Alice Não Mora Mais Aqui

13/12/2006 | Categoria: Críticas

Terceiro longa-metragem de Martin Scorsese apresenta a dura realidade da vida de uma jovem viúva

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Ao longo de sua carreira, o cineasta Martin Scorsese desenvolveu, em seus filmes, um olhar crítico e eminentemente masculino a respeito da sociedade norte-americana. A maior parte dos trabalhos que assinou são aquilo que à boca pequena chamamos de “filmes de macho”, com linguagem crua e imagens viscerais de violência, além de palavrões e misoginia aos borbotões. Por tudo isso, é provável que o road movie feminista “Alice Não Mora Mais Aqui” (Alice Doesn’t Live Here Anymore, EUA, 1974) seja o menos scorseseano de todas as produções que o diretor levou a cabo. Em essência, trata-se de um filme – excelente! – de alma delicada e feminina.

A bem da verdade, como boa parte dos melhores trabalhos de Scorsese, o projeto não saiu da cabeça do diretor, que trabalhou como mero funcionário contratado. A grande responsável pela germinação do longa-metragem foi a atriz Ellen Burstyn, que vivia então o melhor momento da carreira. Colhendo os louros do grande sucesso de público que foi “O Exorcista”, feito no ano anterior, a atriz recebeu carta branca da Warner para apresentar um projeto ao estúdio. Levou, então, o roteiro de “Alice Não Mora Mais Aqui”, um raríssimo longa que tinha uma mulher acima de 30 anos como protagonista.

Cabe aqui um rápido parêntese para contextualizar a produção. É importante lembrar que em 1974 o movimento feminista estava no auge, nos Estados Unidos, e portanto um filme como “Alice…” tinha público certo, desde que fosse vendido à parcela correta de cinéfilos, basicamente os freqüentadores de cinemas na faixa dos 30 anos. Por outro lado, a Warner sabia que este seria um drama adulto de pequenas proporções, e não queria gastar milhões contratando um diretor famoso. Foi Francis Ford Coppola quem sugeriu a Ellen Burstyn o nome de Scorsese, um iniciante com apenas dois títulos no currículo. A Warner deu luz verde, e o então desconhecido cineasta nova-iorquino, faminto por trabalho, agarrou-o com unhas e dentes.

Perfeitamente encaixado dentro da revolução criada nos intestinos de Hollywood por uma geração de jovens diretores talentosos que não tinha medo de criticar a sociedade norte-americana em painéis realistas da vida nos subúrbios, “Alice Não Mora Mais Aqui” parece uma contraparte feminina do ótimo “Cada Um Vive Como Quer” (1970), de Bob Rafelson. Ou seja, é um drama de estrada sobre pessoas comuns, que dão duro para conseguir sobreviver em um ambiente socialmente hostil. No filme de Scorsese, temos um perfeito panorama do quão difícil significa ser uma mulher com mais de 30 anos, viúva e com um filho pequeno, em uma sociedade machista e misógina como é a norte-americana, em especial nas pequenas e conservadoras cidades do interior.

A personagem principal, Alice (Burstyn), é obrigada a cair na estrada com o filho Tommy (Alfred Lutter III) depois que o marido morre num acidente banal. Na verdade, da maneira com Scorsese mostra, ela saiu de um inferno para cair em outro pior. Antes da fatalidade, Alice sonhava com um divórcio para poder perseguir o sonho de virar cantora, pois vivia um casamento infeliz ao lado de um sujeito grosseiro, agressivo e estúpido. A tão querida liberdade aparece, contudo, regada a lágrimas e dor, e a mulher não demora a descobrir, da pior maneira possível, que a vida fora da segurança do casamento, para uma balzaquiana com uma criança, pode ser extremamente difícil.

Sozinha no mundo e sem economias, Alice é obrigada a enterrar o sonho de virar cantora e aceitar bicos como garçonete para poder sobreviver. O filho, Tommy, tem que aprender a passar os dias sozinho, trancado em quartos de motéis baratos, esperando a mãe sair do trabalho. Para completar, Alice logo descobre que retomar uma vida amorosa digna é tarefa das mais complicadas. No ambiente machista das pequenas cidades do interior rural dos EUA, há uma regra não-escrita que parece tão natural para os habitantes quanto respirar: uma mulher sozinha e com filho pequeno não tem direito de recusar um homem, seja ele quem for.

Tudo em “Alice Não Mora Mais Aqui” funciona perfeitamente. O elenco soberbo (Burstyn ganhou o Oscar, enquanto Diane Ladd e Kris Kristofferson compõem coadjuvantes densos e Harvey Keitel tem uma pequena, mas feroz participação fundamental), a trilha sonora sorumbática, o afiado senso de humor sem um pingo de auto-complacência, o ótimo núcleo juvenil da história – Jodie Foster tem pelo menos uma seqüência brilhante, furtando uma loja de instrumentos musicais – e a abertura impagável que satiriza brilhantemente “O Mágico de Oz” (1939), tudo isso faz de “Alice…” um grande filme.

O DVD é um lançamento da Warner. O disco simples contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 2.0), e um extra saboroso: um documentário (20 minutos) contendo entrevistas retrospectivas de Ellen Burstyn e Kris Kristofferson, legendado em português.

– Alice Não Mora Mais Aqui (Alice Doesn’t Live Here Anymore, EUA, 1974)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Ellen Burstyn, Kris Kristofferson, Harvey Keitel, Diane Ladd
Duração: 113 minutos

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