Albergue, O

16/10/2007 | Categoria: Críticas

Espetáculo dantesco de sadismo construído em torno de três longas, realistas e incômodas cenas de tortura

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Via de regra, a melhor maneira de criticar um filme é verificando, através de uma análise minuciosa, se o autor – quase sempre o diretor – conseguiu atingir o objetivo a que se propunha quando elaborou o projeto. Partindo desta premissa, “O Albergue” (Hostel, EUA, 2005) deveria ser considerado um bom filme, porque o diretor e roteirista Eli Roth não faz segredo quanto ao que queria mostrar na tela. Ele deseja capturar reações fisiológicas extremamente realistas de seres humanos que sofrem tortura. Isso é feito, sim, e com tremenda perícia, o que torna “O Albergue” um filme perturbador. Mas a pergunta que fica depois que o filme termina é: para quê isso?

Em linhas gerais, a produção de US$ 4,5 milhões pode ser descrita como um espetáculo dantesco de sadismo, vide o imenso cuidado e prazer com que Eli Roth filma as cenas de tortura. Há pelo menos três longos momentos com elas no filme, todos calculadamente editados para fazer a platéia se espremer nas cadeiras, soltar risos nervosos ou, no caso dos mais sensíveis, simplesmente fechar os olhos ou sair da sala. A tortura entra no filme não como um elemento da narrativa importante para o desenvolvimento da ação dramática, mas como ponto culminante de um enredo construído em torno desses momentos, com o singelo objetivo de mostrá-los. Só isso.

A história em si é interessante e lembra bastante outro pequeno thriller independente da mesma safra de 2005, o australiano “Wolf Creek”. De fato, a sinopse é exatamente a mesma: três mochileiros viajando por uma região à margem dos roteiros turísticos oficiais caem em uma armadilha da qual dificilmente sairão vivos. A maneira de filmar é que diferencia as duas produções. “Wolf Creek” constrói os personagens com mais detalhes e paciência, administra melhor a atmosfera de tensão crescente e isso, no fim das contas, torna a história mais verossímil. “O Albergue”, ao contrário, investe o tempo todo em estereótipos e jamais convence o espectador de que tudo aquilo poderia acontecer de verdade. Além disso, se olhado nas entrelinhas, mostra de modo inquietante como os americanos se sentem culturalmente isolados e desprotegidos em qualquer outro lugar do mundo que não seja a própria casa.

Para o filme de Eli Roth, sobraram acusações de xenofobia, o que não é bem o caso. O problema do diretor e roteiristas está na insistência de usar estereótipos para contar a história. O Leste Europeu, no caso, surge como um lugar funesto, decrépito, com paisagens arquitetonicamente interessantes mas caindo aos pedaços. Seus habitantes, sem qualquer exceção, demonstram total desprezo pela vida humana, e incluem uma gangue de crianças pagas com um saco de chicletes para promover uma carnificina. É um retrato racista e incômodo, mas o diretor consegue se safar porque uma rápida análise dos personagens norte-americanos demonstra que, mesmo ao olhar os conterrâneos, Eli Roth não soube se safar dos estereótipos.

Vejamos: Paxton (Jay Hernandez) e Josh (Derek Richardson) são dois rapazes desmiolados, cujos interesses na vida de resumem a sexo e drogas, não necessariamente nesta ordem. A impressão que passam é de dois homens conscientes de estarem no limiar da idade adulta, e que pretendem tomar (e fumar) todas antes de assumir as responsabilidades inerentes a essa nova fase da vida. Em resumo, são dois babacas. Surpreende bastante que um deles tenha um nível de cultura geral bem maior do que a média, inclusive falando alemão fluente. Mais adiante, acabamos descobrindo que este é um detalhe que possui função dramática importante no roteiro, mas que não bate de forma alguma com a personalidade do rapaz – maníacos por maconha e bunda não estudam línguas estrangeiras com afinco. Seria até passável, se ele tivesse ascendência germânica. Só que o cara é um chicano. Dãã!

É esclarecedor, aliás, que os dois americanos tenham saído de perto de casa para vagabundar, como se não pudessem fazer isso no próprio quintal. Amsterdã, no caso, é retratada de acordo com os estereótipos: um lugar cheio de prostitutas e maconha. Na mentalidade de Eli Roth, a Europa é parece uma espécie de penico do mundo, onde a civilização ainda não chegou, e para onde os norte-americanos se dirigem quando estão com vontade de fazer aquilo que as pessoas costumam fazer no banheiro. Além disso, em tempos de atentados terroristas, nada parece mais inseguro para um norte-americano do que estar fora de casa, longe da barra da saia da mamãe, algo que a reação dos personagens quando a barra começa a pesar deixa muito claro.

A trama é assim: em certo momento da farra que nunca termina, a dupla conhece outro mochileiro e recebe a dica de que existe um albergue, nos arredores da capital da Eslováquia, onde as garotas transam adoidado com qualquer americano que apareça. Os dois não demoram a decidir checar o lugar. Fazem isso acompanhado de um colega islandês (Eythor Gudjonsson), cujo retrato abilolado é outra comprovação da indigência mental do roteiro. Ocorre que o islandês é mais velho, tem uma filha, e quando descobrem isso os dois americanos não conseguem conter o ar de espanto (e reprovação) pelo comportamento inadequado de alguém que já deveria ter virado homem. Parece que, para Eli Roth, ficar chapado deveria ser privilégio de quem tem menos de 30 anos.

Tudo isso posto, vale ressaltar que “O Albergue” tem qualidades. A seqüência de abertura, por exemplo, é um excelente exemplo do quanto o filme, se tivesse personagens mais bem desenvolvidos, poderia ter rendido um bom thriller. As cenas mostram um sujeito lavando uma sala repleta de sangue (bem realista, vermelho-escuro e pegajoso, e não aquele sangue de festim, vermelho brilhante, que Hollywood costuma usar) e instrumentos de tortura, enquanto assobia uma melodia sinistra. Outra boa sacada é o uso de humor negro – que alguns podem achar inadequado – em cenas pesadas, como o momento em que uma mão decepada emperra um carrinho cheio de cadáveres dentro de um elevador. “O Albergue” é uma premissa curiosa desperdiçada por idéias estereotipadas.

O DVD da Sony tem excelente qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1). Também conta com quatro comentários em áudio que reúnem diretor e membros da equipe, e um making of. Existe ainda uma edição de luxo, com um segundo disco, que inclui entrevistas longas com Eli Roth e com o diretor japonês Takashi Miike (que faz participação especial em uma cena), mais galeria de cenas cortadas.

– O Albergue (Hostel, EUA, 2005)
Direção: Eli Roth
Elenco: Jay Hernandez , Derek Richardson, Eythor Gudjonsson, Barbara Nadeljakova
Duração: 95 minutos

| Mais
Tags:


Deixar comentário