Agentes do Destino, Os

12/05/2011 | Categoria: Críticas

Estréia do roteirista George Nolfi na cadeira de diretor transforma mais um conto de Philip K. Dick em filme convencional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Os créditos do misto de drama romântico e ficção científica “Os Agentes do Destino” (The Adjustement Bureau, EUA, 2011) têm potencial para levantar muitas sobrancelhas. Diz lá que o roteiro do longa-metragem estrelado por Matt Damon é baseado em um conto de Philip K. Dick, um dos romancistas norte-americanos mais interessantes e menos convencionais das últimas décadas. Portanto, é com uma nesga de decepção que “Os Agentes do Destino” se revela um filme apenas correto, e absolutamente convencional. Aliás, não deixa de ser curioso – e amargamente irônico – que a obra de um mestre da paranóia e das tramas que envolvem crises de identidade, e que não tem nada de convencional, tenha originado tantos filmes que não ultrapassam a fronteira do interessante, a exemplo de “O Vidente” (2007) e “O Pagamento” (2003).

A realização de estréia de George Nolfi na direção lembra um pouco esses dois filmes, já que lida com temas relacionados ao livre arbítrio e às possibilidade de o ser humano interferir (ou não) no seu próprio futuro. De fato, seria possível descrever a obra como uma mescla de “O Todo Poderoso” (sim, aquela comédia em que Jim Carrey encarna uma espécie de Deus pagão) com o sci-fi “Cidade das Sombras”, de Alex Proyas, somando pitadas de “Asas do Desejo” (Wim Wenders). Não se trata de um filme ruim, longe disso. Mas não há rigorosamente nada em “Os Agentes do Destino” que transforme a experiência do filme em algo superior. Veterano roteirista responsável por roteiros intrincados e divertidos, como “O Ultimato Bourne” e “Doze Homens e Outro Segredo”, Nolfi merecia uma estréia mais impactante na cadeira de diretor.

Aliás, só mesmo a proximidade de Nolfi com o astro Matt Damon explica a presença deste no papel principal: David Norris, um jovem e promissor político nova-iorquino que se apaixona alucinadamente por uma bailarina (Emily Blunt, bem no papel apesar de musculosa demais para alguém de sua profissão) após encontrá-la por acaso no banheiro masculino de um hotel. O filme trabalha a questão do livre arbítrio ao inserir na trama seres misteriosos (anjos?), que se vestem como detetives num antigo film noir (chapéus e sobretudos escuros, uma indumentária evidentemente inspirada pelo filme de Wim Wenders) e possuem o poder de interferir no destino de algumas pessoas comuns, a fim de manter o universo funcionando como havia sido planejado por algum ser superior (Deus?). Esses sujeitos taciturnos fazem de tudo para impedir o romance, mas David Norris não desiste. Até parece um brasileiro: ele não desiste nunca. Aliás, incorpora o espírito tenaz que os americanos vêem como elemento central da psiquê do país, e decide lutar contra os enviados divinos pelo amor da namorada.

Dito assim, o argumento da trama parece o de uma novela mexicana, certo? Pois a verdade é que “Os Agentes do Destino” não está muito longe disso, em que pesem os diálogos envolventes – sobretudo nas cenas em que o político e a bailarina contracenam, já que a química do par central é muito boa – e os efeitos especiais econômicos, mas bem realizados. Estilisticamente, a melhor coisa do filme é a fotografia do veterano John Toll (“Além da Linha Vermelha”), que estabeleceu e cumpriu à risca um plano para sinalizar a evolução narrativa através da estabilidade das imagens: no primeiro ato, quando o destino é firmemente comandado pelos seres celestiais, todas as tomadas são capturadas com o auxílio de tripés, carrinhos e trilhos, e os movimentos de câmera são suaves. À medida em que o filme avança, e as ações de Norris desafiam esse equilíbrio, as tomadas passam gradualmente a serem feitas com câmera na mão, tornando-se trêmulas e imprevisíveis. É um truque conhecido, mas eficaz.

No que se refere à temática, “Os Agentes do Destino” detém certa ambigüidade. O filme questiona o conceito do livre arbítrio, mas esse questionamento parece estar ali para servir a um propósito maior, que é reforçar a idéia – tipicamente oriunda do modelo empresarial americano – de que a persistência sempre premia aqueles que nunca desistem. Talvez por isso, “Os Agentes do Destino” foi relativamente bem nas bilheterias americanas, ultrapassando a marca de US$ 100 milhões, apesar de ter feito carreira tímida fora dos EUA. Afinal de contas, em se tratando de um filme que encapsula tão bem o ponto de vista americano sobre o mundo, não poderia ser muito diferente.

– Os Agentes do Destino (The Adjustement Bureau, EUA, 2011)
Direção: George Nolfi
Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Anthony Mackie, John Slattery
Duração: 106 minutos

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