Amarcord

01/07/2004 | Categoria: Críticas

Fellini desafia narrativa clássica e celebra memórias de infância em filme inesquecível

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Alfonso Cuaron aprendeu direitinho a lição do mestre Federico Fellini. Quem assistiu a “Harry Potter e o Prisioneiro do Azkaban” deve ter percebido que o cineasta mexicano utiliza, no filme do bruxinho, um expediente simples, mas eficiente, para demarcar a passagem do tempo: cenas envolvendo uma árvore gigante que mexe os galhos como se fossem braços. Assim, sempre que a árvore aparece, algum sinal climático representa a chegada de uma nova estação do ano. As folhas secas caem (outono), a neve aparece (inverno) ou derrete (primavera), o sol aparece (verão). Dessa forma, quando o filme termina, a platéia sabe que a ação ocupa um ano inteiro.

A passagem das quatro estações é o fio condutor que amarra o afetuoso enredo de “Amarcord” (Itália, 1973), um dos grandes filmes de Fellini. “Amarcord” desafia a cartilha básica de Hollywood, desorganizando a compreensão que o espectador possui daquilo que deve ser um filme. Não tem, por exemplo, uma estrutura narrativa linear. Possui enredo fragmentado entre diversos personagens, sem um protagonista muito evidente. Afasta-se inclusive do cinema clássico italiano, chamado de neo-realismo, movimento cuja segunda geração teve em Fellini um dos principais nomes. “Amarcord” não tem nada de realista: é onírico, sonhador, nostálgico – e belíssimo.

A palavra que dá nome ao filme, em realidade, o explica melhor do que qualquer descrição; significa “eu me recordo”, em um dialeto falado numa região do país mediterrâneo chamada Romagna. “Amarcord” é, portanto, uma coleção das lembranças de infância de Federico Fellini. Na época, em 1973, o mestre italiano já era considerado um gênio, e a maior parte dos críticos acreditava que sua melhor fase havia passado. Fellini já estava, há algum tempo, desinteressado por cinema de narrativa tradicional. Somente uma coisa lhe interessava: quebrar regras. Daí o desprezo que a maior parte dos filmes que fez, de “A Doce Vida” em diante, pelas histórias tradicionais, com começo, meio e fim. “Amarcord” é, talvez, o ponto culminante dessa trajetória.

Fellini não era bobo nem louco. Cinema experimental, sem pé nem cabeça, não era com ele. Por isso, o mestre italiano tratou de dar uma unidade rigorosa ao roteiro de “Amarcord”. Fellini fez isso ancorando toda a ação em um tempo e em um espaço rígidos. O filme se passa dentro de um pequeno vilarejo italiano, no período exato de um ano, à época da Segunda Guerra Mundial (anos 1940). “Amarcord” começa com a chegada da primavera na cidadezinha, simbolizada em uma chuva de pétalas de flores que invade o vilarejo. E termina na mesma ocasião, só que um ano mais tarde. Assim, em 127 minutos, o espectador observa o cotidiano da pequena vila durante um ano exato.

O personagem mais freqüente, espécie de protagonista disfarçado, é o pequeno Titta (Bruno Zanin). Titta é o alter ego de Federico Fellini – é dele o ponto de vista do filme, embora isso jamais fique claro porque Fellini, como bom cineasta europeu, dispensa câmeras subjetivas e outros malabarismos de direção. “Amarcord” é uma celebração da memória afetiva de uma criança como o cinema jamais foi capaz de fazer, e um desfile inesquecível de personagens brilhantes: um acordeonista cego, um pai socialista, uma balzaquiana de curvas perfeitas, uma freira anã, uma vendedora de seios enormes, um tio louco. Nenhum deles tem muito tempo na tela, e poucos possuem cenas exclusivas, mas o foco de “Amarcord” não está no indivíduo; está no coletivo. A cidade inteira é orgânica, viva.

Com esse fascinante organismo coletivo, Fellini se dedica a narrar passagens inesquecíveis: o desfile fascista, a vitrola na torre da igreja que toca a Internacional Socialista e desafia os militares de Mussolini, o passeio pelo campo em que o tio louco se dependura em cima de uma árvore por horas a fio, a descoberta do sexo, as discussões familiares.

O ponto culminante do filme acontece durante a passagem de um gigantesco transatlântico pelo mar que margeia o vilarejo; os moradores sobem em barquinhos e lanchas e se mandam para o alto-mar, com lanches e refrigerantes, para ver o navio passar. Em instantes como esse, Fellini quase consegue fazer o tempo parar; o mar de papel celofane talvez seja uma das imagens mais poéticas que o cinema foi capaz de conceber.

Por causa desses momentos mágicos, “Amarcord” virou um mito cinematográfico. “Amarcord” é um sofro de vida, vista pelos olhos afetuosos e ingênuos de uma criança, e por isso um longa-metragem rejuvenescedor. Não é à toa que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1974 e influenciou tantos trabalhos posteriores (o celebrado “Cinema Paradiso”, por exemplo, não seria possível sem “Amarcord”). No DVD brasileiro, o filme vem sem extras. Mas isso não importa, pois é um programa imperdível.

– Amarcord (Itália, 1973)
Direção: Federico Fellini
Elenco: Bruno Zanin, Armando Brancia, Nando Orfei, Ciccio Ingrassia
Duração: 127 minutos

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