Amantes

26/08/2009 | Categoria: Críticas

James Gray trabalha uma dicotomia central da condição humana – a oposição entre razão e emoção – com enorme delicadeza e senso de mistério

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Relações afetivas em geral podem ser, através de um processo de simplificação um tanto grosseiro, relacionadas em duas categorias gerais. Existem as paixões puramente emocionais, aquelas mais cegas e dolorosas. Essas ardem como fogo, paralisam, preenchem todos os espaços, parecem sufocar quem as sente; resistir a elas é quase impossível. E há as paixões racionais, mais frias e cerebrais, que se constroem aos poucos, de forma mais pensada, calculada. Esses dois amores expõem uma dicotomia central da condição humana: a oposição entre razão e emoção. “Amantes” (Two Lovers, EUA, 2008) trabalha essa dicotomia tão fundamental, e no entanto de abordagem tão rara no meio audiovisual. É a história de um homem dividido entre duas mulheres.

Leonard (Joaquin Phoenix) vive no subúrbio de Nova York e trabalha em um negócio familiar. Seus pais possuem uma pequena lavanderia, negócio que ele ainda não está emocionalmente pronto para assumir. Aliás, o melancólico Leonard não parece pronto a assumir nada, nem mesmo as rédeas da própria vida, desde que levou um tremendo pé na bunda, dois anos antes. E eis que de repente, na mesma semana, após meses de solidão e dor, duas garotas de perfis distintos entram na vida dele. A primeira é a filha de outra família judia do mesmo ramo, Sandra (Vinessa Shaw). A outra é uma nova vizinha, Michelle (Gwyneth Paltrow). Sem saber uma da outra, elas vão pôr a cabeça de Leonard em parafuso.

Michelle representa a emoção, a paixão cega e alucinada. É uma garota problemática, enredada em um relacionamento com um homem casado (Elias Koteas) que lhe faz mal tremendo, e que vê em Leonard um confidente em potencial. Sandra é o oposto. Morena, tímida e decidida, ela simpatiza com Leonard logo no primeiro encontro – um desconfortável jantar entre famílias – e não hesita em usar o telefone para deixar claro que ele lhe interessa em nível pessoal. As duas famílias, que já discutem uma possível fusão nos negócios, veriam com simpatia a possibilidade de um namoro. Mas ninguém força a barra. Não existem vilões calculistas em “Amantes”. Apenas pessoas comuns, lidando com problemas comuns e situações dramáticas universais.

Em um melodrama, Sandra ou Michelle ou os pais (ou todos) seriam tratados como canalhas, estúpidos ou interesseiros. Sandra poderia ser a menina mimada e possessiva que quer o menino problemático do bairro só para si. Michelle poderia ser a loira gelada e maquiavélica a fim de enganar um trouxa enquanto continua a sair com o homem casado. Os pais poderiam ser velhos interesseiros lutando por um casamento entre filhos para manter as aparências financeiras. Mas “Amantes” não procura o melodrama. Ao invés disso, temos apenas seres humanos normais, gente confusa como nós, um grupo de pessoas envolvido em um intrincado jogo amoroso do qual somente Leonard tem consciência.

Jovem cinéfilo apaixonado pelo cinema da Itália dos anos 1960 (“Rocco e Seus Irmãos” é obra de cabeceira), James Gray assina aqui apenas o quarto filme em uma carreira que já tem 14 anos. É fácil entender porque ele filma tão pouco: porque os grandes estúdios não têm nenhum interesse em histórias humanas sobre gente confusa, narradas com um senso de delicadeza que somente grandes observadores da alma humana conseguem captar. É também por isso que Gray consegue atrair bons atores para projetos autorais sem grandes expectativas de bilheteria – Phoenix, por exemplo, trabalha com ele pela terceira vez.

Conduzindo a narrativa de forma clássica, sem qualquer malabarismo estilístico que chame a atenção para si mesmo, James Gray se mostra digno sucessor de grandes narradores invisíveis, à moda de Howard Hawks ou John Ford. Seu filme nem tem cara de filme. A história parece se desdobrar sozinha, naturalmente, sem uma única nota fora do lugar. E se o esqueleto dramático é universal e tão velho quanto o Big Bang, os personagens são imbatíveis: todos eles, do protagonista (Leonard está em todas as cenas, e o filme preserva seu ponto de vista inteiramente) aos menores coadjuvantes, são interessantes. Preservam um senso de mistério, um pequeno toque obscuro, que lhes dá vida autêntica fora do roteiro. Podemos imaginar todas essas pessoas vivendo para além do filme. Eles existem de verdade. Criações tão palpáveis são pequenas vitórias dos verdadeiros artistas.

Observadores mais atentos irão notar que a estética, claro, existe e está lá, nas imagens, nos sons, nos silêncios, mas sempre servindo à história e jamais se sobressaindo a ela. A paleta de cores escolhida – verdes e azuis escuros, tonalidades cinzentas – e a luz amorfa, cansada, parecem refletir a visão de mundo de Leonard naquele momento específico de sua vida. De quebra, James Gray filma sua vizinhança (todos os filmes dele são ambientados na mesma área judia de Nova York) com a honestidade e o conhecimento de uma locação real, sem o cheiro de naftalina de um estúdio. Também é preciso ressaltar a importância do tema “família” dentro da obra dele, algo já observado em filmes anteriores e, aqui, introduzido com sutileza no personagem da mãe, a única que percebe algo de diferente com o filho, e age como a mais lúcida das matriarcas.

Brindados com um roteiro tão sutil e inteligente, os atores deitam e rolam. Phoenix, que logo após as filmagens anunciou estar deixando a carreira, nunca parece menos do que perfeito. Rossellini, em papel curto, protagoniza talvez o momento mais emotivo do filme, uma curta troca de olhares silenciosos que diz mais do que todos os quinze finais de “O Senhor dos Anéis” juntos. E há, além disso, pelo menos um momento digno de inclusão em uma antologia dos grandes estudos de personagem: a luminosa visita de Leonard a uma boate em Manhattan, num curto episódio em que ele deixa antever uma faceta de sua personalidade que até então (e mesmo depois disso) permanece escondida sob uma densa camada de melancolia. Nesta cena brilhante, James Gray parece dizer que os melhores personagens do cinema não se resumem àqueles momentos em que os vemos na tela. Eles têm uma rica vida interior, e aquilo que podemos vislumbrar é apenas a ponta desse iceberg de experiências humanas fascinantes.

O DVD nacional carrega o selo PlayArte. O filme aparece com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Amantes (Two Lovers, EUA, 2008)
Direção: James Gray
Elenco: Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabella Rossellini
Duração: 110 minutos

| Mais
Tags:


Assine os feeds dos comentários deste texto


21 comentários
Comente! »