Amargo Pesadelo

04/12/2006 | Categoria: Críticas

Obra-prima do cinema de ação ilustra violento confronto entre caipiras e forasteiros da cidade grande

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Assistir a aventuras adultas dos anos 1970, como “Amargo Pesadelo” (Deliverance, EUA, 1972), evoca de imediato um sentimento meio inadequado de nostalgia. Não por causa do filme em si, que não é nada nostálgico, mas por fazer o espectador lembrar que naquele tempo esse gênero cinematográfico, hoje tão adolescente, comportava filmes tensos e raivosos, com personagens complexos e às voltas com problemas reais, além de doses perturbadoras de violência gráfica que buscavam realismo a todo custo. Produções de enredo simples, sim, mas que introduziam o espectador perfeitamente no clima de tensão e angústia que seus personagens viviam.

A produção de baixo orçamento (US$ 2 milhões) e politicamente incorreta de John Boorman narra uma aventura vivida por quatro sujeitos da cidade grande, em visita a uma área rural. A trama não poderia ser mais simples. Os personagens principais são quatro amigos que, ao receberem a notícia da construção de uma represa na Georgia (EUA), decidem descer de caiaque, pela última vez, o grande rio que corta a mata fechada da região. O curso d’água desaparecerá assim que as primeiras explosões forem ouvidas no vale. A viagem atlética dos amigos foi montada como despedida daquele cenário idílico, que está pronto para morrer.

Na teoria, a farra seria mera desculpa para três dias de bebedeira e banhos de rio, mas aos poucos acaba se revelando uma viagem bem diferente, muito mais violenta e perigosa. Ocorre que os viajantes da cidade grande encontram no lugar uma comunidade não muito satisfeita por estar com os dias contados, que vê neles a personificação dos malvados forasteiros responsáveis pela destruição do vale. A mensagem nas entrelinhas é clara como a água do rio: a chegada daqueles quatro desajeitados ao paraíso da natureza representa a invasão de um ambiente puro pela sujeira da civilização. Do seu modo implacável, evidentemente, a natureza vai reagir, o que na história significa um confronto sangrento com um grupo de caipiras nem um pouco inofensivos.

Boorman abre o filme com uma brilhante seqüência que apresenta os personagens e, ao mesmo tempo, toca no coração do tema abordado, introduzindo um toque dissonante de tensão que só vai crescer. Os quatro amigos acabam de chegar a um posto de gasolina que parece abandonado. São atendidos por um velho morador da região. Irritantemente bem-humorados, eles zoam da cara do sujeito, e assistem meio entediados a um estranho duelo musical entre o integrante do grupo que toca violão (Ronny Cox) e um garoto com deficiência mental. Os forasteiros são gente normal para os padrões urbanos. Para eles, os nativos são gente exótica, gente inferior, com quem não guardam semelhança.

O que eles não percebem é que os caipiras também não estão nada à vontade com aqueles tipos da cidade. Para piorar as coisas, o comportamento dos urbanóides – como se fossem os donos do pedaço – não é muito saudável. Um confronto é apenas questão de tempo. E ele vem, mergulhando os quatro amigos em uma espiral de dor e medo, tudo filmado com tremendo realismo por Boorman. Da alegria meio histérica das primeiras corredeiras percorridas de barco aos porres homéricos à luz de fogueiras, da escuridão congelante da floresta à noite ao terror de ver todo o planejamento ir água abaixo devido a um incidente trivial, o filme é obra-prima do cinema de ação, do começo ao fim.

A fotografia maravilhosa, que realça o caráter sinistro e ameaçador da paisagem belíssima através do uso de sombras e tonalidades verde-escuras, é de Vilmos Szigmond, um dos maiores profissionais do ramo. O elenco também está soberbo – Burt Reynolds brilha como um homem da cidade com alma de caçador, John Voight provoca arrepios com sua personificação realista de sujeito civilizado obrigado a se tornar um bárbaro para reagir à violência com mais violência, e Ned Beatty, estreando no cinema, protagoniza uma das cenas de violência sexual mais pesadas vistas em um filme comercial.

“Amargo Pesadelo” é filme-irmão de outra obra espetacular dos anos 1970 sobre confrontos violentos entre caipiras e forasteiros da cidade: “Sob o Domínio do Medo” (1971), de Sam Peckinpah. O que pouca gente sabe é que de fato há uma ligação entre as duas produções. Peckinpah esteve interessado em dirigir “Amargo Pesadelo”, e tentou comprar os direitos do livro no qual o filme é baseado, mas Boorman chegou primeiro. Sem ter o que fazer, o poeta da violência bolou sua própria história e foi dirigir Dustin Hoffman em “Sob o Domínio do Medo”. Ganhamos nós, espectadores, que ficamos com dois filmes magistrais sobre o eterno embate civilização x natureza.

O filme foi lançado no Brasil em DVD pela Warner, em 1999, e é bastante difícil de encontrar em locadoras. A versão é simples e sem extras, contendo uma cópia apenas razoável do filme, com imagem cortada nas laterais (fullscreen) e som OK (Dolby Digital 5.1).

– Amargo Pesadelo (Deliverance, EUA, 1972)
Direção: John Boorman
Elenco: Jon Voight, Burt Reynolds, Ned Beatty, Ronny Cox
Duração: 109 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »