Alice no País das Maravilhas

17/07/2010 | Categoria: Críticas

Adaptação de Tim Burton sobre uma suposta segunda viagem da personagem de Lewis Carroll ao reino mágico decepciona por ser comportada demais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

“Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, EUA/Reino Unido, 2010) contradiz seu próprio título ao se constituir mais como uma estranha espécie de continuação/seqüência do célebre romance de Lewis Carroll do que como a abordagem de Tim Burton para a clássica história publicada em 1865. No enredo do filme, a protagonista do romance – e de inúmeras versões para o cinema da trama, sendo a mais famosa o desenho animado feito pela Disney em 1951 – já alcançou a idade adulta, mas é levada por circunstâncias externas a visitar pela segunda vez o reino subterrâneo onde seis coisas impossíveis acontecem antes do café da manhã.

Bom, isso tudo em teoria. Porque, na prática, esse papo de aventuras revisitadas não passa de estratégia narrativa, adotada por Burton e pela roteirista Linda Woolverton, para ter a liberdade de se desviar livremente do enredo. E a verdade é que esse desvio põe o filme, ao contrário do que se imaginaria, num rumo muito mais convencional e comportado do que se esperaria de um filme de Tim Burton. A própria animação de 1951, apesar de feita com a censura livre em mente, era muito mais selvagem, excêntrica e aloprada do que a versão romântico-gótica de 2010.

De fato, “Alice no País das Maravilhas” nos dá farto material para repensar a carreira de um dos mais singulares cineastas comerciais de Hollywood. É inegável que Tim Burton trouxe, nos anos 1980, uma nova sensibilidade ao mundo dos grandes espetáculos cinematográficos, unindo o senso do macabro que brotava dos filmes de horror B à excentricidade e encantamento das fantasias tipicamente hollywoodianas. No entanto, a partir de certo ponto de sua carreira, Burton parece ter cedido à acomodação ou, quem sabe, dado uma guinada em direção a uma sensibilidade mais convencional.

Desde essa virada na carreira (talvez ocasionada pela reconciliação seguida da morte do pai do diretor), Burton tem preferido mergulhar nas aventuras infanto-juvenis, em que investe claramente mais esforço criativo na concepção visual do que na estrutura narrativa. Se ainda é capaz de nos surpreender com bizarrices do nível de “Sweeney Todd” (2007), também tem se revelado pródigo em pegar material sinistro para crianças e transformá-lo em filmes repletos de visuais interessantes, mas cuja narrativa freqüentemente resvala no lugar-comum. Isto fica explícito em “Alice no País das Maravilhas”, uma fábula infanto-juvenil cujo sopro de vitalidade está nas viraras ilógicas do enredo. Pois Burton subverte justamente esse ponto, criando para o mundo subterrâneo de Alice uma causalidade lógica que simplesmente não bate com o surrealismo original da história, tornada assim bem menos sinistra do que se poderia supor. Os cílios pintados e o delineador no rosto de Johnny Depp chamam muito mais a atenção do que as (poucas) pirações do roteiro.

Que fique claro: boa parte do charme do “Alice no País das Maravilhas” original (nesse ponto, refiro-me tanto ao livro quanto ao desenho animado de 1951) nascia justamente do elemento surreal que fazia a linha narrativa dar guinadas completamente inesperadas a cada cinco ou dez minutos. Essas extravagâncias foram completamente eliminadas por Tim Burton, que transformou a segunda incursão de Alice pelo País das Maravilhas numa espécie de filme de ação com pitadas de romance. Burton chega mesmo a incluir um flerte entre Alice (Mia Wasikowska) e o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp), cuja participação na trama foi convenientemente ampliada por razões obviamente comerciais, que têm a ver com a transformação do ator-fetiche do diretor num astro de primeira grandeza. Esta ampliação chega ao ponto de dar ao personagem quase o mesmo tempo de tela que a protagonista.

Filmado parcialmente com a tecnologia empregada em “A Lenda de Beowulf” (2007) – em que os atores atuam com fundo verde e são reconstituídos digitalmente na pós-produção – e convertido posteriormente para a tecnologia 3D Digital, “Alice” soa desapontador até mesmo nos aspectos visuais. OK, a aparência da malvada Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) está acertadíssima, sugerindo instantaneamente sua obsessão em cortar cabeças de convidados, e o mesmo pode ser dito sobre o rosto sutilmente amalucado do Chapeleiro Maluco (os olhos de Johnny Depp foram aumentados em 10%, e suas pupilas têm tamanhos diferentes). Mas as paisagens hipercoloridas parecem sobras de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005), sobrepondo excessivamente o visual à narrativa, e os diversos seres digitais, como o coelho branco e a lagarta fumante, não ultrapassam o nível do corriqueiro.

Ademais, a opção tradicional de Burton em filmar com pouca profundidade de campo (culpa das lentes teleobjetivas) e utilizar muitos close-ups de rostos gera duas decisões estilísticas que reduzem o impacto da tecnologia 3D de projeção. Comparado à encenação bem mais complexa e interessante de “Avatar” (2009), por exemplo, o filme de Tim Burton empalidece. Os equívocos culminam com o design do exército de cartas de baralho da Rainha Vermelha, que mais parecem robôs eletrônicos vermelhos, e com um terceiro ato insípido que transforma a jornada tresloucada de Alice numa longa e banal seqüência de ação, incluindo uma batalha supostamente épica.

O DVD da Buena Vista é simples e contém, além do filme em boa qualidade (imagens em wide anamórfico, som Dolby Digital 5.1), featurettes enfocando a criação dos efeitos especiais e o personagem do Chapeleiro Maluco.

– Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA/Reino Unido, 2010)
Direção: Tim Burton
Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway
Duração: 108 minutos

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