Amaldiçoados

05/11/2005 | Categoria: Críticas

Dupla de cineastas da série ‘Pânico’ faz filme de lobisomem adolescente revisitando clichês do gênero

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

A moda é realmente uma faca de dois gumes. Em meados dos anos 1990, o diretor Wes Craven (da série “A Hora do Pesadelo”) foi saudado como renovador do gênero terror ao inserir um pouco de humor e outro tanto de metalinguagem (ou seja, referências em forma de paródias aos clichês do gênero) nos filmes que fazia, como a série “Pânico”. Uma década depois, a brincadeira fílmica do diretor com lobisomens, chamada “Amaldiçoados” (Cursed, EUA, 2005), foi recebida como representante de um gênero em decadência. O motivo: o produto quente do momento, para a indústria cinematográfica, é o horror japonês, com ênfase na atmosfera sinistra e sem risadas.

É interessante notar que o estilo de Wes Craven envelheceu sem que o diretor fizesse nele qualquer mudança significativa. A associação com o roteirista Kevin Williamson (co-responsável pela série “Pânico”) continua. A preferência pelo universo adolescente também. Há humor, cenas de ação que não empolgam mas também não fazem feio, e o já tradicional jogo “quem é o culpado?”, uma das fórmulas que mais deram certo nos três “Pânico”. Craven não é um dos mais criativos diretores de cinema de horror. Nunca foi. Na verdade, o que mudou foi o sabor de novidade dos seus filmes, que já não é o mesmo.

”Amaldiçoados” conta a história de dois irmãos, Jake (Joshua Jackson) e Ellie (Christina Ricci), atacados por um lobisomem na lendária estrada de Mulholland Drive, no topo das montanhas de Hollywood (você deve lembrar do filme de David Lynch com o mesmo nome da avenida, chamado no Brasil de “Cidade dos Sonhos”). Quando os sinais da maldição começam a aparecer, os dois correm contra o tempo para tentar descobrir a identidade do lobisomem, a fim de eliminá-lo e encerrar o problema. Enquanto isso, procuram esconder dos amigos as mudanças por que passam.

O roteiro de Williamson é o ponto fraco do filme. O roteirista revisita, de forma burocrática e pouco inspirada, um mundo que lhe é familiar: o universo adolescente das escolas de segundo grau norte-americanas. Só que esse universo, que serve como cenário secundário da ação narrativa, é estereotipado e superficial. Isso significa um amontoado de clichês de filmes para garotos: há o valentão que esnoba e bate no protagonista, o herói medroso e fracote que ganha coragem aos poucos, as meninas gostosas e vadias que atuam como cherleeders e detalhes que já cansamos de ver em filmes do gênero.

Um elemento curioso, no filme, é que ele está repleto de referências evidentes ao submundo gay. Um dos personagens, como a platéia vai descobrir, é um homossexual enrustido. O subtexto faz também um paralelo curioso da maldição do lobisomem com a Aids, interpretando a transformação do homem em lobo como uma espécie de praga que os condena a viver à margem da sociedade. Essa visão da Aids é estranha, vinda de um roteirista que faz militância homossexual. Talvez Williamson quisesse denunciar o preconceito, mas se era isso que pretendia, falhou na tarefa; seu texto reflete o mesmo preconceito que deseja, em tese, combater.

Outro detalhe comum nos trabalhos da dupla Craven/Williamson que reaparece em “Amaldiçoados” é a grande quantidade de referências intertextuais ao mundo do cinema. Uma das seqüências de ação mais interessantes acontece dentro de uma boate cuja decoração é composta por estátuas e adereços de filmes de horror clássico. Estão lá o Drácula de Boris Karloff, o Frankenstein do mesmo ator e, claro, o Lobisomem de Lon Chaney. Um dos ambientes do bar, onde a briga entre mocinhos e criatura começa de verdade, é uma sala de espelhos evidentemente baseada na antológica seqüência final de “A Dama de Shangai”. É provável que o público adolescente que o filme visa atingir não reconheça as referências, mas elas estão lá.

Sabe-se que a produção de “Amaldiçoados”, que leva a assinatura de Kevin Williamson, foi tumultuada. O estúdio não gostou do resultado final, e Wes Craven foi obrigado a filmar cenas adicionais, além de fazer uma nova edição, o que atrasou o lançamento em mais de um ano. É possível que as alterações tenham piorado o resultado pretendido pela dupla de “Pânico”, mas isso não redime nem um pouco os pecados do filme. “Amaldiçoados” é um filme de horror que não assusta ninguém, e isso é algo que um cineasta especialista no gênero jamais gostaria de ouvir. Se gosta do gênero, fique com ““Cães de Caça” ou o clássico “Um Lobisomem Americano em Londres”.

O lançamento em DVD é da Europa Filmes. O disco não contém extras, mas preserva o aspecto original da imagem (wide anamórfico) e tem trilha de áudio de boa qualidade (Dolby Digital 5.1).

– Amaldiçoados (Cursed, EUA, 2005)
Direção: Wes Craven
Elenco: Christina Ricci, Joshua Jackson, Shannon Elizabeth, Portia de Rossi
Duração: 97 minutos

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