Frida”) poderia ser descrito como um “Moulin Rouge” hippie e adolescente. Inteligente, a cineasta utiliza um conceito bem similar ao pensado pelo australiano Baz Luhrmann. Ou seja, injeta enorme quantidade de citações ao universo histórico e conceitual dos Beatles, e capricha no tratamento visual multicolorido e espalhafatoso. Para contrabalançar, ela mantém a trama o mais limpa e direta possível, sem gorduras. É o tipo de filme que chama muito mais a atenção pelo design de produção suntuoso e criativo do que pelo fiapo de história quase arquetípica (rapaz-conhece-moça-e-se-apaixona). As coreografias são hiper-coloridas e surreais, os figurinos resplandecentes, a paleta de cores explosiva e caleidoscópica. O resultado é um visual pop-barroco que lembra um desfile de escola de samba turbinado com LSD.

Os personagens principais são os jovens Jude (Jim Sturgess) e Lucy (Evan Rachel Wood). Ele é inglês, oriundo da classe operária, e filho ilegítimo de um ex-soldado norte-americano. Ela é a filha caçula, criada com todo mimo e cuidado, de uma típica família de classe média nos Estados Unidos. Graças à viagem dele para os EUA, onde deseja achar o pai que não sabe de sua existência, Jude e Lucy se conhecem. A empatia não é imediata, mas aos poucos eles vão se apaixonar, enquanto vivem inúmeros episódios dos lendários anos 1960 (a convocação dos rapazes para a guerra do Vietnã e os conseqüentes protestos pacifistas, a ascensão de astros como Jimi Hendrix e Janis Joplin, o ácido lisérgico, o amor livre). Toda essa história é contada através das músicas do quarteto de Liverpool, costuradas por alguns poucos diálogos.

“Across the Universe” é uma delícia para beatlemaníacos de todas as idades. Conhecer o repertório da banda pode ser de grande valia, já que as letras (mantidas intactas) ganham novos significados diante das situações propostas pela história. Se você também foi bem versado na trajetória histórica dos Beatles e em tópicos da história do rock da época, aí a festa será completa, já que o longa-metragem está recheado com dezenas de citações e referências, algumas bem obscuras (o logotipo da gravadora Apple, o lendário Cavern Club, trechos de letras de canções que não entraram na trilha sonora, personagens reais como Timothy Leary e até mesmo o estilo de pintura do ex-baixista Stu Sutcliffe). Visto como um lúdico jogo no estilo “Onde Está Wally?”, o filme de Julie Taymor funciona que é uma beleza.

Do ponto de vista visual, o estilo extravagante e multicolorido evoca com propriedade a época em que a ação se passa (não vamos esquecer que a moda hippie abusava das cores), mas flerta perigosamente com o brega-kitsch em alguns momentos, especialmente nas coreografias de dança a partir da segunda metade, quando a narrativa abre mais espaço para números musicais delirantes, desvinculados da ação principal e realizados quase que exclusivamente por motivos estéticos. Não resta dúvida de que estes números funcionam perfeitamente como videoclipes das canções (o número circense em “For the Benefit of Mr. Kite” é particularmente agradável), mas poderiam perfeitamente ter sido eliminados sem qualquer prejuízo à história. O mesmo ocorre com diversos personagens coadjuvantes, que entram e saem sorrateiramente da trama, apenas para proporcionar a chance de acrescentar novas canções à trilha (a sonhadora Prudence, amiga do casal protagonista, só está lá para que seja possível cantar, em determinado momento, a bela “Dear Prudence”).

Por outro lado, há momentos de grande criatividade, como a montagem paralela que apresenta os dois personagens principais, logo no início. Ambos estão em bailes jovens, cada um em sua cidade, e dançam a mesma canção em ritmos distintos, enquanto a ambientação visual de cada baile se encarrega de deixar evidente o desnível social entre eles, ponto que será um grande problema no desenvolvimento futuro do namoro. Também é muito boa a idéia de refletir a crescente maturidade musical do quarteto de Liverpool através da narrativa, que começa certinha e ingênua e vai desbundando aos poucos, como aconteceu de verdade com a música dos Beatles. E, afinal de contas, com tanta música bacana na trilha, não é de estranhar as pequenas participações especiais de gente legal – e pop! – como Bono, Joe Cocker e Salma Hayek.

O DVD de locação, da Sony, traz o filme com qualidade boa de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Um trailer e uma cena cortada são os extras disponíveis.

– Across the Universe (EUA, 2007)
Direção: Julie Taymor
Elenco: Evan Rachel Wood, Jim Sturgess, Joe Anderson, Dana Fuchs
Duração: 131 minutos

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