Aeon Flux

15/05/2006 | Categoria: Críticas

Filme baseado em desenhos da MTV abusa de trucagens digitais e entrega trama irregular e superficial

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Não tem jeito: a visão do futuro compartilhada por todas as gerações pós-Segunda Guerra é, via de regra, cada vez mais pessimista, mais desesperançada, mais distópica. O fenômeno acontece mais uma vez no longa-metragem “Aeon Flux” (EUA, 2005), dispendiosa dramatização em live action (ou seja, com atores de carne e osso) dos cultuados desenhos animados exibidos pela MTV entre 1991 e 1995. O filme, primeiro trabalho da atriz Charlize Theron após a vitória no Oscar de 2004, lida com temas expressivos como clonagem, sonhos e memória, munido de um arsenal de efeitos especiais claramente inspirados na série “Matrix”. O resultado final, infelizmente, é irregular e superficial.

A semelhança com “Matrix” vai muito além dessa visão pessimista do futuro, que as duas produções apresentam. Toda a parte visual do filme bebe da fonte dos irmãos Wachowski. Incluem-se, aí, os figurinos, mais interessados em criar modas (óculos escuros, cortes de cabelo) do que em agregar informação visual à trama. O estilo caótico de montagem, com múltiplos cortes por segundo, e a trilha sonora pesada também vão na mesma linha.

A constatação é curiosa e demonstra como a cultura pop atua de forma absurdamente autofágica, canibal mesmo. Como se sabe, a criação do desenhista coreano Peter Chung influenciou o mundo futurista de Larry e Andy Wachowski, que se inspiraram (entre dezenas de outros filmes, livros, desenhos e teorias filosóficas) em Aeon Flux para dar vida aos personagens de “Matrix”. Por isso, é irônico – e de certo modo lamentável – que a transposição do universo original do desenho da MTV para um filme de longa-metragem vá buscar inspiração em um subproduto de si mesmo.

Um dos maiores erros da produção de 2005 é a tentativa de explicar tudo, tintim por tintim, sobre o mundo da assassina/terrorista Aeon Flux (Charlize Theron). Grande parte do charme dos desenhos animados estava na forma obscura como Peter Chung tratava a protagonista. Não se sabia quase nada sobre o passado e sobre as motivações da garota, muito menos as razões pelas quais ela mantenha uma relação tumultuada de amor e ódio com o maior inimigo, Trevor Goodchild (Marton Csokas).

Ele é o governante da cidade Bregna, único lugar do planeta Terra onde os humanos conseguiram sobreviver a uma praga que dizimou 99% da humanidade, em 2011. O filme se passa 400 anos depois desse acontecimento devastador, citado brevemente nos letreiros de abertura. As breves tomadas panorâmicas que mostram Bregna como uma espécie de cidade engarrafada no meio de uma selva abissal são promissoras, mas infelizmente não veremos mais nada parecido no decorrer da produção.

O fato é que “Aeon Flux”, o filme, lança luz sobre o passado e os motivos da personagem principal, criando uma teoria maluca para explicar a atração mútua entre os dois inimigos mortais. Essa teoria tem a ver com clonagem e levanta a possibilidade de que os eventos ocorridos em uma vida possam ressurgir na memória de um clone dessa pessoa, uma experiência que não tem nada de científico e é literalmente impossível.

Na verdade, o filme confunde clonagem com ressurreição, algo inexplicável para uma produção de US$ 55 milhões que levou mais de dois anos para chegar à tela grande. É o típico caso de idéias de segunda mão recebendo roupagem de primeira. Por causa da temática, a produção foi insistentemente comparado com “A Ilha”, de Michael Bay, quando na verdade tem muito mais de um filme obscuro de outro Michael, o Winterbottom. Como “Código 46” (2004), “Aeon Flux” está assentado em boas idéias sobre o futuro (telefones são implantados dentro dos tímpanos das pessoas) que são mais citadas do que mostradas na tela.

O pior de tudo é que a produção é ruim também do ponto de vista técnico. A utilização abusiva da técnica do blue screen (atores atuando sobre fundo azul que é, depois, sobreposto com cenários criados em computador) é evidente e mal disfarçada. A arquitetura geométrica de Bregna, inspirada em Brasília (DF), é fascinante, mas claramente artificial.

Talvez a culpa seja de Peter Jackson (“O Senhor dos Anéis”), que elevou o nível do blue screen a um estágio em que, mesmo com esforço, não se consegue mais diferenciar o real do artificial. Isso não ocorre em “Aeon Flux”; no filme, qualquer pessoa na platéia consegue saber quais cenários são reais e quais são construídos de pixels. O filme deita e rola nas trucagens artificiais que a edição estroboscópica, com cortes ultra-rápidas, tenta esconder. O uso de tomadas panorâmicas também é econômico e reforça a impressão de um mundo falso.

Na parte do elenco, não há observações negativas a fazer. Charlize Theron está linda de cabelos negros, Sophie Okonedo (primeiro papel em filme de ação, depois de concorrer ao Oscar por “Hotel Ruanda”) não compromete e o neozelandês Marton Csokas se redime da péssima atuação em “Cruzada”. Os veteranos Pete Postletwaith e Frances McDormand (ela como uma espécie de Nossa Senhora terrorista) têm participações pequenas.

Pena que esse potencial humano acaba desperdiçado por um roteiro óbvio demais, que deixa compartimentadas as cenas de ação e os diálogos – as duas coisas nunca ocorrem na mesma seqüência – e esquece de aprofundar melhor o trauma da protagonista, que é potencialmente interessante. Em resumo, “Aeon Flux” é o tipo de filme que promete, mas não cumpre.

O DVD da Paramount é simples, mas tem muitos extras. A qualidade de imagem (wide 2.35:1) e de som (Dolby Digital 5.1) é ótima. Há dois comentários em áudio (um da dupla de rotieristas, o outro reunindo Charlize Theron e a produtora Galé Anne Hurd) e cinco featurettes (sobre figurinos, locações, efeitos especiais, fotografia e cenas de ação).

– Aeon Flux (EUA, 2005)
Direção: Karyn Kusama
Elenco: Charlize Theron, Marton Csokas, Sophie Okonedo, Frances McDormand
Duração: 93 minutos

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