A.I. – Inteligência Artificial

26/07/2004 | Categoria: Críticas

Influência de Stanley Kubrick leva Spielberg a cometer filme contido, cerebral e visualmente rico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O último filme de Steven Spielberg começou a carreira nas telas como um dos mais badalados de 2001. Depois, tornou-se um dos mais polêmicos: saiu de cartaz como fracasso de público e rachou a crítica ao meio. O grande problema, na verdade, foi gerado pelo marketing elaborado para o filme, que estabeleceu ligações severas entre a película e o trabalho de Stanley Kubrick — todos sabem que o autor de “Barry Lyndon” acalentou a idéia de filmar o enredo e desenvolveu todo o projeto de 1969 a 1999, quando morreu. Essa dupla assinatura provou-se uma idéia um tanto quanto abstrata. Assim, muita gente saiu do cinema decepcionado. Esperava-se um filme cerebral, sombrio, e assistiu-se a uma obra complexa e até mesmo engajada, mas no melhor estilo Spielberg. Uma espécie de fábula com mensagem metafísica.

Visto em DVD, “A.I. – Inteligência Artificial” oferece uma possibilidade real de reavaliação. Deslocado em alguns meses do contexto emocional gerado pela proximidade da morte de Kubrick e pela expectativa da parceria, o filme mostra-se uma experiência cinematográfica bastante singular. É necessário dizer que a visão dos bastidores oferecida no excelente DVD (duplo) permite ao espectador avaliar o projeto de ângulos diferentes. Fãs de Kubrick, por exemplo, passam a ter acesso ao projeto no estado em que o autor de “Laranja Mecânica” o havia deixado, e podem finalmente comparar o resultado final obtido por Spielberg às idéias originais.

Isso posto, é bom destacar que “A.I.” tem perfil de filme-marco. Em outras palavras, é uma dessas obras que, goste-se dela ou não, continuará a servir de parâmetro, de referencial futuro. Até porque é o primeiro trabalho cinematográfico a discutir explicitamente um dilema científico-filosófico importantíssimo, crucial mesmo, que tende a ganhar espaço e interesse muito maiores nos próximos anos: a existência de robôs — seres artificiais — capazes de conviver e interagir com humanos no cotidiano. O filme dialoga com as implicações éticas, filosóficas e científicas dessa co-existência.

O primeiro ponto a ressaltar é que Steven Spielberg reafirma, mais uma vez, o completo domínio da técnica cinematográfica. O ritmo do filme está perfeito e a trama corre paralela à abordagem metafísica da temática, sem que um se sobreponha ao outro. A conexão entre os três momentos que compõem o enredo é feita de forma natural, embora enfática. Eles são demarcados de forma clara. Há, claro, muitos efeitos visuais e tecnologia de ponta, mas tudo perfeitamente integrado à narrativa — tanto que, às vezes, fica até difícil perceber onde há computador. Ponto para o cineasta, que dirige o filme com mão firme e não o deixa escorregar para o exibicionismo técnico. “A.I.” é um caso raro em que o conteúdo é claramente mais importante do que a técnica.

Os três atos que constituem o filme são abertos por um prólogo que contextualiza o assunto e enfatiza o debate ético pretendido pelo diretor. Numa Terra em que o efeito estufa derreteu as calotas polares e fez todas as cidades costeiras desaparecerem, a humanidade estabeleceu um severo controle de natalidade para evitar a superpopulação, enquanto a tecnologia alcança níveis inusitados. Durante uma aula, um professor (William Hurt) propõe para os alunos a criação de um robô que seja capaz de “desenvolver um mundo interior de metáforas”, de sonhar, de amar. Uma aluna devolve a pergunta, avaliando que fazer uma máquina que ame é possível – difícil seria ensinar o homem a amá-la de volta.

Introduzida a questão, somos apresentados ao casal Monica (Frances O’Connor) e Henry (Sam Robards) Swinton, cujo filho desenvolveu uma doença rara há cinco anos e permanece congelado, à espera da cura. Para abrandar a solidão da esposa, Henry aceita ser cobaia de uma experiência da firma em que trabalha e leva para casa um robô de última geração. David (Haley Joel Osment) pode ser o primeiro ser artificial a amar. A reação inicial é conflituosa, mas logo se estabelece um laço mãe-filho entre ele o Monica. Essa ligação, porém, vai ser quebrada assim que Martin (Jake Thomas) retorne ao lar, finalmente curado. Aí, o robô acaba largado num bosque, acompanhado apenas do urso de pelúcia falante Teddy. A analogia deste com o Grilo Falante de Pinóquio é explícita.

A aparição do andróide-amante Gigolo Joe (Jude Law) marca o início da segunda parte do filme. Fugitivo, Joe procura refúgio na tal floresta, lar dos robôs abandonados, e encontra David. A dupla segue então numa jornada surreal em busca da Fada Azul de Pinóquio, conto que David ouvira da mãe. O robozinho acredita que o ser místico poderia transformá-lo num menino de carne e osso, e que isso o faria ser amado novamente. As aventuras levam os andróides até uma metrópole futurista, Rouge City, e depois à Nova York inundada do futuro (com World Trade Center e tudo), onde vai se passar a terceira parte de Inteligência Artificial. Há ainda um polêmico epílogo, que parece mesmo um segundo final e foi alvo de críticas pesadas.

É uma pena, aliás, que a maioria das pessoas pareça não ter compreendido aonde Spielberg desejava chegar no fim do filme. Sem querer revelar demais para quem não viu ainda a obra, basta dizer que o pequeno robô é obrigado a fazer uma escolha extremamente difícil para qualquer um. Nesse momento, ao invés de usar o privilegiado cérebro-calculadora para fazer contas e tomar uma certa decisão, ele prefere estimular as memórias e escolhe diferente – como um ser humano faria, deixando escapar até mesmo uma lágrima discreta. Piegas? Pode ser. Mas você conhece algum robô que consegue derramar uma lágrima? Ah, pode ser falha de roteiro? Acho que não. Aliás, aposto que não. Alugue o DVD novamente e confira sozinho.

É o seguinte: cercado pela mesma equipe que o acompanha há anos, Spielberg faz um trabalho estético sóbrio e coerente com sua própria trajetória. A direção de arte é elegante enquanto o filme se mantém no interior da casa dos Swinton, torna-se sombria durante os aterrorizantes passeios pela floresta, e berrante quando os andróides entram em Rouge City. A música de John Williams, sem inspiração, acentua os trechos emocionais com arranjos que enfatizam a melancolia do piano acústico, e usa a eletrônica nas passagem mais cibernéticas.

O espetáculo visual é orquestrado com cuidado por Spielberg. A observação cuidadosa desse aspecto do filme é, aliás, um dos trunfos do DVD. O disco duplo pode ser considerado tranqüilamente como um dos lançamentos mais completos já vistos no Brasil. Ele tem as imagens originais sem cortes nas laterais (widescreen), som em inglês com tecnologia de ponta (Dolby 5.1 EX), quase duas horas de documentários com legendas em português e um largo acervo de arquivos relativos ao filme, incluindo fotos, desenhos e storyboards de todos os estágios da produção. Para ganhar nota 10 com louvor, faltou somente uma trilha de áudio em português, para os que desejam ver o filme dublado.

Uma das grandes vantagens do conteúdo extra do DVD de “A.I.” é poder assistir à construção, seja física ou virtual, do mundo imaginado pelo ilustrador Chris Baker. Ele foi o homem contratado por Stanley Kubrick, na década de 1990, para desenvolver visualmente a história. Nesse ponto reside uma constatação importante: ao contrário do que muita gente imagina, Spielberg tratou mesmo o projeto com uma fidelidade canina, do primeiro ao último minuto da obra. Vendo o mini-documentário dedicado a Baker e checando os desenhos que ele fez na galeria de arquivos no fim do DVD, por exemplo, é possível perceber que o polêmico epílogo, que muitos enxergaram como uma espécie de justaposição da visão de Spielberg sobre o enredo de Kubrick, já tinha sido imaginado e definido pelo recluso criador de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”.

A concepção do DVD é outro ponto positivo do lançamento. O documentarista francês Laurent Bouzereau, reconhecido como o maior nome do ramo em Hollywood e responsável pela cobertura dos bastidores, foi além de simplesmente produzir um making of da obra. Ele dividiu as filmagens em dezesseis mini-documentários temáticos (os chamados featurettes), que totalizam 102 minutos. Assim, o espectador pode ir direto aos tópicos que lhe interessam. Ganham destaque os quatro featurettes que enfocam a criação dos efeitos visuais e um outro que mostra como o ator-mirim Haley Joel Osment compôs o menino-robô. As entrevistas com Haley são de cair o queixo: articulado, o guri explica como foi difícil filmar todas as cenas sem piscar uma única vez e deixa a impressão de ser um adulto num corpo de criança. Seria um robô de verdade?

– A.I. – Inteligência Artificial (A.I., EUA, 2001)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Haley Joel Osment, Jude Law, Frances O‘Connor.
Duração: 143 minutos

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