Alpha Dog

24/10/2007 | Categoria: Críticas

Nick Cassavetes reconstitui crime brutal entre adolescentes com vigor, mas comete erros de montagem e exageros

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O caso real que inspirou a realização de “Alpha Dog” (EUA, 2006) faz parte da galeria de histórias extraordinárias, que um roteirista teria dificuldades em conceber: o seqüestro amador de um inofensivo estudante adolescente, num subúrbio rico de Los Angeles (EUA), por um grupo de poderosos traficantes de drogas da região. Seqüestro amador parece um conceito incompreensível? É que os criminosos em questão não eram bandidos profissionais, mas jovens playboys mimados, filhinhos de papai que mexiam com pó e maconha, e que desencadearam uma série de atos irresponsáveis, apesar de aparentemente inofensivos, cuja cadeia de eventos culminou com um ato brutal e desalmado, transformando a rixa pessoal entre dois deles num ato de crueldade que chocou um país.

O próprio nome verdadeiro do protagonista do caso real (não mencionado no filme) é sintomático: Jesse James Hollywood, fusão entre o nome de um dos bandidos mais míticos do Velho Oeste com o símbolo mais poderoso da cultura de celebridades que é parte crucial do american way of life contemporâneo. O rapaz loiro, rico e bonitão, que fez fortuna vendendo maconha, reuniu em torno de si uma gangue de pequenos criminosos, todos ricos consumidores de drogas e amantes de festas loucas. Após cinco anos de pesquisas, o diretor Nick Cassavetes montou uma reconstituição precisa dos três dias em que Hollywood teve o status alterado de traficante juvenil, operando abaixo do radar da polícia anti-drogas dos EUA, a mais jovem integrante da lista de criminosos mais procurados do FBI. De quebra, o cineasta conseguiu realizar um painel assustador do estilo de vida da juventude contemporânea.

A maior virtude de “Alpha Dog” é a maneira meticulosa como Cassavetes conseguiu reconstituir o caso, enfatizando especialmente o modo como um crime aparentemente inofensivo – um seqüestro improvisado, amador e irresponsável, que contou inclusive com o consentimento da vítima – se transformou numa tragédia de grandes proporções. Todo o tempo gasto na pesquisa do caso, que incluiu acesso irrestrito a depoimentos de testemunhas e acusados, transparece no enorme número de detalhes inseridos na trama. Visto dessa forma, “Alpha Dog” se transforma num documento que denuncia a alienação de uma parcela importante da juventude atual, bem como o abismo cultural que separa estes jovens, hedonistas ao extremo, dos pais, mostrados como permissivos, distantes e desinteressados em construir uma educação concreta para os filhos.

Ameaçado de sofrer processos judiciais tanto por parte dos acusados quanto pela Justiça de Los Angeles (o promotor que liberou documentos do processo para que o cineasta os consultasse acabou punido pelo ato), Cassavetes se esquivou do problema substituindo os nomes verdadeiros por fictícios. A técnica de reconstituir o episódio de forma minuciosa, porém, aproxima este filme de obras como “Vôo United 93” (2006), emblemático exemplar deste tipo de ficção que emula o documentário. No afã de dar ao filme um tom documental, Cassavetes chegou até mesmo a gravar depoimentos em formato jornalístico com os atores que interpretam personagens, o que acaba se revelando uma das mais graves falhas da produção.

“Alpha Dog” não alcança a qualidade do longa de Paul Greengrass. Curioso é que muita gente deve ver a razão da derrapada como virtude: o excesso de energia que o diretor põe no retrato da vida da juventude burguesa e alienada de Los Angeles. O retrato que daí emerge é excessivo, quase caricatural – os meninos são cobertos de tatuagens da cabeça aos pés, as meninas enchem a cara e fazem surubas como se chupassem pirulitos. A música agressiva martela os alto-falantes sem qualquer espaço para sutilezas, enquanto os personagens metralham nada menos do que 310 vezes a palavra “fuck”, uma a cada 20 segundos de projeção.

Evidentemente, há pontos positivos nesta abordagem repleta de energia cinética. O maior deles recai sobre as performances de Justin Timberlake (o moleque de miolo mole cuja responsabilidade é cuidar do seqüestrado, e o faz levando-o para uma farra de bebida e sexo) e Ben Foster (intérprete do irmão barra-pesada do seqüestrado), ambos captando perfeitamente o ritmo de selvageria urbana proposto por Cassavetes. Por outro lado, a montagem parece hesitante, apresentando quase todo o filme de forma objetiva e cronológica, mas inserindo em alguns trechos os já citados depoimentos falsos de testemunhas. Não há motivo plausível para tal procedimento, que quebra inteiramente a credibilidade pretendida pelo filme. Uma pena.

O DVD nacional, da Swen Filmes, é simples e sem extras. A imagem (widescreen anamórfica) tem boa qualidade, assim como o áudio (Dolby Digital 5.1).

– Alpha Dog (EUA, 2006)
Direção: Nick Cassavetes
Elenco: Emile Hirsch, Justin Timberlake, Anton Yelchin, Ben Foster
Duração: 117 minutos

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