Alta Tensão

15/04/2007 | Categoria: Críticas

Filme francês faz sucesso com história simples e suspense concentrado ao máximo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Enquanto nos Estados Unidos o gênero do cinema de horror sofre mutações consecutivas, mesclando-se com comédias e tornando-se produções cada vez mais adolescentes, na Europa e na Ásia a indústria cinematográfica segue o caminho inverso: filmes B, de baixo orçamento, com uso cada vez mais exagerado de violência gráfica, o mais explícita possível, e tramas simples e curtas, feitas sob medida para mexer com os nervos do espectador. “Alta Tensão” (Haute Tension, França, 2003) é um bom exemplar desse tipo de cinema. O filme do jovem cineasta Alejandro Aja faz jus ao título original; é uma gema concentrada de tensão que explode, aqui e acolá, em rompantes de fúria assassina capazes de fazer muita gente esconder os olhos quando o sangue, literalmente, espirra na câmera, manchando tudo de vermelho.

“Alta Tensão” possui um enredo econômico até o osso: um assassino serial implacável invade a casa de uma família na zona rural de uma pequena cidade francesa, mata todo mundo e deixa apenas duas garotas com vida. Uma delas, Alexis (Maïwenn Le Besco), é torturada e “guardada” como troféu pelo criminoso. A outra, Marie (Cécile de France, a garota lésbica da comédia “Albergue Espanhol”), consegue fugir das vistas do assassino, e tenta a todo custo livrar a morte da amiga.

A abertura do filme é curta e grossa, e coloca o espectador diretamente dentro da trama. As duas amigas são mostradas na estrada. Elas estão indo para o campo, à casa da família de Alex, a fim de estudar em paz. Chegam no começo da noite, Marie conhece as pessoas e a casa, e todos vão dormir. Em paralelo, a narrativa apresenta o assassino, em uma violenta seqüência inicial que inclui uma cabeça decepada e remete ao estilo gore dos filmes de Mario Bava e Lucio Fulci, uma influência óbvia do diretor Alejandro Aja. Não por coincidência, a maquiagem do filme é de responsabilidade de Gianneto de Rossi, antigo colaborador dos italianos.

De madrugada, a campainha da casa toca sem aviso, e de repente o inferno invade a vida de todos lá dentro, inclusive os animais. Marie só consegue escapar porque o quarto dela ainda não foi desarrumado. Ela atua então como os olhos da platéia dentro do filme; é uma espectadora passiva, tentando se esconder a todo custo. As mortes são mostradas com riqueza de detalhes. Um destaque importante do filme é o visual bem elaborado, com enquadramentos caprichados (a morte da dona da casa acontece em uma cena especialmente intensa), movimentos de câmera originais (perceba, por exemplo, o uso da grua na excelente tomada que mostra o assassino saindo de carro, após o massacre) e uso de cores bem sofisticado.

Aja não comete o erro de tentar esticar a narrativa além do que ela suporta, o que poderia suavizar o enredo e criar momentos mornos dentro do filme. Ele prefere comprimir a tensão numa narrativa quase em tempo real (ou seja, o tempo de duração do filme é quase igual ao tempo que decorre do lado de cá da tela), o que gera suspense aos borbotões, não permitindo que o espectador relaxe por um só instante. Cena após cena, acompanhamos Marie com a respiração presa, torcendo para que o assassino não a descubra e complete o banho de sangue. A identificação entre platéia e Marie é total.

Como sempre acontece nesses casos, em certos momentos o filme recorre a seqüências-clichê do gênero. Não falta, por exemplo, a cena em que o criminoso vasculha um quarto, enquanto a vítima se esconde embaixo da cama (alguém pode explicar porque serial killers nunca olham embaixo delas?). Também bate ponto o momento em que o meliante, machado nas mãos, abre uma a uma as cabines de um banheiro público, menos a última, justamente aquela que abriga a pobre coitada que foge dele. Talvez devido ao suspense sempre no limite, ou talvez por causa da violência generosa, em “Alta Tensão” esses momentos até que não soam tão banais.

O grande problema do filme é o final, que conta com a já tradicional reviravolta surpreendente. Dessa vez, o segredo que a narrativa esconde é realmente grande, mas apenas porque ele chega sem o menor traço de lógica, tornando inverossímeis muitos dos momentos previamente exibidos. Em tese, “Alta Tensão” deveria provocar na platéia o que filmes como “O Sexto Sentido” conseguiram: a necessidade irreprimível de ver tudo de novo, para observar as pistas que escaparam na primeira conferida. Nesse caso, porém, há apenas duas ou três seqüências que apontam para a reviravolta no final. A maior parte do filme simplesmente desaba quando confrontado com a revelação do fim. Se a tensão gerada pelos dois terços iniciais de “Alta Tensão” não fosse tão forte, o longa-metragem não valeria a pena.

A Europa Filmes lançou o filme em duas edições. A simples tem enquadramento correto (wide anamórfico), trilha de áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0) e nada de extras. A versão dupla conta comentários em áudio, documentários de bastidores e cenas cortadas.

– Alta Tensão (Haute Tension, França, 2003)
Direção: Alexandre Aja
Elenco: Cécile de France, Maïwenn Le Besco, Phillippe Nahon, Franck Khalfoun
Duração: 85 minutos

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