Agente 86

09/10/2008 | Categoria: Críticas

Longa atualiza série dos anos 1960, mas honra elementos retrô e realiza mistura convincente de comédia e ação

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Durante dez anos, o projeto de realizar um longa-metragem sobre o saudoso seriado “Agente 86” (1965-1970) foi acalentado em Hollywood por uma série de produtores fãs do programa original. A série cômica, concebida por Mel Brooks como uma sátira aos filmes de 007, era um veículo perfeito para um comediante especialista em humor físico, como Jim Carrey, que esteve ligado à produção durante os primeiros tratamentos de roteiro, por volta de 1998. Demorou uma década para “Agente 86” (Get Smart, EUA, 2008) sair do papel. Sem Carrey, mas com qualidades suficientes para deixar um largo sorriso no rosto, tanto dos fãs do programa sessentista como dos neófitos que nunca ouviram falar em Maxwell Smart.

Nos quase 40 anos que separam o cancelamento da série e o lançamento do longa-metragem, o atrapalhado agente secreto que atende pelo número 86 serviu de modelo para inúmeros personagens cinematográficos, como o Austin Powers de Mike Myers. Como o galante colega inglês, Smart (o próprio nome do personagem, que significa “esperto” em inglês, é uma piada) também dispunha de engenhocas tecnológicas de ponta, como o sapato-fone, mas não tinha a mesma destreza no uso do equipamento. Boa parte dos casos em que trabalhava eram resolvidos pela bela Agente 99, parceira de todas as horas. Quase todos os crimes eram cometidos por vilões ligados à organização criminosa K.A.O.S., maior rival da C.O.N.T.R.O.L., para quem o agente atrapalhado trabalhava. Como na franquia de James Bond, a Guerra Fria servia como pano de fundo da série, que produziu 138 episódios em cinco anos.

Para os antigos fãs da série, a boa notícia é que o diretor Peter Segal (“Tratamento de Choque”), ele mesmo tiete confesso do velho programa, conseguiu a proeza de manter os principais elementos que compunham a série original, garantindo fidelidade ao espírito da criação de Mel Brooks e ao mesmo tempo atualizando-a, sem que o charme retrô se esvaia pelo caminho. É uma proeza e tanto. O clássico sapato-fone, por exemplo, seria teoricamente um objeto obsoleto no século XXI, época em que telefones celulares cabem dentro de um anel. Mas a traquitana eletrônica não apenas está no filme como é apresentada dentro de um contexto em que faz sentido. O mesmo acontece com outras bugigangas, como o “cone do silêncio”, usado para isolar acusticamente os participantes de uma conversa sigilosa (tão sigilosa que nem os próprios participantes conseguem se ouvir).

A história de “Agente 86” apresenta a primeira missão de Maxwell Smart (Steve Carell) como agente secreto. Quando o filme começa, ele é o mais ágil dos analistas de dados dentro da secretíssima C.O.N.T.R.O.L. (“leiam a página 738 do meu relatório diário”), e deseja virar agente de campo, mas tem o pedido recusado. O sonho dele acaba se concretizando depois que a agência sofre um atentado. Ao lado da gatíssima Agente 99 (Anne Hathaway), Smart recebe a missão de impedir que códigos de lançamento de mísseis nucleares sejam negociados com grupos terroristas. A trama é meio confusa, mas na verdade isso não importa muito, já que o roteiro não passa de pretexto para pôr o confuso espião em situações pra lá de bizarras. A qualidade das gags e piadas é bastante variável. Há momentos bem engraçados (o ensaio escrito por ele sobre existencialismo), e outros que rendem apenas risos amarelos (a bagunça no banheiro do avião com o canivete suíço).

O respeito pelos aspectos originais da série é tanto que até mesmo personagens secundários, como o vilão germânico Sigfried (Terence Stamp) e diversos agentes menos importantes da agência, estão perfeitamente integrados à trama. O filme não foge à regra de trazer citações a obras anteriores que o inspiraram, mas escolhe longas-metragens pouco óbvios (“O Homem que Sabia Demais” e “True Lies”), o que é um ponto positivo. O bom roteiro também consegue equilibrar bem os elementos cômicos com a ação física, como ocorre no terceiro ato, em que os agentes precisam perseguir um trem para impedir que uma bomba atômica seja detonada em solo americano. A longa seqüência do clímax insere humor na ação de forma orgânica, despojada, e o filme passa com louvor pelo desafio de não transformar o Agente 86 em um completo imbecil, o que faria a mistura pender para o pastelão e desandar.

Neste último aspecto, é importante ressaltar o excelente trabalho do ator Steve Carell, que atuou também como produtor executivo. Eleito pela imprensa especializada como o sucessor natural de Jim Carrey, pelo tipo de humor físico que pratica, Carell vem superando as expectativas com uma seleção cuidadosa dos filmes em que atua. A química entre ele e a atriz Anne Hathaway também está impecável, o que rende cenas divertidas, como o tango dançado na mansão de um dos vilões. O elenco coadjuvante também se destaca: o musculoso Dwayne Johnson mostra que não precisa ficar confinados aos filmes de ação, e Alan Arkin dá seqüência à boa performance de “Pequena Miss Sunshine”, com um desempenho discreto. Longe de ser perfeita, “Agente 86” é uma comédia superior ao besteirol escatológico que marca a maior parte das produções do gênero nos grandes estúdios.

O DVD nacional, lançado pela Warner, contém o filme com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem galeria de erros de gravação e um pequeno featurette de bastidores. 

– Agente 86 (Get Smart, EUA, 2008)
Direção: Peter Segal
Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin
Duração: 110 minutos

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