Albergue Espanhol

17/05/2004 | Categoria: Críticas

Linguagem pop e ótimo roteiro marcam comédia jovem e globalizada do francês Cédric Klapish

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Albergue Espanhol” (L’Auberge Espagnole, França/Espanha, 2002) é um filme para platéias jovens. Pessoas entre 20 e 30 anos, especialmente se já tiverem morado ou viajado por longos períodos em países europeus, podem ter com esse filme um pequeno caso de amor, pois vão vivenciar situações extremamente familiares. Se eu o tivesse visto há quatro ou cinco anos, talvez o filme pulasse imediatamente para meu Top 10 particular. Não é o caso, mas de qualquer modo, a comédia de Cédric Klapisch é muito gostosa, despretensiosa e assumidamente pop.

De alguma forma, “Albergue Espanhol” pertence ao mesmo filão de “Procura-se Amy”, o elogiado terceiro filme de Kevin Smith. É um filme sobre a busca da identidade, algo que os jovens de hoje têm grande dificuldade de encontrar. Possui, também, o mesmo tom agridoce, retratando nostalgicamente um período belo da vida do protagonista, mas terminando de forma melancólica, com um nó na garganta. É uma comédia honesta sobre a vida, e nela também se sofre.

O protagonista é Xavier (Romain Duris), um jovem francês que ganha a promessa de conseguir um emprego na Comunidade Européia, se fizer uma pós-graduação em Economia Espanhola. Para cumprir bem essa etapa de estudos, ele se muda para Barcelona, deixando a família e a namorada Martine (Audrey Tatou, de “Amèlie Poulain”). Sem dinheiro, Xavier fica hospedado na casa de um jovem casal que conheceu no avião, e posteriormente se muda para o albergue espanhol do título.

No Brasil, a gente conhece isso como “república”. São apartamentos alugados por estudantes universitários que dividem os custos para poder sobreviver. O diferencial é que, no caso, a “república” de Xavier é uma babel. Ele mora com seis outros estudantes, todos de países diferentes. O cineasta Cédric Klapisch aproveita muito bem essa situação, explorando o choque de culturas de forma muito coesa. Há diálogos no filme em inglês, francês, espanhol, catalão e dinamarquês, e tudo isso soa muito natural.

A linguagem do cineasta é solta e leve, mas o roteiro tem um fio condutor bastante firme. Embora todos os personagens tenham características próprias bem definidas (a garota inglesa é maníaca por limpeza), o filme jamais esquece que possui um único narrador. Por isso, não faz mergulhos em cada personagem. Xavier aparece em quase todas as cenas, e são as transformações dele que o filme procura retratar, conseguindo-o de forma muito inteligente.

Assim, o rapaz inseguro do princípio vai lentamente se aclimatando às novas culturas que passa a experimentar. Klapisch utiliza um recurso interessante, incluindo na trama um personagem que julga os demais pelos estereótipos comuns (alemães são organizados, franceses são arrogantes). Os habitantes do albergue, contudo, jamais se encaixam nessas definições estereotipadas – a não ser fisicamente, um detalhe que o diretor não conseguiu driblar.

Algumas conversas que os estudantes travam, no começo do filme, dão uma boa pista para esse olhar, antes curioso do que investigador, a respeito da cultura européia contemporânea. Os jovens falam de identidades (tema central da obra, como já apontei), explorando a idéia de que uma pessoa não possui mais uma única delas, mas várias, utilizando aquela que mais se ajusta a cada situação. Nesse sentido, dá para perceber a tese de Klapisch: os jovens, independentemente da nacionalidade ou da língua, compartilham uma identidade. O cineasta parece afirmar que os laços etários de identidade são mais fortes do que os laços geográficos. Numa região fortemente marcada pela idéia de união, estabelecida pela Comunidade Européia (algo que o filme celebra efusivamente), essa tese ganha ainda mais força.

Toda essa discussão, contudo, aparece às margens do filme. A trama, muito bem idealizada, ilustra de forma muito clara os pequenos dilemas que vão confrontando Xavier, como os inevitáveis interesses amorosos provocados pela carência afetiva e, paralelamente, o desgaste da relação com as pessoas que ficaram “em casa”, em Paris. Na relação com os demais estudantes do albergue, o filme concentra um poder cômico esfuziante. Há várias cenas realmente engraçadas e envolventes.

Em termos de linguagem cinematográfica, o longa-metragem ajusta-se perfeitamente ao público que pretende atingir: jovens descolados, globalizados, na faixa dos 25 anos. Cédric Klapisch abusa de recursos visuais (imagem acelerada, várias imagens simultâneas na mesma tela) e seleciona uma canção-ícone do período, a bela “No Surprises” (Radiohead), como trilha sonora desse momento da vida de Xavier. Não é um filme para mudar o mundo, mas é um excelente exemplo de cinema jovem sem ser indigente.

– Albergue Espanhol (L’Auberge Espagnole, França/Espanha, 2002)
Direção: Cédric Klapisch
Elenco: Romain Duris, Judith Godrèche, Audrey Tautou, Cécile De France, Kelly Reilly
Duração: 129 minutos

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