Adeus, Lênin!

17/05/2004 | Categoria: Críticas

Longa-metragem alemão enfoca relação entre mãe e filho, mas permite leituras de múltiplos sentidos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Uma característica das melhores obras de arte é a possibilidade que elas abrem de a platéia efetuar múltiplas leituras do seu conteúdo. O filme “Adeus, Lênin!” (Goodbye, Lenin!, Alemanha, 2003) preenche com folga esse pré-requisito. O quinto longa-metragem do cineasta Wolfgang Becker é, em essência, um melodrama sobre o amor entre mãe e filho – e funciona muito bem dessa maneira. O trabalho também permite, contudo, que se veja metáforas políticas e ideológicas de diversos níveis dentro de sua estrutura narrativa. E isso é muito bom.

Para compreender melhor esse raciocínio, é importante conhecer o enredo. O filme começa em 1988, na antiga Alemanha Oriental, quando a mãe do protagonista, o jovem Alexander Kerner (Daniel Brühl), sofre um ataque cardíaco e entra em coma. Christiane Kerner (Kathrin Sass) é uma rígida entusiasta e defensora do regime comunista. Durante os oito meses em que a mulher permanece inconsciente, o muro de Berlim vem abaixo. A unificação impõe-se como derrota comunista.

O dilema dramático do filme começa a ser delineado a partir do momento em que Christiane desperta. O médico avisa a Alexander que ela possui saúde frágil e não pode ter emoções fortes. Prevendo que ela possa ter outro ataque cardíaco, dessa vez fatal, se descobrir sobre a derrocada do antigo regime, Alexander decide esconder da mãe esse fato. Para isso, conta com a ajuda da irmã, Ariane (Maria Simon), da namorada, Lara (Chulpan Khamatova), e de alguns amigos.

Espectadores mais atentos poderão reconhecer, nessa trama, ecos de “A Vida É Bela” (1997), de Roberto Benigni. O longa italiano mostrava um pai escondendo do filho as atrocidades da Segunda Guerra Mundial. Embora seja também um melodrama, o filme de Benigni investe num tom mais caricatural e, ao mesmo tempo, sentimental. Para isso, explora o humor físico do ator e carrega no teor lacrimoso do roteiro. Isso o afasta de “Adeus, Lênin!”, cujo registro mostra-se mais sóbrio, embora paradoxalmente pareça, também, mais melancólico.

De certa maneira, o tema das relações entre pais e filhos foi retomado, nos últimos anos, por alguns dos melhores filmes feitos fora do eixo de Hollywood. O argentino “O Filho da Noiva” (2001) e o canadense “As Invasões Bárbaras” apresentam, nesse sentido, semelhanças muito mais evidentes com “Adeus, Lênin!”. São todos melodramas robustos, com grande potencial dramático e que, ao mesmo tempo, examinam em minúcias a degradação político-ideológica das sociedades do início do século XXI.

O filme de Wolfgang Becker utiliza a relação entre mãe e filho para tecer comentários a respeito da Alemanha pré e pós-queda do muro de Berlim. Para manter a credibilidade da farsa, Alexander é obrigado a usar de muita criatividade, como criar um falso telejornal capaz de explicar para a mãe as incongruências que ela vê pela janela do apartamento (um banner gigante da Coca-cola, por exemplo). O rapaz também passa horas catando vidros e embalagens de produtos extintos da antiga Alemanha Oriental no lixo, para enchê-los com conteúdo ocidental, de forma que a mãe não perceba a mudança.

Tudo isso faz o filme funcionar em vários níveis. É um melodrama edipiano, que pode falar com autoridade sobre a relação entre mãe e filho, e o faz de forma honesta, sem apelar para o sentimentalismo. Mas também é um lamento emocionado do cineasta sobre a derrocada do comunismo. Becker, aliás, dá seu recado sem jamais deixar de criticar duramente o regime comunista. Pelo contrário. Ele parece afirmar que a Alemanha só abraçou o capital porque a incompetência do regime autoritário não deixou nenhuma alternativa. Portanto, o filme funciona muito bem nesse plano político-ideológico.

Da mesma forma, “Adeus, Lênin!” ainda elabora um retrato emocionante da unificação alemã, mostrando de perto os percalços do processo. Os moradores da Berlim oriental, inicialmente deslumbrados, logo percebem que terão que se manter em subempregos, pois não possuem as qualificações necessárias para competir com os ocidentais. Assim, Alexander vira vendedor de TVs a cabo, enquanto a irmã é atendente do Burger King. Vale lembrar, ainda, que o pai dos dois, Robert (Burghart Klaussner), fugiu alguns anos antes para o lado ocidental do Muro – e a família dividida, como Becker admite, é uma metáfora para a própria Alemanha.

Todos esses detalhes transformam “Adeus, Lênin!” numa obra admiravelmente coesa. Como bom melodrama que é, o filme tem potencial para emocionar, mas o faz com sobriedade; também investe na comédia, sem entretanto provocar risos rasgados. “Adeus, Lênin!” situa-se nesse lugar de fronteira e o faz com muita competência. É um filme que apresenta uma nova faceta da alma alemã, e talvez isso explique o sucesso enorme (seis milhões de espectadores) do filme no país europeu. E isso, novamente, é muito bom.

– Adeus, Lênin! (Goodbye, Lenin!, Alemanha, 2003)
Direção: Wolfgang Becker
Elenco: Daniel Brühl, Kathrin Sass, Maria Simon, Chulpan Khamatova
Duração: 121 minutos

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