Além da Vida

08/01/2011 | Categoria: Críticas

Clint Eastwood investiga a vida após a morte num filme que, a despeito das atuações ótimas e da direção eficiente, parece não ter uma alma

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Clint Eastwood e Woody Allen têm pelo menos uma coisa em comum. À medida que envelhecem, o ritmo de vida de ambos vai na contramão dos mortais comuns. Ao invés de respirar mais e trabalhar menos, eles parecem filmar cada vez mais rápido. No entanto, se Allen troca os atores e repete o mesmo filme desde o final dos anos 1980, Eastwood encarna perfeitamente aquele ditado antigo sobre o vinho. Talvez o segredo seja investir em histórias muito diferentes entre si. “Além da Vida” (Hereafter, EUA, 2010) não é a primeira incursão de Eastwood no terreno do sobrenatural, mas contém a primeira investida dele no filão dos roteiros “espíritas”, que investigam o tema da vida após a morte. Pena que, apesar do tratamento sutil do tema e da reconhecida qualidade da direção (falo do ato de transportar a história do reino das palavras para o das imagens e sons), o resultado final careça de… alma.

O enredo intercala três histórias paralelas que convergem no terceiro ato. Na primeira, um vidente (Matt Damon) passa a trabalhar como operário e deixa de usar seu dom (verdadeiro) porque não consegue lidar com o impacto emocional que os contatos sobrenaturais causam nas pessoas, deixando-o solitário e sem amigos. A segunda focaliza uma famosa jornalista francesa (Cécile De France) que “morre” por alguns minutos e é ressuscitada durante o tsunami no Oceano Pacífico em 2004 – uma experiência que muda completamente a maneira de ela encarar a vida. A terceira é protagonizada por um adolescente (George McLaren) que perde o irmão gêmeo – basicamente, única ligação dele com o mundo, já que a mãe de ambos é viciada em narcóticos – num acidente fortuito. Temos, então, três personagens vivendo em três cidades completamente diferentes (San Francisco, Paris e Londres). Eles não se conhecem, mas compartilham um mesmo ponto em comum: o conhecimento, ou a curiosidade, sobre o que existe após a morte.

Clint Eastwood aplica sua já tradicional abordagem clássica a essas três histórias. Ele rejeita o estilo mais veloz de montagem paralela, utilizado pelos cineastas mais jovens do que ele (basta pensar no Fernando Meirelles de “O Jardineiro Fiel”), preferindo que cada fatia do enredo tenha bastante tempo para respirar e se desenvolver. Então, o filme salta para outro protagonista. É tudo muito encaixado, sem gorduras ou peças soltas, apesar do pulo um pouco abrupto na transição do segundo para o terceiro ato. Em termos de edição, de fato, não há realmente nada de errado com essa técnica. A questão é que, quando associada ao registro mais delicado do roteiro de Peter Morgan, ela resulta em um filme morno, sem raça, sem garra, com muitas informações e pouco afeto, muitas perguntas e nenhuma resposta.

De qualquer forma, embora o desenvolvimento do enredo em si possa decepcionar algumas pessoas, é importante ressaltar que Eastwood nunca cai na cilada de abraçar uma teoria sobre o tema polêmico. O olhar que ele dirige ao assunto é genuinamente curioso e aberto a todas as possibilidades. E, mesmo evitando a ambigüidade excessiva, o diretor veterano inclui a pitada de humor necessária para plantar uma semente de dúvida na cabeça dos espectadores mais atentos – veja com atenção, já no terceiro ato, a cena do encontro entre os personagens de Damon e McLaren no quarto do hotel, e note como o primeiro parece trapacear levemente sobre as expectativas do segundo. Ou seria ilusão?

Como de hábito nos filmes de Eastwood, o elenco enorme dá conta do trabalho com eficiência. Matt Damon, em particular, parece muito à vontade, talvez porque seu estilo minimalista e discreto case perfeitamente com o jeito de Clint dirigir. A francesa Cécile De France acompanha a boa performance e obtém um registro casual e espontâneo, algo compartilhado por quase todos os demais atores. A única exceção verdadeira é Bryce Dallas Howard, que encarna uma paquera do personagem de Damon e atua num tom melodramático bem acima do parceiro – ela parece levemente histérica em alguns momentos, o que talvez seja até mesmo adequado à personagem, mas não contribui em nada para o filme como um todo. Por outro lado, a bela trilha sonora ao piano (escrita pelo próprio Eastwood, como de hábito) embala a história com o tom agridoce de discrição tão perseguido pelo diretor.

– Além da Vida (Hereafter, EUA, 2010)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Matt Damon, Cécile De France, Bryce Dallas Howard, George McLaren
Duração: 129 minutos

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