Amigo Americano, O

09/06/2006 | Categoria: Críticas

Wim Wenders faz declaração de amor ao cinema marginal travestida de thriller metafísico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O vigarista Tom Ripley, criação da escritora norte-americana Patricia Highsmith, já teve quatro encarnações no cinema. Nas três mais conhecidas, foi interpretado pelos atores Alain Delon, Matt Damon e John Malkovich, em grandes produções. Mas a tarefa de transformar o personagem em uma criatura cinematográfica fascinante e ambígua, verdadeiro ponto de interrogação humano, coube ao pequeno e pouco conhecido suspense alemão “O Amigo Americano” (Der Amerikanische Freund, Alemanha, 1977). O filme é, ao mesmo tempo, uma declaração de amor ao cinema marginal, travestida de thriller metafísico, e um excelente estudo de personagem.

A obra marcou o início de uma transição pessoal e profissional para o cineasta Wim Wenders. Fascinado desde sempre pela cultura e pela paisagem visual norte-americana, Wenders utilizou a produção para aproximar a já sólida e respeitada obra que desenvolvia na Alemanha deste olhar dirigido à América do Norte. “O Amigo Americano” é, portanto, o primeiro filme em que Wenders tornou explícito este fascínio pelo país, criando uma estrutura narrativa de suspense (gênero norte-americano por excelência), chamando diretores ianques para interpretar vários papéis e pondo Tom Ripley (Dennis Hopper) para vestir um símbolo visual tão curioso quanto marcante: um chapéu de vaqueiro.

O artefato, comum nas ruas do Texas ou da Califórnia (estados que ficam no oeste dos EUA, região muito celebrada por Wenders em filmes posteriores, como “Paris, Texas” e “A Estrela Solitária”), dá a Ripley um ar excêntrico, quase alienígena, quando este passeia pelas ruas decadentes das grandes cidades alemãs. Aliás, o rústico chapéu de Ripley pouco tem a ver com o sofisticado almofadinha descrito nos romances de Patricia Highsmith; é um toque pessoal acrescentado por Wenders, que também escreveu o roteiro, ao personagem.

Se a princípio a existência do chapéu parece deslocada para um homem tão grã-fino, assistindo ao filme se percebe aonde o diretor alemão queria chegar. Wenders vê Tom Ripley como um homem que pertence ao mundo, um sujeito globalizado, mas ainda assim um norte-americano típico, que precisa se sentir em casa de alguma forma – daí o chapéu. Ripley é, também, uma espécie de fantasma, uma eminência parda, alguém que age sempre nos bastidores, precipitando os acontecimentos sem participar deles diretamente. Por isso, sequer pode ser chamado de protagonista do filme, pois embora seja a pessoa que põe a ação principal em marcha, ele pouco participa dela. É um falso protagonista.

O verdadeiro personagem principal de “O Amigo Americano” é o artesão Jonathan Zimmermann (Bruno Ganz). Ele é um homem pacato e de índole familiar que possui uma oficina artesanal em Hamburgo, onde vive com mulher e filho, construindo molduras de quadros. Quando Ripley ouve dizer que o artesão possui leucemia e está condenado à morte, repassa a informação a um gângster (Gerard Blain) a quem deve um favor. O bandido usará a informação para tentar convencer Jonathan a cometer um assassinato para ele. A proposta é pagar 250 mil marcos e, assim, garantir o futuro da família do artesão. Sem saber, Jonathan mergulha em uma trama cheia de segredos, mentiras e reviravoltas.

Trata-se de um filme impregnado de amor ao cinema, especialmente o cinema antigo e de índole marginal. Para começar, Wenders chamou sete diretores para fazer pontas, incluindo vários nomes malditos (alguns norte-americanos), como Samuel Fuller e Nicholas Ray. Além disso, artefatos que lembram formas pré-históricas de cinema aparecem em diversas cenas do longa-metragem (o carrossel do filho de Jonathan, lanternas mágicas). Interessante, também, é o retrato da Alemanha proposto pelo diretor – um lugar meio triste, de casas com rebocos caindo aos pedaços e ruas molhadas. É natural, já que na época o país europeu estava dividido em dois pedaços, o Ocidental (capitalista) e o Oriental (comunista).

A atuação de Bruno Ganz, um ator-fetiche para Wenders (ele faria, anos depois, um dos anjos em “Asas do Desejo”), é espetacular, e enriquece bastante o já fascinante dilema moral do personagem. Observe, por exemplo, a cena em que Jonathan acorda de manhã cedo e observa silenciosamente as pequenas coisas da vida: o barulhos dos pássaros, a brisa marinha, o sono tranqüilo do filho e da mulher. São detalhes que tomam enorme importância para um homem condenado à morte, como ele. É ali, naquele momento de introspecção típico do cinema de Wenders, que o artesão toma a decisão mais importante de sua vida. A fotografia de Robby Muller (“Paris, Texas”) filma com abundância na chamada “hora mágica” – o nascer e o pôr do sol – e reveste o filme de uma luz suave, quase celestial.

Ainda mais interessante é a maneira como Wenders conduz a trama, equilibrando a narrativa entre as ações interior e exterior do personagem. No plano externo, há duas seqüências de assassinato brilhantemente fotografadas, cheias de tensão e suor frio – Wenders estica até onde pode a tensão da cena no metrô e constrói um pequeno momento de obra-prima do thriller cinematográfico. Já no plano interno, a ação é ainda mais fascinante, pois os acontecimentos envolvem Jonathan como um turbilhão e o fazem mergulhar em um caleidoscópio de sensações. Ele sente uma excitação que o faz sentir-se, paradoxalmente, mais vivo do que nunca, embora esteja tão perto da morte. E o final, alegórico e poderoso, pode ser triste ou alegre. Depende apenas da maneira como você, espectador, interpreta o personagem à guia das própria emoções. Muito bom.

O lançamento no Brasil é de responsabilidade do estúdio New Line. Não há extras, mas a qualidade do filme está boa: imagem com cores perfeitas e enquadramento correto (widescreen 1.66:1) e som em dois canais (Dolby Digital 1.0).

– O Amigo Americano (Der Amerikanische Freund, Alemanha, 1977)
Direção: Wim Wenders
Elenco: Bruno Ganz, Dennis Hopper, Lisa Kreuzer, Gérard Blain
Duração: 127 minutos

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