Alguém Tem Que Ceder

14/09/2004 | Categoria: Críticas

Protagonistas de meia-idade são a maior novidade dessa comédia romântica agradável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Comédias românticas envolvendo pessoas acima dos 40 anos de idade não eram tão raras em 1940, a década em que Hollywood realmente se esmerou em produzir esse tipo de filme. Dessa forma, quem imaginar que “ Alguém Tem que Ceder” (Something’s Gotta Give, EUA, 2003) encontra um momento pioneiro por narrar as confusões amorosas de duas pessoas de meia-idade vai estar errado.

O filme de Nancy Meyers faz homenagens e até citações a filmes como “Casablanca”. Portanto, não é original. Também está longe de ser ruim; talvez seja apenas longo demais para um produto que deseja apenas entreter (e se você está mais interessado em ganhar um porta-retratos e assistir ao longa-metragem de graça, seja o link para a promoção, no final deste texto).

O filme começa promissor. O empresário Harry Sanborn (Jack Nicholson) é uma espécie de versão envelhecida do Rob Gordon de “Alta Fidelidade”: um solteirão convicto que, aos 63 anos, se vale das promessas do Viagra para jamais sair com garotas acima dos 30 anos. Ele inicia um romance com Zoe Barry (Amanda Peet), mas um ataque cardíaco interrompe o fim de semana na casa de praia e o joga, sem querer, aos cuidados da mãe da menina, a roteirista de teatro Erica (Diane Keaton). Para completar o quadrilátero amoroso, surge ainda o médico Julian Mercer (Keanu Reeves), que atende o sexagenário e começa a flertar com Erica.

O primeiro ato do filme é realmente bom. A diretora Nancy Meyers, autora de “Do Que as Mulheres Gostam”, repete a fórmua infalível da comédia romântica (“casal que se odeia no princípio acaba se descbrindo apaixonado”), mas antes se esmera na apresentação e no desenvolvimento dos personagens, o que rende ótimas gargalhadas. O diferencial é mesmo o roteiro, com gags elegantes e comentários sarcásticos – além de atuais – a respeito dos casos, cada vez mais comuns, entre homens e mulheres com grande diferença de idade.

Um diferencial importante é que o filme, ao contrário do que muitos podem imaginar, é de Diane Keaton. É a atriz, charmosa como sempre, quem domina a tela, principalmente porque o filme é todo construído do ponto de vista feminino, defendendo a idéia batida de que homens são porcos chauvinistas e mulheres, um poço de bons sentimentos. Mas, para dizer a verdade, a interpretação de Keaton não fica à altura da oferecida por Nicholson, finalmente afastando-se (ainda que só um pouquinho) dos maneirismos de “coroa doidão” que vem repetindo há 20 anos. Keaton exagera um pouquinho nas cenas mais cômicas, quase estragando o toque cômico suave que deveria ser a tônica do longa-metragem. Parece querer provar o tempo todo que tem um belo sorriso. Nada que prejudique tanto assim o filme.

O problema maior, na verdade, vem do mesmo roteiro que é responsável pelos excelentes 30 minutos iniciais. Aos poucos, Nancy Meyers preferiu jogar uma partida segura e apostou em todos os clichês possíveis, incluindo uma separação dolorida – mas nem tanto – e o inevitável final que todo mundo pode imaginar a léguas de distância. Na direção, as mesmas e surradas elipses (um exemplo: aumentar a trilha sonora jazística, outro clichê desse tipo de filme, para comunicar à audiência que determinado personagem está tendo momentos de pura alegria). Aos poucos, tudo isso cansa.

Por outro lado, mesmo deixando de lado a elegância dos diálogos em certos momentos e apelando para cenas que não ficariam deslocadas em grosserias como “Todo Mundo em Pânico” (ou você acha agradável ver Jack Nicholson pelado, passeando pelos corredores de um hospital?), o filme sustenta bons momentos de risos durante toda a longa duração – uma comédia romântica com mais de duas hora de projeção é artigo raro. Mas a qualidade dos atores e as boas gags do roteiro compensam tudo isso. “Alguém Tem que Ceder” é como jogo do Sport de 2004: diversão garantida, embora o time não seja lá grande coisa.

– Alguém Tem que Ceder (Something’s Gotta Give, EUA, 2003)
Direção: Nancy Meyers
Elenco: Diane Keaton, Jack Nicholson, Keanu Reeves, Francês McDormand
Duração: 128 minutos

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