Água Negra

24/01/2006 | Categoria: Críticas

Walter Salles estréia em Hollywood com filme de horror sem sustos e de forte toque autoral

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A primeira incursão do diretor brasileiro Walter Salles em Hollywood acontece com um projeto surpreendente: um filme de horror. Ainda por cima, refilmagem de um longa-metragem japonês. Não deixa de ser uma surpresa, portanto, que “Água Negra” (Dark Water, EUA, 2005) seja um bom filme, e que possua elementos que denunciam a assinatura do mesmo diretor de “Diários de Motocicleta” e “Central do Brasil”. Nesse sentido, “Água Negra” é uma vitória particular de Walter Salles, já que imprimir uma marca pessoal em um projeto de estúdio é característica de bons cineastas. Por outro lado, o filme não assusta – e isso não é nada bom em se tratando de um filme de horror.

Essa vitória pessoal, no entanto, é relativa, já que “Água Negra” foi recebido com frieza pela crítica norte-americana, tendo também desempenho modesto nas bilheterias (US$ 26 milhões). A maior parte dos comentários negativos afirma que o filme do brasileiro não tem um número suficiente de sustos. Não deixa de ser verdade. Para o público, a eficiência de um filme de terror é mesmo medida pelo número de sustos, e nesse quesito “Água Negra” realmente deixa a desejar. A intenção de Walter Salles, ao assumir o projeto, foi enveredar por outro filão do gênero de horror, bem representado por trabalhos de Roman Polanski, como “O Bebê de Rosemary”, “O Inquilino” e “Repulsa ao Sexo”.

Nesses filmes, Polanski trata o elemento sobrenatural com ambigüidade, sem jamais deixar claro para a audiência se a trama é fruto de fantasmas/demônios ou se tudo não passa de delírio de uma mente perturbada (em todos os casos, os protagonistas são pessoas mantidas sob situação de grande estresse). Nesse sentido, o “Dark Water” original é um ótimo ponto de partida, pois a personagem principal é uma mãe que enfrenta um divórcio traumático e tem um histórico de problemas mentais. Só que, no longa de 2002, Hideo Nakata mostra o fantasma desde o primeiro minuto, acabando com a ambigüidade de imediato e, ao mesmo tempo, criando a possibilidade de incluir vários momentos de tensão – ou seja, muitos sustos.

O tratamento dado por Walter Salles à história – ou seja, a opção por sugerir, mais do que mostrar – implica, necessariamente, em esconder do público a verdadeira causa das situações vividas pela mãe em crise. Isso significou retardar a aparição do elemento sobrenatural até o último instante. Como conseqüência, menos sustos – e mais pessoas descontentes com o resultado final. Isso se refletiu na bilheteria magra e na grande quantidade de críticas negativas, o que não significa que “Água Negra” seja um filme ruim.

Para começar, o grande respeito que Salles usufrui nos EUA lhe permitiu reunir um elenco de peso, poucas vezes visto em um filme de horror: Jennifer Connelly, John C. Reilly, Tim Roth, Pete Postlethwaite e Dougray Scott. Todos estão muito bem, embora o grande destaque seja mesmo a garotinha Ariel Gade, revelação que confirma o talento do cineasta brasileiro na condução de atores mirins (não custa lembrar o grande desempenho do ex-engraxate Vinicius de Oliveira em “Central do Brasil”). Ariel tem um sorriso cativante e consegue uma química impecável com Jennifer Connelly. A atriz, por sua vez, acrescenta mais uma mulher lacrimosa à galeria de personagens sofridos, tipo que ela sabe fazer muito bem e que ressalta sua beleza incomum.

A trama se passa na periferia de Nova York, mais precisamente numa ilhota, Roosevelt Island. As imagens panorâmicas do lugar revelam um fascinante complexo de prédios cinzentos que funcionam como cenário perfeito para a melancólica história de Dahlia (Connelly) e Ceci (Gade). Mãe e filha estão de mudança para NY devido a um divórcio recente. Desempregada e sem dinheiro, Dahlia é obrigada a alugar um apartamento num prédio caindo aos pedaços. O prédio tem um sinistro zelador (Postlethwaite) que parece só trabalhar quando pressionado pelo administrador (Reilly) responsável pelos aluguéis do lugar.

Dahlia sofre com pesadelos recorrentes que envolvem a mãe alcoólatra e ausente, e também com um insistente vazamento no quarto. Os barulhos que vêm do apartamento acima só contribuem para piorar as coisas. Para completar, a professora da nova escola de Ceci lhe informa que a garota tem conversado com uma amiga imaginária, detalhe que o marido (Scott) quer aproveitar para alegar judicialmente que a ex-mulher sofre de instabilidade mental, o que lhe permitiria adquirir a guarda permanente de Ceci. A situação é território fértil para Walter Salles construir, sem pressa, um muro invisível de tensão e angústia em volta de Dahlia.

Visualmente, Salles representa essa situação abusando dos enquadramentos fechados, entre o close (rosto) e o plano americano (da cintura para cima). Essas tomadas, utilizadas nos EUA normalmente como transição entre panorâmicas (paisagens) e closes, causam na platéia a mesma sensação claustrofóbica, sufocante, que é vivida na tela pela personagem de Connelly. Além disso, a fotografia do também brasileiro Afonso Beatto capricha nas tonalidades amarelas e verdes, dando à película um tom de decadência, de melancolia. Por fim, em Roosevelt Island está sempre chovendo, o que ecoa a situação dentro do apartamento de Dahlia – lá também chove, certo? Tudo isso acentua bastante o isolamento dos personagens, detalhe que é a verdadeira chave para compreender o toque autoral de Walter Salles no filme.

Sim, pois o diretor brasileiro faz algo raro nas produções de estúdio: abre um espaço generoso para o desenvolvimento dos personagens coadjuvantes. E todos eles compartilham, em maior ou menor grau, do isolamento vivido por Dahlia. Perceba, por exemplo, que o advogado Jeff Platzer (Tim Roth) nunca é mostrado no escritório. Ele está sempre no carro, ou na rua; sempre em movimento. Platzer e Dahlia se encontram pela primeira vez num domingo à tarde, dia e horário incomuns para reuniões jurídicas. Conversam no carro mesmo. Além disso, por duas vezes o advogado mente à mulher sobre ter que ir embora, ou desligar o telefone, por causa de compromissos familiares, quando na verdade isso é mera desculpa para esconder a própria solidão. Ele não tem família. Está sempre sozinho.

Da mesma forma, o administrador interpretado por John C. Reilly – que tem um escritório, mas bagunçado, típico de homem solteiro – também é mostrando mentindo para Dahlia, quando ela liga para ele numa noite. Sozinho em um bar, ele afirma estar tendo uma “reunião de negócios”. O que tudo isso quer dizer? Que os personagens secundários também são solitários, e reverberam a situação da protagonista. Nesse sentido, é possível dizer que “Água Negra” é, de fato, um drama sobre a solidão da cidade grande, e o tema disfarçado do filme é a ruptura da família, tópico que Walter Salles já havia abordado antes, ainda que de forma oblíqua ou com outros pontos de vista, em “Abril Despedaçado”, e mesmo em “Central do Brasil”.

Se tudo isso é muito positivo, por outro lado o cineasta foi claramente vítima da pressão do estúdio. Para começar, a ambigüidade no tratamento da história de fantasma é sabotado pela publicidade do filme, que entrega desde o primeiro momento o caráter sobrenatural do enredo. Portanto, não adianta Salles retardar ao máximo ao aparecimento do fantasma, porque todos já sabemos que ele vai aparecer, mais cedo ou mais tarde. Essa espera torna “Água Negra” lento, muito lento para os padrões dos filmes de horror norte-americanos. E, pior ainda, sem atmosfera assustadora, o que enfraquece o filme enquanto exemplar de gênero.

Quando o diretor admite que foi obrigado a efetuar mudanças no terceiro ato do filme, está apenas confirmando um dado que o próprio ritmo da película denuncia. Na meia hora final, qualquer traço de ambigüidade que Salles porventura pretendesse se esvai, e a produção vira um clássico filme de fantasmas, mais convencional, histérico e acelerado. Ainda assim, o corajoso e melancólico final – mais bem resolvido inclusive do que o longa original – coloca “Água Negra” um degrau acima dos previsíveis longas de horror que Hollywood faz aos borbotões.

O DVD nacional é da Buena Vista e contém o filme, com enquadramento original (wide anamórfico) e opções de áudio em inglês e português (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, galeria de cenas inéditas, um making of e dois featurettes (um sobre o elenco e outro analisando uma cena específica da produção).

– Água Negra (Dark Water, EUA, 2005)
Direção: Walter Salles
Elenco: Jennifer Connelly, Ariel Gade, Dougray Scott, John C. Reilly, Tim Roth
Duração: 111 minutos

| Mais


Deixar comentário