Ajuste Final

14/03/2008 | Categoria: Críticas

Primeiro filme de época dos irmãos Coen foge do paradigma estético estabelecida por Coppola e conta história cheia de meandros

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Terceiro trabalho dos diretores e roteiristas Joel e Ethan Coen, “Ajuste Final” (Miller’s Crossing, EUA, 1990) é também o primeiro filme em que a dupla se aventurou na seara do filme de época. Embora toda a obra dos Coen (tanto pregressa quanto futura) seja pontilhada por influências do film noir, o longa-metragem feito em 1990 foi o primeiro em que eles realizaram um exemplar genuíno, ainda que tardio, do gênero. Marcado por uma trama repleta de pequenas reviravoltas, de grande ambigüidade moral, “Ajuste Final” possui o corajoso trunfo de se afastar do paradigma estético dos filmes de gângsteres, estabelecido alguns anos antes pelos dois primeiros exemplares da trilogia “O Poderoso Chefão”.

Contando com o futuro diretor Barry Sonnenfeld (“Homens de Preto”) como fotógrafo, Joel e Ethan Coen ousaram produzir um noir límpido e colorido. Embora não recuse as características visuais do gênero (uso de sobretudos e chapéus escuros, cenas noturnas, bebida e cigarros à vontade), o filme não tenta alcançar a textura escura e sombria que normalmente se vê nos trabalhos ambientados na época da Lei Seca (anos 1930 nos Estados Unidos). Sonnenfeld prefere utilizar cores brilhantes e suavizar as sombras, utilizando muito menos o recurso do contraluz do que as mais clássicas películas do gênero. O resultado é uma espécie de noir moderno, feito ao ar livre, que respira.

Afastar-se do padrão visual ditado por “O Poderoso Chefão” é uma característica que demarca claramente a veia autoral dos irmãos Coen. Curiosamente, Joel e Ethan sofreram para concluir o roteiro deste longa. Após meses trabalhando em cima de vários romances de Dashiel Hammett, sem encontrar um fio narrativo consistente, os dois interromperam os escritos e mudaram de projeto, escrevendo a primeira versão de “Barton Fink” em apenas três semanas. Graças a esta paradinha providencial, Joel e Ethan foram capazes de ganhar fôlego e finalizar a intrincada trama de “Ajuste Final”, um filme povoado por personagens ambíguos e moralmente decadentes, e que nunca são exatamente aquilo que parecem ser.

O personagem principal é o gângster Tom Reagan (Gabriel Byrne), braço direito do chefão do tráfico de bebidas de Nova Orleans (a cidade, contudo, jamais é mencionada no filme). Meio sem querer, Tom se vê de repente no meio de uma disputa violenta, de proporções colossais, entre seu superior hierárquico e outro gângster poderoso (Jon Polito). Endividado, ele precisa flertar com os dois lados para ter alguma chance de escapar da confusão com vida, e se possível de bolso cheio. Calmo e confiante, ele até poderia se sair bem com relativa facilidade, se não tivesse se apaixonado justamente pela garota (Marcia Gay Hayden) com quem o patrão, a quem respeita de verdade, tem um caso tórrido.

Trata-se de uma típica trama noir, cheias de guinadas inesperadas e momentos de grande violência, em que os personagens revelam aos poucos os traços obscuros do caráter de cada um. Há, por exemplo, um grande mistério a respeito da morte de determinado personagem – tanto Tom Reagan quanto a platéia sabe que existe um cadáver, mas não se sabe exatamente quem morreu, quem matou, e como aconteceu. Como nos melhores noir, os atores se divertem com atuações no limite do exagero (observe o desempenho de John Turturro, que buscou inspiração nos trejeitos de Sonnenfeld) e com diálogos repletos de duplo sentido, e o herói é o único sujeito em toda a cidade que consegue preservar certa moralidade. Não é o melhor trabalho dos irmãos Coen, mas merece muito respeito por ter tido a coragem de entregar uma visão nova e refrescante para um gênero em que novidade nunca foi uma virtude.

O DVD da Fox, simples, tem boa qualidade. A imagem preserva o enquadramento original (widescreen 1.85:1 anamórfico), o áudio é razoável (Dolby Digital 4.0) e há, como extras, uma longa entrevista com o diretor de fotografia Barry Sonnenfeld (20 minutos) e trechos de entrevistas com os atores Gabriel Byrne, Marcia Gay Hayden e John Turturro (10 minutos).

– Ajuste Final (Miller’s Crossing, EUA, 1990)
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco:Gabriel Byrne, Albert Finney, Marcia Gay Hayden, John Turturro
Duração: 115 minutos

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