Alien – o 8º Passageiro

28/02/2008 | Categoria: Críticas

Ficção científica que sedimentou a carreira de Ridley Scott brinda o espectador com duas horas eletrizantes de suor frio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Vez por outra, os deuses do cinema nos brindam com incríveis e improváveis conjunções de talentos que acabam transformando projetos relativamente modestos em verdadeiros clássicos. Uma dessas confluência raras aconteceu durante a produção de “Alien – o 8º Passageiro” (EUA, 1979). Influenciada pelo sucesso de “Guerra nas Estrelas” e pelos antigos filmes de monstro da Universal, a ficção científica estabeleceu um parâmetro de altíssimo nível para filmes envolvendo alienígenas hostis, alcançou sucesso inesperado e transformou o inglês Ridley Scott, até então publicitário premiado e cineasta que ainda engatinhava na carreira, em grande nome de Hollywood. Tudo merecido, já que “Alien” brinda o espectador com duas horas eletrizantes de suor frio.

Oriundo da publicidade e com serviços prestados ao cinema como diretor de arte, Ridley Scott foi uma escolha curiosa para o comando da produção. Até ali, ele tinha dirigido apenas um filme, o drama de época “Os Duelistas”, que nada tinha a ver com o tipo de narrativa dinâmica e simples, estabelecida pelo roteiro original de Dan O’Bannon e Ronald Shusset. Só que o longa-metragem tinha um orçamento limitado, e a Fox sabia que não podia encarecer o projeto, contratando um diretor mais famoso. A aposta num novato cheio de energia foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para o filme. Afinal, foi Scott quem tomou a decisão crucial de investir cada centavo disponível numa concepção visual grandiosa. Para economizar, ele contrataria atores experientes em teatro, que pudessem improvisar bastante e, assim, criar o clima de camaradagem fundamental para o estabelecimento do alicerce da história.

Tudo deu certo. Os designers de produção foram capazes de criar duas locações impressionantes, gigantescas e multi-detalhadas, que forneceram a atmosfera de tensão permanente, fundamental para que o espectador “comprasse” a idéia central da ameaça alienígena. Uma dessas locações, ampliada com o uso de truques cênicos baratos (como usar crianças vestidas com trajes de astronauta para aumentar a escala do cenário, e encher o estúdio de fumaça para esconder os defeitos e ao mesmo tempo acentuar a aura de mistério) foi o planeta alienígena, construído com ossos, borracha e metal a partir de desenhos do artista plástico suíço H.R. Giger. A seqüência da exploração do planeta, depois que a nave Nostromo chega até lá, nunca é menos do que assustadora.

O outro cenário é a própria nave, um gigantesco cargueiro espacial destinado a coletar minério nos confins do espaço sideral. Scott se inspirou em submarinos, construindo corredores apertados que acentuam a sensação de claustrofobia e perigo, e lotando-os com peças gastas de aviões abandonados. O diretor incorporou ao filme o conceito de “futuro usado”, que havia injetado realismo à trilogia espacial de George Lucas, e acertou na mosca, dando a sensação de que aquela nave poderia mesmo cruzar o espaço. Na condução dos atores, Scott tomou uma decisão insólita. Escreveu dossiês individuais para os atores, cada um com cinco ou seis páginas, criando um passado completo para cada personagem, e pediu que eles refizessem livremente seus diálogos. Funcionou tão bem que cada um dos sete personagens ganhou uma personalidade própria e inconfundível.

Observe, por exemplo, como os dois mecânicos da nave (Yaphet Kotto e Harry Dean Stanton) parecem mecânicos de verdade. São desajeitados e preguiçosos, não param de imaginar maneiras de aumentar os respectivos ganhos financeiros, e estão sempre dando um jeito de trabalhar menos. Ao avaliar uma avaria na nave e perceber que vão precisar de 24 horas para corrigi-la, eles aumentam o tempo estimado do conserto quando passam a informação ao comandante da nave (Tom Skerritt), do mesmo jeito que todo mecânico faz com qualquer dono de automóvel durante uma visita à oficina. São detalhes mínimos que conferem solidez e consistência aos personagens, deixando o cineasta livre para elaborar a trama com calma, de forma lenta e segura.

A história é bastante simples, e dividida em duas partes bem definidas. A primeira metade apresenta os sete tripulantes da Nostromo. Eles são acordados da hibernação no meio do caminho de volta à Terra, a fim de investigar a origem de um misterioso sinal de rádio. No estranho planeta extraterrestre, encontram uma nave alien destruída. Os sinais visíveis indicam que os tripulantes teriam sido atacados por alguma outra espécie, mais violenta e perigosa. Não demora muito para que um hospedeiro indesejável acabe conseguindo um passaporte para dentro da Nostromo. A partir daí, o que se segue é o esqueleto narrativo clássico de um filme de monstro, abastecido com sustos de parar coração de cardíaco, uma revelação chocante sobre a natureza de um dos personagens, tensão incessante e uma boa dose de ousadia (colocar uma mulher no papel principal foi um feito e tanto).

Com talento de veterano, Scott imprime ao filme um ritmo lento e firme, que valoriza cada pequena surpresa do roteiro, e preenche toda a ação com seqüências antológicas. É até difícil escolher qual a melhor e mais impressionante cena do filme. A mais falada delas – a ceia inocente que se transforma em banho de sangue – é brilhante, mas há momentos tão ou mais eletrizantes, como a perseguição ao alien dentro dos dutos de ventilação (um primor de narrativa cinematográfica, em que não se vê diretamente nada e a ação é comunicada apenas pelo som), a tensa cena em que o mecânico Brett procura o gato-mascote da nave, e o clímax inesquecível reunindo a tenente Ripley (Weaver) e o monstro. “Alien” é um daqueles filmes silenciosos e assustadores, cujas imagens de pesadelo se instalam no subconsciente e demoram uma eternidade para sair de lá.

Há duas versões do filme em DVD no Brasil. Uma delas, simples, traz a obra com qualidade razoável de imagem (widescreen 2.20:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). A edição especial dupla é bem mais caprichada. O filme, remasterizado e restaurado, tem qualidade bem melhor de imagem e áudio (incluindo uma trilha em DTS). O disco traz duas versões do filme, a original (exibida nos cinemas em 1979) e a do diretor (feita em 2003, com pequenas alterações), e vem com introdução em vídeo gravada por Ridley Scott. O disco 2 é sensacional: um mega-documentário detalhado (180 minutos) dividido em três partes (pré, pós e produção), com cada uma delas acompanhada de galerias de fotos, notas manuscritas do diretor, pôsteres e outros mimos. Os storyboards do filme vêm completos. O teste original de Sigourney Weaver para o papel central está incluído, e a cena mais lembrada (o “nascimento” do alien) pode ser vista em multiângulo, filmada por duas câmeras diferentes. Há ainda uma galeria com sete cenas cortadas (16 minutos), tudo com legendas em português. Sensacional.

– Alien – o 8º Passageiro (EUA, 1979)
Direção: Ridley Scott
Elenco: Sigourney Weaver, Ian Holm, Tom Skerritt, John Hurt
Duração: 116 minutos

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