Amarelo Manga

07/03/2004 | Categoria: Críticas

Filme de Cláudio Assis provoca orgulho no recifense, mesmo exibindo a banda podre da cidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Para começar, o título é um raro achado. “Amarelo Manga”, o longa-metragem feito em Pernambuco e por pernambucanos, vem da lavra do poeta Renato Carneiro Campos. O texto, recitado no filme por um dos bêbados-filósofos que freqüentam o bar de Lígia (Leona Cavalli), encaixa à perfeição na proposta temática e estética do filme de Cláudio Assis. “Amarelo Manga”, o poema tanto quanto o filme, ressalta a poesia do grotesco. Urbano, pesado, rústico, o trabalho pode ser desigual, pode ter defeitos e exageros, mas permanece coerente com o universo que propõe até o último fotograma.

“Amarelo Manga” é uma resposta desafiadora aos que diziam (no Recife, a rigor, isso já faz parte da mística do diretor) que Cláudio Assis não sabe dirigir. Pode até não saber, mas fez um filme que tem a cara de si: a atração irresistível pelo grotesco, o amor pelos restos urbanos (tanto humanos quanto arquitetônicos), a linguagem cheia de ginga e palavrões, todos os elementos que fazem parte do cotidiano do diretor, tudo isso está no filme. No mínimo, Assis se cercou de colaboradores atentos a sutilezas, pois foi capaz de reproduzir em 35 milímetros um universo rico, palpável, pulsante. Isso é mérito do filme e ninguém tasca.

Esse mérito, aliás, precisa ser dividido. Em particular com o fotógrafo Walter Carvalho, que faz um trabalho estupendo na tradução do universo de Assis em imagens. A fotografia se afasta da estetização artificial (cortes rápidos, filtros de luz, efeitos visuais em abundância) que tem dominado a cinematografia nacional nos últimos tempos (“Cidade de Deus” e “Madame Satã” são bons exemplos, o último inclusive fotografado pelo mesmo Walter Carvalho). Em “Amarelo Manga”, a opção é por um realismo cru, que captura um Recife decadente, poluído. No Recife de “Amarelo Manga” a luz não brilha, e as sombras não significam mais do que a falta dela.

Os truques fotográficos para transmitir a crueza exigida pela história não param por aqui. Os planos são longos, sem exibicionismo. A câmera mal se move. Quando o faz é lentamente, como se o calor que transborda da tela e tinge os atores de suor a deixasse com preguiça. Isso é intencional: o ritmo lento transmite a idéia angustiante de impotência diante do destino, que é idéia central do filme. Outro ponto alto está na captação da luz, que emula perfeitamente a luminosidade do Nordeste. O filme transcorre no espaço de um dia inteiro, e é justamente a mudança da iluminação que dá à platéia a noção de tempo transcorrido. De manhã, a luz é esfuziante. À tarde, a luz enfraquece, mas as sombras não dominam a paisagem. À noite, só aí, a escuridão engole o bairro degradado da Boa Vista, onde acontece quase toda a ação.

Do ponto de vista narrativo, “Amarelo Manga” pertence à estirpe dos filmes de personagens múltiplos, como “Short Cuts” (Robert Altman) e “Magnólia” (Paul Thomas Anderson). O elo de ligação entre quase todos eles é o Texas Hotel, onde vivem e trabalham. Há um taxista necrófilo (Jonas Bloch), um cozinheiro gay (Matheus Nachtergaele), um açougueiro brigão (Chizo Diaz), uma dona de bar à beira da neurose (Leona Cavalli), uma velha cafetã asmática (Conceição Camarotti), uma crente em crise (Dirá Paes) e mais uma meia dúzia de pessoas, cada um levando sua vida do jeito que dá. O filósofo Gilles Deleuze diria que o filme confirma o que chamou, já em 1983, de “crise da imagem-ação”, quando o elemento coletivo engoliu o individual e, contraditoriamente, isolou cada homem, cada ser humano, na sua própria prisão particular, que é a vida.

O elenco também ajuda a transmitir a impotência, o imobilismo dos personagens. Embora Nachtergaele roube o filme mais uma vez, compondo uma bichinha afetada que se equilibra com maestria entre o cínico e o burlesco, todos os atores estão muito bem. Parte do mérito fica com o roteiro de Hilton Lacerda, que opera um pequeno milagre ao transpor a gíria popular – o filme é carregado de palavrões e vícios de linguagem típicos da periferia pernambucana – para o cinema. Assim, a classe média que entra nos Multiplex consegue entender perfeitamente cada frase dita pelos desvalidos que preenchem a tela.

Em certo sentido, “Amarelo Manga” poderia ter sido dirigido por Robert Altman, se ele tivesse nascido em Pernambuco. O foco central do filme, reforçado pela languidez da fotografia e pelo calor sufocante que emana da película, é a sensação de impotência. Cada personagem vive uma vidinha particular, sempre seguindo pulsões de sexo e morte. Sexo e morte são as únicas motivações de ações individuais, mas não levam a lugar nenhum. A estrutura circular do enredo e da narrativa é reproduzida, em pequena escala, na realidade de cada ser estampado na tela. Os personagens que tentam tomar as rédeas da própria vida não conseguem. Estão esmagados pelo peso dos próprios destinos. Algo como se os burgueses de “Short Cuts” falissem e viessem morar nos morros do Recife.

Talvez por isso, a personagem que constitui o verdadeiro foco narrativo do filme seja Lígia, a dona do bar (que, curiosamente, não faz parte do Texas Hotel). Esse detalhe é reforçado pela própria abertura do filme, um longo e virtuoso plano-seqüência com a câmera no alto, que mostra a loira acordando, vestindo a roupa e saindo do quarto para a sala, a fim de abrir as portas da birosca. A neurose de Lígia captura a angústia de saber que não decide o próprio destino. Em menor grau, essa característica reaparece, aqui e acolá, em todos os personagens, cujo coletivo é até menos brilhante do que o elemento individual. Uma pequena proeza, compor tantos e tão bons personagens em apenas 1h42 de filme.

Apesar disso tudo, “Amarelo Manga” tem alguns problemas. Há cenas francamente exageradas, como uma longa seqüência que se passa num açougue e deve revoltar a Sociedade Protetora dos Animais. Outros exageros do filme (cenas que envolvem um gato, uma escova de cabelos e um inalador para asma) podem chocar espectadores mais sensíveis, mas estão bem encaixados na proposta estética da poesia do grotesco, na narrativa crua que o longa propõe.

Mas a interrogação principal parece ser a mesma que responde a grande parte das críticas feitas aos filmes do período da retomada do cinema nacional (de 1994 para cá): onde está a classe média, a burguesia, o lado chique do Recife? Do modo como são mostrados, a periferia e o centro decadente da cidade parecem habitados tão e somente pelos miseráveis, que circulam, trabalham e vivem entre si, sem qualquer contato com alguém que pertença a outra classe social. Os personagens nem sequer cruzam na rua com vendedores de lojas e advogados, algo impossível de acontecer no Recife, já que essas duas ‘classes’ co-habitam o mesmo espaço urbano dos personagens do filme.

Nesse sentido, “Amarelo Manga” repete os fenômenos de “Cidade de Deus” e “Carandiru”, mostrando os desvalidos como uma espécie de experiência de laboratório, como um zoológico humano feito sob encomenda para a elite burguesa que, 100% ausente do filme, senta nas luxuosas cadeiras do cinema para dar uma espiada nos pobres, uma fauna tão exótica quanto marcianos ou escandinavos. O shopping center que está localizado a pouco mais de 500 metros do pátio de Santa cruz (a locação do Texas Hotel) nem aparece no filme.

De alguma forma, parece ser esse o maior – e até agora intransponível – dilema do cinema nacional contemporâneo. Os cineastas têm investigado o fenômeno da exclusão social com um microscópio potente, mas os suburbanos que enchem 90% da produção nacional do período não têm direito a voz. Eles não falam; são vistos e filtrados pelas lentes da burguesia consciente, que reclama e denuncia, mas sob um ponto de vista estrangeiro aos subalternos que protagonizam os filmes. Aliás, eles nem protagonizam; são interpretados por atores globais travestidos de pobres. O mais curioso, no caso de “Amarelo Manga”, é que os verdadeiros suburbanos aparecem em algumas seqüências do filme. Sempre calados, mudos, olhando para as câmeras, com olhares piedosos. Surgem sobretudo como recurso narrativo para demarcar o passar do tempo. Esse mutismo do subalterno é a bola da vez, o calcanhar de Aquiles, o problema maior que o cinema nacional precisa encarar de frente.

– Amarelo Manga (Brasil, 2003)
Direção: Cláudio Assis
Elenco: Matheus Nachtergaele, Jonas Bloch, Chico Diaz, Leona Cavalli, Dira Paes
Duração: 102 minutos
Censura: 18 anos

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