Almas Perversas

14/03/2006 | Categoria: Críticas

Cineasta alemão Fritz Lang reúne três personagens mundanos fascinantes em filme noir perfeito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Edward G. Robinson foi um ator quase desconhecido do grande público. Baixo, gordo, feio, nunca fez parte da extensa galeria dos galãs de Hollywood. Mas a capacidade quase sobrenatural de interpretar gente comum e cheia de problemas o transformou em um dos nomes seminais do cinema noir, especialmente nas décadas de 1940 e 50. Sua face amargurada, exalando a palavra “culpa” por todos os poros, fornece a imagem definitiva de “Almas Perversas” (Scarlet Street, EUA, 1945), um dos maiores e menos reconhecidos noir e talvez o melhor trabalho do grande cineasta alemão Fritz Lang na segunda fase da carreira, que se passou nos EUA.

Como a maior parte dos grandes filmes noir, “Almas Perversas” não nasceu de um projeto pessoal de seu diretor, mas da vontade do estúdio – no caso, a Universal – de refilmar um antigo filme mudo francês, chamado “A Cadela” e feito em 1931 por Jean Renoir. Fritz Lang foi contratado para a tarefa por ser um cineasta egresso da Alemanha, um dos artífices do chamado movimento expressionista, que emprestou características visuais essenciais ao noir, como o uso abundante de ângulos inusitados de câmera, composições visuais sofisticadas e fortes contrastes entre preto e branco. Lang fez mais do que isso, transformando o projeto num magnífico estudo da culpa católica de um homem comum que carrega entranhada na alma a palavra “perdedor”.

Com a ajuda do roteirista Dudley Nichols, Lang estruturou o filme em torno de três personagens mundanos e fascinantes. Chris Cross (Robinson) é o principal, um solitário contador com alma de artista e um casamento fracassado. O filme é narrado do ponto de vista dele, um homem de meia-idade, conformado com uma vida banal cuja única alegria é pintar quadros de qualidade duvidosa aos domingos. Cross vive com dificuldades financeiras e admite ter se casado com uma viúva meramente por solidão; sua vida é um inferno. De algum modo, porém, ele parece achar que sua mediocridade é merecida, e não tenta mudar nada. Está conformado.

Isso, claro, até a noite em que conhece Kitty March (Joan Bennett), uma bela aspirante a atriz. Linda e preguiçosa, Kitty adora passar os dias deitada na cama, enquanto espera o amante Johnny Prince (Dan Duryea) chegar. Johnny é o típico vigarista de cidade grande: bon vivant, espertalhão, pronto para fazer qualquer coisa que seja necessário para ganhar dinheiro sem trabalhar. Juntos, mulher e homem vislumbram no pobre contador, que parece obcecado com a beleza de Kitty, uma vítima em potencial. Daí para que Chris comece a financiar os caprichos de Kitty (e, sem saber, de Johnny) é um pulo. A tragédia é iminente.

Durante a produção de “Almas Perversas”, Lang teve diversos problemas com o Hayes Office, o gabinete de censura imposto pelos estúdios de Hollywood. O roteiro teve que ser trabalhado à exaustão para que o filme jamais sugerisse que Kitty mantinha relações sexuais com qualquer um dos dois homens; a palavra “prostituta”, obviamente, não é mencionada uma única vez no longa-metragem, embora seja evidente que esta é a atividade da garota. Lang trata esse tema com sutileza impar, deixando tudo nas entrelinhas.

A culpa católica de Fritz Lang cai como uma luxa no enredo, e o contador vira rapidamente um personagem patético que cai em uma rotina indissolúvel de autopunição. Uma das grandes cenas enxertadas no enredo mostra Kitty obrigando Chris, o artista fracassado, a pintar humildemente as unhas dos pés da garota (“Pinte minhas unhas”, ordena a garota, numa cena que escandalizou os moralistas). Uma ousadia impagável de que Fritz Lang se incumbe com competência, já que o trabalho visual de “Almas Perversas”, como se espera, é maravilhoso. Joan Bennett jamais pareceu tão bela e perigosa quanto neste longa-metragem, e a paisagem lunar do rosto culpado de Edward G. Robinson coroa a película com chave de ouro. O desempenho de Robinson inspiraria outra atuação de gala, décadas mais tarde – a de Billy Bob Thornton em “O Homem que Não Estava Lá”, dos irmãos Joel e Ethan Coen.

Embora os problemas do filme com a censura tenham prejudicado a carreira da película nos cinemas, “Almas Perversas” adquiriu, com o passar do tempo, uma aura cult, e continua a ser muito apreciado pelos admiradores do gênero. Trata-se, afinal, de uma das obras noir a trabalhar de forma mais pura os conceitos fundamentais do gênero, como a mulher fatal e as rasteiras traiçoeiras que o destino dá naqueles que nasceram para serem derrotados, como acredita Chris Cross. Nesse sentido, só nos resta admirar a coragem e a inventividade do diretor ao bolar um final tão amargo quanto o deste filme.

O DVD da Aurora é limpo, sem extras, mas contém uma cópia decente do filme, com boa qualidade de imagem (1.33:1, formato original da época) e som (Dolby Digital 1.0, remasterizado).

– Almas Perversas (Scarlet Street, EUA, 1945)
Direção: Fritz Lang
Elenco: Edward G. Robinson, Joan Bennett, Dan Duryea, Margaret Lindsay
Duração: 103 minutos

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