Ainda Muito Loucos

23/11/2004 | Categoria: Críticas

Musical inglês revê cena glam dos anos 1970 com bom humor e ótima música

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Existem filmes que não são exatamente geniais, muito menos originais, mas cativam, são tocantes e emocionam. “Ainda Muito Loucos” (Still Crazy, 1998), uma comédia inglesa desconhecida, é assim. Por ser um longa-metragem que acompanha as aventuras de uma banda em turnê, muita gente o comparou ao primo-irmão americano “Quase Famosos”, de Cameron Crowe, que é jóia. Mas “Ainda Muito Loucos” é melhor ainda. É mais engraçado, mais dinâmico, mais espontâneo, é nostálgico sem ser ultrapassado, tem música original de boa qualidade, um roteiro OK, cheio de ótimas piadas, e até uma surpresa, no final, capaz de fazer muito marmanjo ir às lágrimas.

O projeto do diretor Brian Gibson é, na verdade, uma pérola construída com simplicidade absoluta. O diretor se cercou de pessoas familiarizadas com a música pop para tecer um retrato nostálgico e bem-humorado da cena hard rock/glam dos anos 1970, mas sem perder a atualidade. Dick Clement e Ian La Fresnais, responsáveis pelo roteiro do excelente “The Commitments” (de Alan Parker), voltam a escrever sobre uma banda tentando resolver problemas internos e alcançar o estrelato. E o guitarrista Mick Jones, ex-integrante do grupo Foreigner, famoso há 30 anos, compôs as músicas inéditas que fazem parte da trilha sonora. Daí o feeling de autenticidade que emana do filme.

É claro que a banda Strange Fruit, apresentada no filme como uma das grandes expoentes do hard rock em meados dos anos 1970, nunca existiu. Mas foi minuciosamente construída pelos roteiristas como um amálgama de todos os clichês do estilo. Sua alma era um guitarrista genial e drogado, Brian Lovell (Bruce Robinson), que vivia acompanhado de uma namorada-groupie, Karen Knowles (Juliet Aubrey). Tinha um vocalista ególatra e chiliquento, Ray Simms (Bill Nighy), que vivia às turras com o baixista, Les Wickes (Jimmy Nail). O resto da gangue era formada por um baterista irresponsável, Beano (Thimoty Spall); um tecladista romântico e secretamente apaixonado por Karen, Tony Costello (Stephen Rea); e um misto de diretor de turnê e roadie, Hughie (Billy Connolly).

A banda havia se separado no auge, por causa de divergências internas, e cada um havia seguido seu caminho. Em 1997, Tony, agora um vendedor de camisinhas, resolve que talvez seja hora de uma reunião. Ele encontra Karen e a convida para reunir a turma. E eles, ou quase todos eles (o paradeiro de Brian permanece um mistério), embarcam em uma turnê européia por bares de terceira categoria. Como boa parte dos envolvidos no projeto compreende bem o mundo da música, o filme simplesmente funciona às mil maravilhas: as noites enfadonhas no ônibus da turnê, as discussões, as recaídas na bebida, as pequenas depressões, tudo temperado pela chegada da idade, rendem um roteiro redondo e ágil, sem falhas, que culmina com excelentes cenas de palco vitaminadas por um repertório original e consistente.

O elenco de “Ainda Muito Loucos” é o maior destaque do projeto. Bill Nighy rouba a cena sempre que está na frente da câmera; no papel do vocalista egocêntrico e natureba que é dominado pela deusa loira sueca com quem casou, ele concentra a maior parte das boas cenas de humor. Em certo momento, tem um encontro com um entregador de pizzas que talvez seja a piada mais bem contada em um filme de 1998 – e isso é um elogio e tanto. Stephen Rea e Juliet Aubrey protagonizam as seqüências românticas, mas é um romantismo maduro, pé no chão e até um pouco doloroso, algo que o filme trabalha com perícia.

Para completar o pacote, há o repertório de Mick Jones, com músicas inéditas que seguem o padrão hard rock dos anos 1970 com fidelidade: canções simples, de acordes básicos e refrões grudentos. “All Over The World” rende quase uma enorme seqüência estilo videoclipe no meio do filme, totalmente encaixada na trama, e a balada “The Flame Still Burns” arremata o filme com um final perfeito e emocionante. Não seja covarde, pode enxugar aquela lágrima teimosa, sem medo de ser feliz. Filmes simples que emocionam, como “Ainda Muito Loucos”, são artigos raros no século XXI.

A Columbia lançou o DVD do filme inglês no Brasil em 1999, sem alarde. O disco possui o corte original widescreen e uma trilha de áudio Dolby Digital 5.1 (muito importante, já que se trata de um filme cuja música tem papel de destaque). Há também um pequeno featurette sobre os bastidores, mas é bem curto (5 minutos) e superficial, e nem tem legendas. Vale pelo filme.

– Ainda Muito Loucos (Still Crazy, 1998)
Direção: Brian Gibson
Elenco: Bill Nighy, Stephen Rea, Timothy Spall, Juliet Aubrey
Duração: 95 minutos

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