Adaptação

09/04/2004 | Categoria: Críticas

Charlie Kaufman une três linhas narrativas e põe bastidores no palco em filme adorável e engenhoso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A metanarrativa é um tipo de narrativa que freqüentemente se volta para o próprio ato de narrar. Em tempos recentes, esse tipo de obra (bastante rara até meados do século XX, mais ou menos) vem se tornando mais popular. “Adaptação” (Adaptation, EUA, 2002) é um dos filmes que trabalham esse aspecto metalingüístico com maior originalidade, além de ter um senso de humor negro cáustico e apresentar uma trama absolutamente surpreendente. Juntas, essas três virtudes fazem do filme de Spike Jonze um dos melhores exemplos de frescor no cinema do século XXI.

“Adaptação” é o segundo fruto da parceria entre Jonze e o roteirista Charlie Kaufman. A dupla foi responsável pelo sucesso nada convencional de “Quero Ser John Malkovich”, uma sátira brilhante em que o famoso ator interpreta a si mesmo. Esse segundo filme da dupla, contudo, começou de maneira totalmente convencional. Não havia nada de diferente no projeto da adaptação do romance “O Ladrão de Orquídeas”, um best seller nos EUA, até que o irrequieto Kaufman fez uma completa reviravolta no roteiro que escrevia, escudado pelo tremendo sucesso do filme anterior.

Enquanto “Quero Ser John Malkovich” estava estreando nos cinemas, Kaufman estava suando para conseguir escrever um roteiro sobre o livro. Depois de quebrar a cabeça durante um tempão para conseguir dar uma forma convencional à história, o roteirista chutou o balde: decidiu colocar no papel exatamente o processo de bloqueio criativo que enfrentava. É por isso que estou contando essa pequena história de bastidores; porque, em dado momento, Kaufman colocou-a no centro do palco – e é exatamente isso o que você vai ver na tela. Com isso, ele transformou o modorrento processo de adaptar um livro para o cinema em um filme empolgante e imprevisível.

Esse aspecto metanarrativo é fundamental para entender porque tanta gente inteligente ficou entusiasmada com o filme. Atualmente, em uma Hollywood cujos filmes podem ser adivinhados com 20 minutos de projeção, é muito refrescante poder assistir a uma obra sem saber como ela vai terminar. Isso é tão raro que acabamos relevando um ou outro defeito que o filme possa ter. E ele tem; na verdade, por trás do formato original, “Adaptação” exibe um enredo convencional.

O filme de Spike Jonze é como um truque de mágica; utiliza uma montagem fragmentada em três diferentes narrativas para acentuar a impressão de imprevisibilidade. A principal linha narrativa mostra o dilema profissional e pessoal de Charlie (Nicolas Cage, muito bem, faz um sujeito cheio de tiques nervosos, que se acha gordo e cara demais para interessar qualquer mulher). A segunda volta no tempo para mostrar como a jornalista Susan Orleans (Meryl Streep) escreveu o livro original; e o terceiro faz um paralelo entre o processo de adaptação do romance e a evolução da vida na Terra.

A própria linguagem auto-referente e a narração bem-humorada de Charlie, que faz troça de si mesmo o tempo todo, ajudam a dar agilidade à trama, capturando a atenção do espectador e desviando-a do aspecto formal do roteiro. O texto, afinal, segue a clássica estrutura em três atos, amarrados por dois pontos de reviravolta, e enfoca a história de um homem cheio de fobias que precisa enfrentá-las e vencê-las para alcançar a harmonia interior. Ou seja, no esqueleto, por baixo das loucuras aparentes, “Adaptação” é puro Hollywood.

Não há demérito nenhum nisso. O texto realmente é bem conduzido e sabe utilizar os flashbacks com a dose certa de mistério e humor camp. Além disso, repete o cínico senso de humor nonsense de “Quero Ser John Malkovich”, o que faz do filme uma comédia muito engraçada. “Adaptação” ainda ganha demais com as interpretações corretas de Cage e Streep, possuindo ainda um trunfo extra: a sensacional performance de Chris Cooper no papel de John Laroche, o desdentado ladrão de orquídeas original.

Mas o maior charme do roteiro é mesmo a entrada de Donald Kaufman (Cage novamente, hilariante), o irmão gêmeo de Charlie, na trama. Apesar de fisicamente idêntico ao irmão, Donald não poderia ser mais diferente: engraçado, autoconfiante, ele tempera a trama com alguma tensão e garante boas gargalhadas.

A curiosidade é que Donald aparece nos créditos como co-autor do roteiro, mas não existe de verdade; é um personagem fictício, criado para dar um molho de humor ao texto final – o que mostra que Charlie Kaufman sabia muito bem o que estava fazendo ao escrever “Adaptação”. No final, a platéia ganha um ótimo filme e uma demonstração de como um roteirista pode transformar uma história de estrutura convencional em um filme original e surpreendente.

– Adaptação (Adaptation, EUA, 2002)
Direção: Spike Jonze
Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, John Cusack
Duração: 114 minutos

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