Alexandre

12/07/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Oliver Stone tem sua cota de defeitos, é auto-indulgente, confuso e sem foco, mas proporciona uma leitura intrigante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O épico de Oliver Stone, “Alexandre” (Alexander, EUA/Inglaterra/Alemanha/Holanda, 2004), é daqueles filmes que deixam a cabeça do espectador com mais dúvidas do que certezas. A primeira, e talvez mais importante questão que ele abre, é se a época em que um filme é rodado transparece, de algum modo, quando se assiste a uma produção. O caso de “Alexandre” favorece aos que defendem que sim. Embora este seja um projeto acalentado por Oliver Stone desde 1989, ele parece ter sido talhado para criticar, à maneira confusa e ambígua do diretor de “Assassinos Por Natureza”, a política externa dos Estados Unidos em 2004.

Pode ser que essa leitura política do longo épico de 176 minuto seja fruto das experiências pessoais do espectador, e não esteja conscientemente infliltrada na obra. Pode ser. Mas a mais brilhante seqüência de “Alexandre”, a única verdadeiramente empolgante, que vale o preço do ingresso, está embebida desta leitura. Trata-se da batalha de Gaugamela, quando o exército de 40 mil homens de “Alexandre” é obrigado a se defrontar com 250 mil soldados da império Persa, em pleno deserto do Oriente Médio.

Antes da batalha, Alexandre (Colin Farrell) discursa aos soldados. Ele invoca a Grécia como “pátria da liberdade”, e diz que os gregos precisam ganhar a guerra, porque o outro exército, apesar de mais numeroso, não luta com o coração, mas por causa de dinheiro. “Hoje, nós lutamos pelo direito à liberdade”, insiste o líder guerreiro, montado no seu cavalo negro, Bucéfalo. Ânimo renovado, os gregos bronzeados e de pernas de fora encaram o inimigo, com suas longas barbas e turbantes escuros. Uma imagem estranhamente familiar a todos os que acompanham o noticiário sobre os atentados terroristas no Iraque em 2004. Os gregos vencem a batalha. Os gregos falam inglês.

A luta é espetacularmente bem filmada, bem editada e bem fotografada. Há lindas tomadas aéreas em que a câmera acompanha o vôo solitário de uma águia que acompanha o confronto. Há toneladas de poeira envolvendo os combatentes, que se movem de modo lento, quase sem ver o oponente, cegos pelo pó, pelo suor e pelo sol inclemente. Oliver Stone filmou Gaugamela no Marrocos, com mais de mil figurantes, quase todos militares do exército do país cedidos pelo próprio rei. Todo o êxito técnico, no entanto, não responde à pergunta central: o que Oliver Stone quis dizer com aquele discurso pró-liberdade?

Stone não é um diretor sutil. Quando acredita em uma causa, ele a defende com unhas e dentes. Foi assim em “J.F.K.”, em “Nixon” e em “Assassinos Por Natureza”. Uma leitura apressada poderia indicar uma pretenso apoio de Stone às ações desastradas de George W. Bush e sua guerra do Iraque, em que terna ensinar o conceito de democracia empurrando-a goela abaixo a um povo que não o compreende. Mas é bom ter calma, porque no restante do filme, Oliver Stone abandona seu tradicional estilo extravagante, para construir um Alexandre que vai sendo seduzido, lentamente, pela cultura estrangeira que, no início, queria destruir.

O homem Alexandre, que emerge do filme “Alexandre”, é uma espécie de D.H. Lawrence da Antiguidade. Como o lorde inglês que uniu as tribos árabes no início do século XX, sentia-se um estrangeiro na própria pátria, e adotou a cultura exótica dos povos orientais como a sua própria. Alexandre só se sentia em casa quando estava na estrada, e de preferência entre os persas. Daí o desejo de afastar-se cada vez mais do coração do gigantesco império que ergueu. Daí, também, as pequenas loucuras que o levaram a fixar um objetivo – chegar ao fim do mundo – impossível de ser cumprido.

O longa-metragem de Oliver Stone poderia ser descrito como um cruzamento ambicioso entre “Lawrence da Arábia”, o grande épico de David Lean sobre a vida do lorde inglês, e “Aguirre – A Cólera dos Deuses”, o pequeno épico do alemão Werner Herzog sobre a vida de um delirante viajante espanhol que queria achar o pote de ouro no fim do arco-íris. Só que falta foco ao diretor norte-americano para comunicar sua visão ao público. O filme é confuso. Não sabe ser direto. O espectador sai no cinema sem entender o que Oliver Stone quis dizer com 176 minutos de pompa e circunstância.

É uma pena, mas “Alexandre” se perde em um emaranhado de discursos de guerra, discussões românticas e monólogos filosóficos. Há pouquíssimas cenas de batalha (além de Gaugamela, há apenas outra luta, na Índia, perto do fim do filme), que poderiam ter salvo o longa-metragem para o público mais jovem. Com os muitos flashbacks e incontáveis tomadas de conversas, muitas vezes sem acrescentar muito ao enredo, o ritmo fica lento. A longa duração se arrasta ainda mais por causa do elenco pouco inspirado, talvez urbano demais, sem experiência teatral. Colin Farrel e Angelina Jolie, que têm mais tempo na tela, nunca ficam confortáveis nos seus papéis. Ela, em especial, tem um sotaque horroroso que jamais é explicado. Os dois recitam as falas como se estivessem numa peça de segunda categoria.

Em última instância, “Alexandre” é uma espécie estranha de épico edipiano. Alexandre, o homem, lidera um Exército normal, com táticas arrojadas, bravura permanente e inteligência fora do comum, 35 mil quilômetros para dentro do Oriente. Na verdade, o que deseja de forma inconsciente, e desesperadamente, é se libertar da influência materna e resgatar o pouco da figura guerreira do pai (Val Kilmer), com quem conseguiu conviver pouco. Na trajetória, se casa com uma nativa indiana, Roxana (Rosario Dawson), e mantém um romance surpreendentemente tímido para os padrões Oliver-Stoneanos com o amigo de infância, Hefestion (Jared Leto).

Aqui, talvez por causa do orçamento superior a US$ 100 milhões, Oliver Stone não faz jús à fama de ousado que sempre carregou. No aspecto técnico, a ousadia só da o ar da graça no final, quando Stone faz o diretor de fotografia, Rodrigo Prieto, retirar a cor verde da película, tingindo tudo de vermelho por alguns minutos. Do ponto de vista narrativo, nem isso. A propalada bissexualidade do rei macedônio se resume a olhares, abraços e beijos no estilo selinho. “Alexandre” é um épico comum, que flerta com diversos outros filmes da sua estirpe (há um pouco de “Gladiador” aqui, um bocado de “O Senhor dos Anéis acolá), mas não os supera nem transcende. Apenas os repete.

O filme de Oliver Stone foi assassinado pela crítica, nos EUA, e resultou em um dos maiores fracassos da história recente de Hollywood. Rendeu apenas US$ 40 milhões em território norte-americano, o que é pouquíssimo para um filme tão grande. Se comparado a “Tróia”, a bobagem com Brad Pitt que também recorre a personagens mitológicos, o resultado de bilheteria chega a ser ridículo. Não se engane: “Alexandre” tem sua cota de defeitos, é auto-indulgente, confuso e sem foco, mas é melhor do que “Tróia”, pois tem personagens mais adultos e complexos. Mas só isso, em se tratando de Stone, é muito pouco.

A Warner lança o filme em um DVD duplo caprichado. No disco 1, o filme tem imagem original (widescreen anamórfico) e áudio Dolby Digital 5.1, em inglês e português. Há um comentário do diretor Oliver Stone e do historiador Robin Lane Fox, consultor da produção, e trailers. O disco 2 é dedicado a três documentários, dissecando o projeto em mais de duas horas de entrevistas.

– Alexandre (Alexander, EUA/Inglaterra/Alemanha/Holanda, 2004)
Direção: Oliver Stone
Elenco: Colin Farrell, Angelina Jolie, Jared Leto, Val Kilmer
Duração: 176 minutos

| Mais


Deixar comentário