Albergue – Parte 2, O

13/12/2007 | Categoria: Críticas

Eli Roth troca o sexo dos protagonistas e praticamente refaz o primeiro filme, com muito sadismo e ultra-violência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

O primeiro filme da franquia criada pelo sanguinolento cineasta Eli Roth fez muito sucesso, apesar do espetáculo dantesco de sadismo e ultra-violência, associado a uma visão de mundo reacionária e americano-centrista. A boa recepção fez com que Roth fosse instado pelos produtores a dar criar uma continuação, o que fez sem cerimônia – e nem criatividade. “O Albergue – Parte 2” (Hostel Part II, EUA, 2007) conta praticamente a mesma história do primeiro filme, trocando apenas o sexo do trio de protagonistas e pequenos detalhes secundários. Ou seja, é um filme que tem tudo para agradar quem curtiu “O Albergue” original, e portanto deve ser evitado a todo custo por aqueles que não gostaram do outro longa-metragem.

Dois detalhes principais são responsáveis pela baixa qualidade da produção. O primeiro reside na insistência com que Roth estrutura toda a narrativa em torno das longas cenas de tortura, as mesmas que fizeram a delícia dos fãs do gore no título original. O sucesso alcançado comprova que existe, sim, um público numeroso que gosta de ver seres humanos amarrados, completamente indefesos, serem mutilados por outros – e Roth sacia a sede de sangue desse pessoal com seqüências longas e excruciantes, verdadeiros banhos de sangue (um deles literal) com riqueza de detalhes. É possível notar a curiosidade e o prazer com que o cineasta filma a tortura, sempre seguindo uma regra-chave em filmes gore: as vítimas devem morrer de maneira sempre extremamente violenta e, se possível, criativa.

Outro aspecto muito problemático está no sistema simbólico de punições que rege a escolha daqueles que devem morrer e dos que ganharão uma segunda chance. Neste aspecto, Roth apenas segue uma velha tradição reacionária de Hollywood: personagens que gostam de farra, sexo e mau comportamento são os primeiros a empacotar, enquanto aqueles que demonstram uma moral ligeiramente mais elevada vão para o final da fila – alguns até conseguem escapar. De quebra, Eli Roth ainda encontra espaço para repetir o show de americano-centrismo (o mundo gira em torno dos nascidos nos EUA, certo?), pintando um retrato racista e sexista da Europa. No Velho Continente, rapazes e moças bonitos quase sempre são ladrões, assassinos ou as duas coisas.

A trama substitui os três protagonistas masculinos do primeiro filme por três garotas, também viajando de férias pela Europa. Beth (Lauren German), Whitney (Bijou Phillips) e Lorna (Heather Matarazzo) não querem nada além de conhecer rapazes bonitos e encher a cara. Ou melhor, as duas primeiras só querem saber disso – a última é o patinho feio da história, uma menina horrorosa e boba como os piores estereótipos dos filmes de horror juvenil. É uma pena, aliás, que a boa atriz Heather Matarazzo esteja relegada a um papel tão unidimensional. Ela protagoniza a seqüência mais angustiante, na metade da projeção. Em paralelo, o filme acompanha ainda as trajetórias de dois executivos norte-americanos (Roger Bart e Richard Burgi) que estão à espera de vítimas do sinistro albergue na Eslováquia para estraçalhar. Obviamente, os destinos dos dois grupos vão se cruzar.

Do ponto de vista puramente cinematográfico, “O Albergue – Parte 2” é decepcionante, recorrendo a diversos clichês surrados dos filmes de horror gore. Perceba, por exemplo, como a seqüência de abertura, que traz o sobrevivente do primeiro filme vivendo uma péssima experiência num hospital, é uma tradição recorrente neste tipo de filme. Eli Roth também não perde a chance de fazer diversas homenagens aos sangrentos filmes de horror italiano dos anos 1970 (Lucio Fulci, Ruggero Deodato), escalando astros daqueles filmes em pequenos papéis secundários, como na já citada cena de abertura. Uma homenagem válida, com certeza, mas que não livra “O Albergue – Parte 2” de se transformar uma das produções mais pobres e moralmente duvidosas de 2007.

O DVD da Sony tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), contém cenas cortadas, documentário em cinco partes, comentário em áudio do diretor e até entrevista radiofônica com Roth.

– O Albergue – Parte 2 (Hostel Part II, EUA, 2007)
Direção: Eli Roth
Elenco: Lauren German, Roger Bart, Heather Matarazzo, Bijou Philips
Duração: 93 minutos

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