Amigo Oculto, O

09/06/2005 | Categoria: Críticas

Colagem de momentos de obras-primas do horror rendem filme tão razoável quanto sem lógica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Bons cineastas já aprenderam, há muito tempo, que crianças podem render personagens muito mais ricos e eficientes, em filmes de horror, do que adultos. O mestre Stanley Kubrick mostrou que compreendia muito bem isso ao fazer “O Iluminado” (as cenas em que o pequeno Danny conversa com o próprio dedo indicador dão calafrios até em alma penada). Pois bem: a obra-prima de Kubrick fornece uma das peças fundamentais para a colagem de referências utilizadas pelo cineasta John Polson no razoável suspense “O Amigo Oculto” (Hide and Seek, EUA, 2005), um filme que poderia ser bom, se não tivesse um clímax sem lógica, previsível e longo em excesso.

O nome que sobressai na ficha técnica de “O Amigo Oculto” é o do veterano Robert De Niro, mas não é ele quem interpreta o personagem enigmático em torno do qual a ação do longa-metragem se desenvolve. A dona da festa é a garota Dakota Fanning, que tinha 10 anos na época das filmagens. Ela é Emily Callaway, garota que fica traumatizada, quase em estado catatônico, depois que a mãe corta os pulsos dentro da banheira do apartamento. O pai dela, o renomado psicólogo David (De Niro), sabe que precisa proporcionar à filha um ambiente amistoso e novo, a fim de ajudar na recuperação. Por isso, se muda com ela para uma ampla e sinistra casa nos bosque, nos arredores de Nova Iorque.

O comportamento de Emily, arredio, fica ainda mais distante e introspectivo quando a garota anuncia que tem um amigo imaginário chamado Charlie. A princípio, David não dá importância, e imagina que Emily possa ter criado o personagem fictício como forma de lidar com o sofrimento pela perda da mãe. Logo, acontecimentos estranhos mostram que a realidade pode ser diferente, e o amiguinho imaginário pode ter uma índole violenta. No meio tempo, no vilarejo local, David faz amizade com uma bela divorciada que também cuida de uma menina (Elisabeth Shue, fazendo o papel de uma mulher de mesmo nome), e troca amabilidades com um casal vizinho que age de modo estranho.

“O Amigo Oculto” é uma colagem de boas referências. A idéia principal em torna da qual gira o enredo – o amigo imaginário que pode ser real – tem inspiração em um caso verdadeiro que foi transformado em filme: “Amityville Horror”. O longa-metragem, que também marca a estréia do roteirista Ari Schlossberg, bebe de outras fontes. Ecos de “Psicose” respingam na trama, e a música-tema de abertura, com um coral infantil entoando uma melodia gótica, deixa mais do que evidente outra forte inspiração, o grandioso “O Bebê de Rosemary” – a música de John Ottman é quase um plágio da assustadora melodia que embala os sonhos de Mia Farrow na alucinação sobrenatural de Roman Polanski.

Para resumir, Schlossberg foi buscar idéias para escrever seu primeiro roteiro em obras-primas do gênero de horror. Só que não soube utilizar os clichês em proveito de uma história sólida. Os personagens, a rigor, não passam de meras caricaturas, e o espectador jamais chega a acreditar que eles poderiam ter uma vida longe das câmeras. Mesmo assim, durante dois terços do filme, existe um forte clima de suspense. Sem os habituais sustos envolvendo reflexos inesperados nos espelhos ou portas batendo, os nervos do espectador ficam à flor da pele. “O Amigo Oculto” é bem razoável até a meia hora final, quando descamba para um clímax noturno que beira o risível.

Há, é claro, uma reviravolta que pode ser adivinhada 15 ou 20 minutos antes de acontecer. Ao invés de encerrar o longa-metragem logo após o fato, porém, John Polson prefere esticar a duração além do limite do suportável, incluindo – finalmente – todos os clichês que havia evitado até então, incluindo uma perseguição improvável e o confronto final entre um herói e um vilão. “O Amigo Oculto” demora tanto a terminar que permite que o espectador comece, ainda dentro do cinema, a repassar o longa-metragem mentalmente, o que acaba por deixar flagrante a falta de lógica narrativa.

Um exemplo: a certo momento do filme, David Callaway acorda de madrugada, ouve ruídos e descobre o homem que lhe vendeu a casa tentando enfiar um envelope com chaves embaixo da porta. O sujeito dá uma desculpa qualquer e vai embora. Quando o filme terminar, tente se perguntar qual o motivo da inclusão de tal seqüência no filme: simplesmente não existe nenhum motivo para ela estar lá, já que a ação do desconhecido não acrescenta nenhuma informação à narrativa, e sequer é lembrada mais à frente.

A platéia também tem o direito de questionar o comportamento gélido e hostil de Emily, durante todo o filme, depois que certos fatos a respeito do misterioso Charlie são revelados, no terço final da projeção. Quais os motivos que levaram a menina a agir daquela maneira, mesmo na presença do pai? Como você, leitor, agiria diante do seu pai, se estivesse no lugar de Emily? Tente responder a essas perguntas quando o filme tiver terminado, e você vai perceber que não existe lógica narrativa em “O Amigo Oculto”.

Por fim, o pior erro é o aparecimento descabido de certo personagem, na casa dos Calloway, justamente quando a grande revelação do longa-metragem é mostrada à platéia. Não havia nenhum motivo para o personagem em questão estar ali, e o filme sequer se preocupa em arranjar uma. Em resumo, o longa-metragem é construído meticulosamente para envolver a platéia em um mistério, e o truque funciona durante algum tempo, mas a sensação que fica após o fim do filme é de trapaça. E ser trapaceado é algo que nenhum espectador gosta.

– O Amigo Oculto (Hide and Seek, EUA, 2005)
Direção: John Polson
Elenco: Dakota Fanning, Robert De Niro, Famke Jansen, Elizabeth Shue
Duração: 101 minutos

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