Alta Fidelidade

08/02/2004 | Categoria: Críticas

Geração masculina dos anos 1990 ganha retrato sensível e inteligente pelas mãos de Stephen Frears

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O romance “High Fidelity” foi lançado em 1995, na Inglaterra, e virou clássico instantâneo. Publicado no Brasil no fim de 1998, pela editora Rocco, com o título de “Alta Fidelidade”, nunca chegou a atingir as listas de mais vendidos, mas ultrapassou a marca de 12 mil cópias. O livro acabou virando cult, graças ao charme de estar povoado de referências musicais de boa qualidade. Desse modo, pavimentou o caminho para uma transposição cinematográfica tão cultuada quanto o romance. “Alta Fidelidade” (High Fidelity, EUA/Inglaterra, 2000) é a prova definitiva do ótimo faro do ator/produtor/roteirista John Cusack para projetos bacanas.

O filme tem o mérito de reproduzir fielmente o estilo do pequeno clássico do inglês Nick Hornby. Colecionou elogios por onde passou e rendeu mais de US$ 30 milhões apenas nos EUA. À moda de “Procura-se Amy” (uma estranha tragédia/comédia que discute a geração X, filtrada através da ótica da cultura pop), “Alta Fidelidade” acerta em cheio o alvo que o autor do livro queria atingir: apresentar o confuso e tardio amadurecimento emocional de um sujeito de 30 e poucos anos que, como uma espécie de Peter Pan do novo milênio, se recusa a crescer. “Hoje em dia, não há razão para amadurecer se você não quiser. Dá para qualquer um passar a vida inteira agindo como adolescente”, explica Hornby.

Para ilustrar sua teoria, Nick criou Rob Fleming: um cara espirituoso, esperto e sem grandes ambições, além de ter uma namorada gente boa e ouvir música. Dono de uma loja de vinis raros num subúrbio inglês, Rob mata o tempo fazendo intermináveis listas de cinco mais (“as cinco músicas que eu quero ouvir no meu enterro”, por exemplo). Seus companheiros nessa rotina estressante são os vendedores de discos Barry (Jack Black, ótimo), um gordinho barulhento e francamente chato; e o tímido Dick (Todd Louiso, melhor ainda). A vida de Rob vem abaixo quando ele é chutado pela namorada, Laura (a dinamarquesa Iben Hjejle). E é a partir de mais uma de suas listas malucas (“os cinco foras mais dolorosos da minha vida”) que ele se vê obrigado a tomar a decisão – meio inconsciente, é verdade – de amadurecer.

Como se vê, o clássico tema da dolorosa passagem para a vida adulta ganha uma atualização para os anos 1990 que não poderia ser mais espirituosa. O filme, dirigido pelo ótimo Stephen Frears, consegue ser engraçado e trágico ao mesmo tempo, capturando com alta fidelidade (sem, ou melhor, com trocadilho) o espírito do romance. É uma rara película que fala diretamente ao coração de toda uma geração, realizando uma crítica bem humorada da superficialidade que permeia as relações humanas na atualidade.

A versão cinematográfica já nasce como uma pérola porque é possível ouvir todas aquelas canções clássicas que dá vontade de comprar, ao ler o livro. Adquirido inicialmente pelo diretor Mike Newell (de “Quatro Casamentos e Um Funeral”), em 1998, o projeto acabou nas mãos do ator John Cusack, que assumiu o leme através de sua produtora, a New Crime. Cusack convidou os parceiros D.V. De Vicentis e Steve Pink para trabalhar junto com ele no roteiro e chamou o inglês Stephen Frears (com quem havia trabalhado em “Os Imorais”) para dirigir a película. Frears aceitou na hora.

O trabalho de transpor o romance para as telas não foi grande, segundo Cusack. Apenas alguns ajustes foram feitos: nofilme, o sobrenome do protagonista vira Gordon e a história se passa na ensolarada Chicago (EUA), no meio dos anos 90 – dez anos depois da ação original do livro. “Quando li o romance, podia me identificar com cada situação e imaginar cada um dos locais onde filmaria as cenas. A história é um dilema universal”, explica o ator, numa entrevista que vem como bônus do DVD do filme. Hornby concorda: “As pessoas lêem o livro no Brasil, na Austrália ou na França e se identificam da mesma forma”, diz.

Ajustar a parte musical foi ainda mais fácil. Além das dezenas de citações e referências já existentes no livro, Cusack trabalhou duro para atualizar a história nos mínimos detalhes. Assim, os fanáticos pela cultura pop dos anos 90 vão encontrar um banquete de diálogos sobre o novo disco dos escoceses Belle & Sebastian; sobre a influência do Stiff Little Fingers no som pop-punk do Green Day; sobre os CDs dos alternativos Beta Band e Stereolab; além de pôsteres de Pavement e logotipos da gravadora fundo-de-quintal-que-sempre-lança-coisa-boa Touch and Go, tudo espalhado pelos cenários. Além disso, Stephen Frears escolheu um formato narrativo diferente, que permitiu a utilização de nada menos que 60 canções, de Elton John a Stevie Wonder, de Peter Frampton a Marvin Gaye. Tudo isso sem atrapalhar a fluência narrativa da obra.

Apesar de eclética e instigante, a trilha sonora não tira nunca de foco a questão central do filme: como um sujeito que se recusa a amadurecer pode analisar e compreender seu próprio histórico de relacionamentos tumultuados sem encarar uma grande dor? Como superar a tradicional insegurança masculina? Aí é o grande problema, algo que o personagem de John Cusack leva um tempão para perceber – não dá para crescer sem sofrimento. E é entre trancos e barrancos, entre cenas patéticas de ciúmes e traições, que Rob Gordon procura reconquistar Laura e a auto-estima perdida, depois de levar muitas porradas sem saber direito de onde elas vêm.

Vale ressaltar que Stephen Frears dá um show de direção sem precisar utilizar recursos pirotécnicos, usando e abusando de uma velha técnica que aqui funciona maravilhosamente bem: ao invés de contar a história através de uma narração em off, John Cusack interage com o espectador, falando diretamente para a câmera e fazendo flashbacks na história o tempo inteiro, sem que a gente perca o fio da meada. Ainda por cima, “Alta Fidelidade” traz astros em pontas impagáveis (Tim Robbins faz um riponga zen; Joan Cusack aparece como amiga de Rob; Catherine Zeta-Jones interpreta uma das antigas namoradas; e Bruce Springsteen surge como ele mesmo, numa cena genial). Despretensioso, otimista, divertido, ousado e cheio de canções de primeira – dá para esperar mais de um filme?

O DVD nacional tem 25 minutos de entrevistas com Cusack e Frears, em que eles explicam detalhes sobre a adaptação do livro. Além disso, há nove cenas cortadas da edição final, incluindo uma longa e deliciosa (presente no livro), em que o vendedor de discos Cusack negocia uma coleção imperdível de raridades em vinil com uma mulher abandonada e magoada. Infelizmente, não há legendas nesse material, e as imagens estão em tela cheia. Mas é um disco que vale a pena.

– Alta Fidelidade (High Fidelity, EUA/Inglaterra, 2000)
Direção: Stephen Frears
Elenco: John Cusack, Jack Black, Todd Louiso, Iben Hjejle
Duração: 107 minutos

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